No centenário de Levi

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No ano em que se assinala o centenário do nascimento de Primo Levi, lançámo-nos no projecto de levar à cena um texto que é considerado um dos livros fundamentais da literatura europeia: «Se isto é um homem», no qual Levi descreve a forma como conseguiu sobreviver no campo de concentração de Monowitz, que integrava o complexo de Auschwitz, e como logrou manter a humanidade num sítio concebido para reduzir os prisioneiros a coisas. Tendo tido um impacto bastante discreto junto do público aquando da sua primeira publicação, em 1947 (não sem antes ter sido recusado por duas editoras), «Se isto é um homem» foi editado na Einaudi em 1958, traduzido em dezenas de línguas, e é hoje em dia uma das obras basilares para o estudo do holocausto. O livro continua a integrar os cânones escolares, para que os horrores cometidos durante a II Grande Guerra jamais sejam esquecidos: era essa também a intenção de Primo Levi.

São poucas as versões em teatro de «Se isto é um homem». O próprio autor participou em 1966 numa adaptação para teatro do seu texto, a qual foi estreada em Turim, com direcção de Gianfranco De Bosio, e com a participação de 54 actores de sete nacionalidades distintas. Mas Levi não terá ficado satisfeito com o resultado do espectáculo, e deixou expresso que não autorizaria futuras adaptações da sua obra nem para teatro nem para cinema. Esse desejo foi respeitado pelos seus herdeiros, com raríssimas excepções.

Convidámos para este projecto uma dupla cujos percursos no teatro nunca se haviam cruzado: o encenador Rogério de Carvalho e o actor Cláudio da Silva. Renovámos ainda a colaboração com dois criadores que ficarão para sempre ligados à nossa Companhia: os arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, que assinaram a cenografia do espectáculo. (Manuel Graça Dias viria a falecer em Março deste ano, sendo-lhe atribuída postumamente a Medalha de Ouro de Mérito Cultural da Cidade de Almada no primeiro dia da carreira da peça).

«Se isto é um homem» estará em cena até 15 de Dezembro na Sala Experimental do TMJB, de Quinta a Sábado às 21h00, e Quartas e Domingos às 16h00 – a grande afluência de público obrigou-nos já ao agendamento de sessões-extra. E, à imagem do que tem acontecido em nas nossas criações, à margem das representações manteremos aos Sábados à tarde um ciclo de «Conversas com o público» (no ‘foyer’ do teatro, com entrada gratuita), desta vez animadas pelo poeta e professor Fernando Pinto do Amaral. No Sábado 30 de Novembro conversaremos com Rogério de Carvalho e Cláudio da Silva; no Sábado 7 de Dezembro com Luís Filipe Castro Mendes (diplomata, escritor, ex-ministro da cultura), Diana Andringa (jornalista) e José Mário Silva (escritor e crítico literário do Expresso); e no Sábado 14 de Dezembro com Irene Flunser Pimentel e com a descendente de uma sobrevivente do holocausto. Como pano de fundo, a pergunta: até que ponto estamos a ser capazes de transmitir a memória às novas gerações?

 

Por Rodrigo Francisco

Fotografia: Rui Mateus

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