Viajantes para todos os gostos – Koh Rong Samloen / Koh Rong

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Comprar o guia da Loneny Planet para 2023 ou consultar blogs antes de partir? Ou será que os Rough Guides são melhores? De repente tenho cinquenta anos e marco todos os detalhes do percurso numa agência de viagens para não ter de me preocupar com pormenores? Ou não marco absolutamente nada de antemão, apenas o meio de transporte, e à chegada logo se vê?

Há várias formas de viajar. Umas não são melhores que as outras. O que sucede é que umas servem determinados propósitos enquanto outras não. Umas adaptam-se a certas personalidades enquanto outras são úteis em determinados momentos da nossa vida. É só isto que me parece acertado dizer.

Há quem goste, antes de chegar ao destino, de saber sem margem de erro tudo o que vai fazer, onde vai pernoitar, o que vai comer, o que quer visitar e até quem sabe quando ocorrerão os seus movimentos intestinais. Quase como se toda a viagem já tivesse sucedido mesmo antes de começar. Estes são aqueles que usualmente viajam com filhos, já entraram numa idade adulta avançada ou que, pura e simplesmente, não querem deixar a sorte ao acaso. Preferem saber tudo de antemão e está tudo bem assim. Como se costuma dizer, ainda bem que não somos todos iguais. Caso contrário o mundo seria um lugar sem piada alguma.

Por outro lado, há quem goste de não saber absolutamente nada do que se vai passar. Nem o tipo de comida tradicional do sítio que vai visitar, nem tão pouco as atividades que aí se podem aproveitar, nem tão pouco se há acomodação a preços acessíveis ou não. ‘Precisamos de ir do ponto A para o ponto B? Vamos de boleia!’. ‘Não há onde dormir? Então não há? Uma rede entre duas árvores ou um templo haveremos sempre de arranjar’. Estes são aqueles que têm vinte anos, estão no seu gap year e nada têm a perder. Mais uma vez, está tudo bem assim. Ainda bem que há viajantes para todos os gostos.

Mas na verdade há uma terceira espécie de viajantes, aqueles que são um ponto intermédio entre os dois extremos que acabo de descrever. Não é que não atribuam valor ao conforto, não é isso. Mas às vezes fechar os olhos e simplesmente avançar pode levar a boas surpresas, a experiências inesperadas que apenas viveremos se optarmos por viajar assim, meio à sorte. Não é que, de repente, estes estejam dispostos a perder o seu precioso tempo ou a deixar de viver uma certa experiência. Também não é isso. Só não querem sentir que não têm liberdade de movimento alguma quando o propósito da viagem foi precisamente o de se libertar de instruções repetitivas típicas do quotidiano de qualquer um de nós.

Quando se viaja sem nada marcado há sempre um misto de sentimentos. Por um lado há aquele nervoso miudinho de não saber o que se vai encontrar pela frente, onde se irá dormir, como lá se chegará, quem vamos conhecer ou como vamos reagir perante determinada adversidade. Por outro, instala-se um sentimento de conquista. Naquele momento somos imparáveis, qual Indiana Jones dos tempos modernos com as habilidades do McGyver que nos ajudarão a resolver todo e qualquer problema que se atravesse no caminho. Nestes casos estamos sempre preparados para tudo. A viagem até pode virar um filme de aventura com laivos de terror, não há problema. Haverá sempre um protagonista que, no final, sobreviverá a todas as balas e que terá na sua bagagem uma boa história para contar. Quem é que não gostaria de ser um protagonista num filme assim?

Não há boas nem más formas de viajar, apenas formas diferentes. É tal e qual assim, tudo não passa de uma questão de gestão de expectativas. Quanto a mim, que pouco ou nada tenho vindo a esperar, depois de chegado às ilhas situadas no sul do Camboja sem nada preparado de antemão resta-me prosseguir viagem e deixar-me com o vento levar. Até à data tudo correu bem, e quem sabe o que o futuro tem para me reservar?

Texto e fotografias por João Barros

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