Sabaidee! – Luang Prabang

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Tal como os super-heróis nos seus fatos de licra excessivamente apertados, também as palavras têm superpoderes. Muitos e variados superpoderes.

Pelo uso da palavra, somente da palavra, tanto é possível começar uma guerra como alcançar a tão desejada paz. Uma palavra pode magoar mais que uma seta que nos atravesse o coração, como pode também despertar em nós a recordação do cheiro à relva molhada acabada de cortar num dia de verão – há lá melhor sensação que essa? Uma palavra pode gerar mal entendidos, sim, mas pode igualmente ajudar a descomplicar aquilo que parece não ter volta a dar. Entre outros, estes são alguns dos superpoderes das palavras.

Há muitas palavras. Palavras para todos os gostos e feitios. Não é possível enclausurar num dicionário todas as que existem, tal está claramente fora de questão e do nosso alcance. Entre todas as línguas e dialetos falados por esse mundo fora, entre todo o calão que diariamente invade a nossa casa vindo da porta da entrada mal fechada, entre estrangeirismos adaptados para nosso próprio conforto e as novas palavras que brotam da promiscuidade que é o desenvolvimento das novas tecnologias e o mundo em que vivemos, pura e simplesmente há palavras a mais. Os dicionários de capa dura já não servem de nada porque as palavras, como nós, estão sempre a evoluir. E também este é um seu superpoder.

Assente que está que palavras há muitas, ainda assim há palavras especiais. Umas que nos marcam e ficam connosco, que carregamos junto ao peito durante anos, outras capazes de dar a volta ao nosso ser e revolucionar a forma como vemos o mundo. Podemos estar a atravessar bons ou maus momentos, situações de euforia ou de tristeza, de frustração ou de iluminação. Não interessa. O que interessa é que há palavras que têm para nós um significado especial, que nos marcam. E podem marcar-nos apenas e tão só pela forma como foram entoadas, cantadas ou trauteadas, como também pelo sentimento que temos pela pessoa de cuja boca as ouvimos. Uma panóplia de possibilidades.

Depois de ter entrado no Laos passou a haver para mim uma nova palavra especial. Sabaidee!. (sim, esta palavra tem sempre de ser escrita seguida de um ponto de exclamação)

Sabaidee! é utilizada no Laos como forma genérica de cumprimento e salutação. É o ‘bom dia!’, o ‘olá!’, mas também o ‘então, como estás?!’ ou até o ‘que bom ver-te por aqui!’. Sabaidee! é isto sim, mas é mais. Muito mais. Vai mais adiante que um tradicional ‘bom dia’ português, que tanto pode refletir um genuíno cumprimento de alegre e sã convivência, como uma mera formalidade que pesarosamente tem de ser respeitada por quem serve um café às 7h45 numa manhã chuvosa de março… Sabaidee! é muito mais que um ‘então, como é que vai isso?’ ao qual muitas vezes desejamos não haver resposta, tudo porque a pressa para chegar a casa e tirar os sapatos ao fim do dia fala mais alto que a vontade de se iniciar uma nova conversa.

Mais do que uma mera formalidade, Sabaidee! é uma forma de transmitir carinho e pressupõe sempre uma exclamação surpreendida – dotada de genuína felicidade – por nos cruzarmos com alguém. É uma forma de transmitir calor num país em que calor não falta, ainda que se provier de um alegre sabaidee! seja sempre bem vindo. Ao mesmo tempo, sabaidee! é um mergulho refrescante numa das mil e uma cascatas que calmamente se deixam cair perto de Luang Prabang, um daqueles que ajudam a esquecer as elevadas temperaturas que por cá se fazem sentir. Quando alguém nos dirige um sabaidee! – e aqui no Laos toda a gente nos dirige sabaidee! a toda a hora -, sabemos que há um motivo para sorrir, que há uma razão para a felicidade em estado puro que se renova cada vez que ouvimos tais letras por essa mesma ordem. Um sabaidee! é um abraço apertado sob a forma de palavra, uma palmada nas costas de um velho amigo, um ir pela rua fora a cantarolar para espantar os nossos problemas sem que deles sequer nos apercebamos.

Quando ouvimos sabaidee! sabemos que verdadeiramente alguém nos deseja um dia bom. Que no seu íntimo alguém deseja que tenhamos um dia repleto de boas sensações. Se assim não for, pelo menos desejam-nos que o alegre dia que estão a viver se estenda também a nós, que as próximas vinte e quatro horas sejam um momento prazeroso de incalculável satisfação e bem-estar.

A melhor forma de explicar o verdadeiro superpoder de um sabaidee!, e porventura o único requisito não escrito de que depende a utilização correta da palavra, é dizê-la em voz alta. Rapidamente se chega à conclusão que não é possível dizer sabaidee! sem esboçar um sorriso escancarado por baixo de olhos enrugados. Não que sorrir com os olhos enrugados seja uma alusão à velhice, nada disso. É apenas a constatação de que, quando dizemos sabaidee!, aquelas rugas de felicidade que todos temos – e que, por vezes, nos esquecemos nos pertencem mas que estão sempre lá prontas a ser utilizadas – florescem em nós, tal como o girassol desperta quando o sol decide dar um ar da sua graça.

Não conseguir explicar por palavras o sentimento que uma palavra provoca em nós é um fenómeno estranho. Felizmente há uma solução para um tal problema. Ainda que seja para o vazio, sem destinatário, aqui vai, já com um sorriso de orelha a orelha plantado: sabaidee!

Só exclamando sabaidee! em voz alta se consegue verdadeiramente sentir o que significa. Só exclamando sabaidee! em voz alta é possível descobrir o seu verdadeiro superpoder.

Texto e fotografia: João Nuno Barros

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