A memória de uma pedra – Siem Reap / Angkor Wat

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‘Desde sempre, desde que há memória, as pessoas viajam e fazem milhares de quilómetros apenas para ver pedras’. Esta frase foi-me dita por alguém há uns tempos em Istambul, em pleno mês de setembro, e verdade seja dita deixou-me a pensar sobre o assunto.

Templos antigos tomados de assalto pela natureza em pleno norte do Camboja. Um Coliseu em Roma. Uma cidade escavada na rocha em Petra. Mas não só. Uma Grande Muralha que serpenteia por entre montanhas orientais, três pirâmides que se erguem rumo ao céu desde o planalto de Gizé. Uma cidade perdida no alto da cordilheira dos Andes, círculos concêntricos de rochas que dão pelo nome de Stonehenge, um mausoléu em plena Índia, memória de um amor perdido. Até uma basílica no Vaticano, construída em nome de Pedro, que a todos um santuário pretende oferecer. Sem pedras, nada disto existiria…

Será então que é mesmo verdade? Viajamos e galgamos milhares de quilómetros só para ver pedras, pedras e mais pedras? Ou as pedras são ainda algo mais para além disso?

Viajamos por muitos motivos. Para caminhar por trilhos escondidos no meio da selva rumo ao desconhecido, para nos deslumbrarmos com vistas de incontáveis montanhas que se perdem no horizonte. Viajamos para explorar grutas apenas iluminadas pela luz envergonhada proveniente de lanternas timidamente presas à nossa testa, mas também para nos banharmos no mar azul-turquesa de praias selvagens. Aí, onde repetidamente as ondas se deitam – e deleitam – sob a areia branca que delimita a fronteira entre mundo terrestre e aquático. Entre a arquitetura clássica das ruas de Paris e os modernos arranha-céus que se erguem na Cidade que nunca dorme, há pedras para todos os gostos.

Mas será então que é mesmo verdade? Tudo visto e revisto, devidamente ponderado, será que só viajamos mesmo por causa de pedras? Será que há algo mais sobre pedras para além disso?

Caminhamos sobre elas, escavamo-las, empilhamo-las, polimo-las e por vezes até as expomos em museus. Não só. Em muitos locais idolatramo-las, esculpimo-las e até nelas os dez mandamentos escrevemos. Nelas cravamos espadas de forma definitiva e à sua volta criamos lendas. Que o diga uma tal távola redonda, onde o Rei Artur e os seus cavaleiros reuniam sem aparente – mas sempre existente – hierarquia.

Porra! Se calhar isto das pedras vai mesmo ainda mais além do que apenas viajar por causa delas. Queres ver que há mesmo ainda mais que se lhe diga?

‘Tens a cabeça dura como uma pedra’, ‘estou aqui a falar para a parede’. ‘Isso é uma pedra no sapato’, ‘vamos pôr uma pedra sobre o assunto’. Até no vocabulário as pedras fazem parte do nosso dia-a-dia. Sem que disso sequer tenhamos dado conta, as pedras conquistaram no nosso quotidiano um lugar de proa ao qual hoje em dia não podemos escapar. Aliás, a importância delas é tal que não passou ao lado da imaginação de poetas e escritores, que deparados com rochosos obstáculos tanto escreveram ‘Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo’, como ‘Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral’.

Quem diria, então é mesmo verdade…

As pedras guardam segredos esquecidos, mistérios por resolver. Línguas mortas por redescobrir, aventuras por viver. Mas mais do que isso, cada pedra guarda uma memória e conta uma história. Quão bom seria conhecer as histórias que cada pedra tem para contar?

Texto e fotografia: João Barros

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