Mal me quero

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Uma mulher de meia-idade, balzaquiana como se diria noutros tempos, limpa o pó a uma jarra de malmequeres na sala de jantar junto à janela debruçada sobre as Caldas. A expressão do rosto, pálido, olheirento, triste, diz sofrer de enfado, aonde, como os raios de sol, a espaços, num dia de tempestade, se divisam raios de esperança. No íntimo onde ninguém chega, e onde as palavras apenas servem de bálsamo, sofre de amores: de amor-próprio e do amor por um homem, onde um dia achou estar o sentido da sua vida. Pega numa flor, inala-a e interrompe a lide.

 

– Malmequer, bem me quer, mal lhe quero, mal me quero… (repete, até depenar a flor). Raios te partam! Promessas, cios, de ti quero só a verdade, por muito que doa (imita-o). Pulha! Mal te quero! (Grita e parte a jarra. As flores espalham-se pelo chão. Senta-se no chão. Chora). Como pude acreditar em ti. Como! Sirvo-te para te lavar a roupa, fazer-te a comida, engrandecer-te, ser-te e é isto que tens para me dar. Mal te quero! MAL TE QUERO! Oxalá nunca sejas capaz de nada. Devia ter-te capado no dia em que soube. Eu sabia, mas estúpida, não queria ver. O amor livre, amor, o poliamor. Nunca deixou de ser ela. Ela! Foi sempre ela, a tua vaidade, como é sempre uma coisa qualquer, por mais que tentemos andar para a frente. Podia ter-te envenenado com as minhas migas, as tuas migas como só eu as faço, como nenhuma outra (imita-o). Aposto que dizes o mesmo a todas. Como dirás que o meu broche, o meu cu, a minha cona, a minha pele, o meu cheiro, a minha voz, a minha leveza… é tudo melhor do que qualquer outra. Deves ter dito o mesmo à Helena do guiché enquanto te pavoneavas nos corredores das termas a mostrares o teu arcaboiço. A esta hora deves estar montado nela. A resfolegares, a fazer o teu exercício, a ocupares o teu vazio, até ao dia em que morrerás da tua overdose, como morrem os que se drogam, os que bebem, os que odeiam tudo e todos. Odeio-te! Cabrão! Pulha! (agarra nas flores e rasga-as todas, menos uma, afastada das outras). A Sofia, a Clarinha, a Odete, a Paula… e todas, todas maravilhosas, mas enfim, a vida continua, a viagem continua, o tempo não pára, e que diabo, eu só queria saber de mim, dos meus pais, dos meus amigos, do meu dinheirinho certo de professora. Tu não. Tu é que eras o visionário, o descobridor, que achavas estar no mundo para lá destes calhaus perdidos no mapa a resposta para a vida, quando a vida, Ricardo, a vida, é isto. Limpar o pó. Arrumar a casa, cuidar, limpar, arrumar, acarinhar (rasteja e agarra-se à flor e beija-a). Tão simples, Ricardo. Tão simples. Tão simples como as águas livres. E não são só as mulheres que são capazes destes gestos. Tu também és capaz. Tu também eras capaz de parar de caminhar, quando íamos para o paredão, e olhar as pedras e entrares nelas, na sua natureza, na água a bater no molhe, nos reflexos da luz, nas casas velhas, nos gestos dos homens ali, os pescadores, os loucos, os vagabundos, aquele homem de barbas longas e pés descalços a quem invejaste a liberdade, por estar na praia, sozinho, com uma tenda, uma mala, sem nada, sem ninguém com ele, deitado e absorto horas com a água toda à sua frente. Livre! Tu, o mais certo era estares logo a pensar no Vasco da Gama, no Mendes Pinto, nos Pêros todos, e a fazeres contas de cabeça, achando que esses é que foram os grandes homens da nossa terra, tão grandes como o mais nobre dos vagabundos. Vem comigo, Maria. Vem. Vamos dar a volta ao mundo. E eu, tonta, ainda vacilei, ainda fiz contas, ainda pensei em vender tudo e ir contigo. E depois? Quantos meses ou semanas ou dias depois me dirias que a viagem continua, incapaz de me dizeres que os meus pés já estavam velhos e gastos, o meu cabelo estava baço, os meus olhos tristes, o meu corpo já nada te dizia… Não te preocupes, Maria, és digna do maior amor. Eu amei-te, muito. Eu amo-te, muito! Eu odeio-te muito. Eu amo-te, Maria, quando se diz que se ama é para sempre que fica dito! (imita-o) Cabrão. (chora). Acreditei uma vez. Acreditei outra vez, como acreditei naquele labrego de boas famílias, que foi capaz de foder sei lá quantas gajas na mesma cama onde dias antes de se ir embora me abraçava. Na mesma cama onde me fez um filho que nunca quis verdadeiramente! Como foste capaz de me enganar! A culpa é minha. Olhava para ti e via um deus. Nunca tive tanto prazer. Nunca me senti tão mulher. Nunca olhei para um homem, e logo disse, este é o meu homem.

Quem é para nós é quem cuida de nós, sabes? Podias ter fodido meio mundo, mas nunca podias ter deixado de cuidar de mim. Foi isso que me magoou. Mas eu deixei. A culpa foi toda minha. Deixei que te instalasses. Deixei que reinasses e arrasasses tudo com as tuas promessas. Porque prometeste? Porque não me disseste apenas que era um passatempo? Uma mulher do caminho? Uma foda? Sou uma foda? É isso? Foi isso? Ricardo, sou uma mulher. Nunca a tua mãezinha te disse que não se bate numa mulher nem com uma flor? Nunca me bateste com as tuas mãos delicadas, mas foste capaz de me arrasar. Antes tivesses batido, se calhar. Ou antes tivesse enchido o teu souflé de veneno, gota a gota, e tivesses mor- rido de uma doença estranha. Como foste capaz? Como pudeste falar-me de amor, de Amor, de encontros raros? (Deita-se no chão, de borco, e deixa-se estar, de rosto para o lado). Mariazinha, querida Maria, meu amor, meu doce, minha flor, vamos dar a volta ao mundo? Para que precisamos de dar a volta ao mundo se tudo o que precisamos para sermos felizes está aqui? Disse-te eu. Faz-me um filho, vamos ter um filho só nosso, disseste, e talvez o tenhas sentido, mas como quando tentámos não aconteceu, achaste logo que eu não era capaz, e nem sequer te questionaste se eras tu que não eras fértil! Tinha-te dado um filho! Tinha cuidado dele, como cuidei de ti desde o primeiro dia. E não te amaria menos. Talvez te tivesse amado mais. Ricardo, porque me deixaste sem seres capaz de me dizer uma única palavra? Que sei eu de ti? Que sabes tu de mim? Sempre aceitei a tua vida, a tua vida de artista, mas sempre achei que fosses capaz de te transformar por amor, pelo amor que disseste me tinhas. Mas era muito mais fácil continuares a tua viagem. A vida não pode parar. Um dia morremos, ao menos que essa morte venha e possamos rir de tudo o que não deixámos de fazer! (imita-o). Estás assim tão certo de que quando a morte te chegar é no sexo fantástico que tiveste que vais pensar? Alguma vez o sexo foi para ti o sexo de quem se entrega como quem dá a vida por outro, por um filho? Tenho nojo de mim! Tenho nojo de ti! Tenho nojo de ter dado o meu corpo a um homem que nunca foi capaz de ter uma conversa sincera e dizer-me, não sou capaz de amar nada nem ninguém. Não sou capaz de estar contigo, nem com ninguém, e sofrer por amor, como se sofre apenas por estarmos vivos e nada sabermos do que virá depois. Não me dás o que quero, disseste uma vez, fosse isso o que fosse. Falavas do quê? Do meu corpo disponível como uma puta? Não sei o que queres. Sei o que nunca quis. Nunca quis sentir-me tão imunda como este pano do chão. Tão destruída como estas flores. Tão seca e gretada como esta terra. Não fui contigo atravessar os desertos do mundo porque no fundo nunca acreditei em ti. Tenho em mim a força, num vaivém incessante. É dessa força que nasce tudo. É dessa Força que me nasce(u) Tudo. Só um homem, um Homem, poderá dizer – envolto nessa dança, nesse bailado da alma – como é do sexo, do sexo para além do sexo, do sexo onde triunfa o Amor, que a vida, a Vida, vale a pena. Para uma mulher, uma Mulher, depois de ser mãe, de Ser Mãe que já o era, um homem passa a ser outra coisa, uma Coisa onde poderão desaguar as forças do amor. Mas o Amor, esse, o incondicional, passa(m) a ser o(s) filho(s). O(s) filho(s) nascido(s) de Si, espelho(s) de Um Homem, um Amor, Uno, visceral. Eternos enigmas. Deita as cartas da verdade na mesa, no chão, no tampo de pedra negra da cozinha. Deito as minhas cartas. Cruas. De amor, cru. É a ti que quero, foste sempre tu. É em ti, nesse rosto rasgado por uma beleza cavada e funda, um abismo de onde a espaços saem rasgões de claridade, como quando viajas ao teu passado, aos teus, à tua gente. É profundamente sexual o que quero de ti, e como tal tem implícito o ciúme e a raiva. O ciúme de quem quer o outro e para quem a sua ausência e rejeição são insuportáveis e conduzem à raiva e ao ressentimento. No teu lado irracional é assim certamente, porque só pode não ser assim quando o desejo se dissipa. Quando morre o amor. Se são os filhos, os desgastes, os medos, o realismo insuportável que te impedem de chegares mais vezes a mim e a ti, a ti Mulher, a ti fêmea magnífica (por muito que assim não te vejas), e desfrutares do teu corpo e do meu, gozares os prazeres da vida, não sei. Sei que não posso deixar de viver, vivendo-te sempre como tudo o que mais me revolve, com a paixão febril de todos os dias. Querendo-te em mim, em ti, apaixonada pelo que somos capazes de fazer um no outro, um com o outro. (imita-o). Aqui, sim, estavas certo. Todas as vezes que me dei a ti, estou certa de que foi por amor. Sabes, Ricardo, as mulheres não amam como os homens. Não se despem como os homens. Não pensam e sentem como os homens. Podes achar que todas te querem mal, como a tua mãe te quis, que nunca te desejou. Mas foste amado, és amado, és infinitamente amado, como somos todos os que andamos nesta terra. Mas se não te amas, como podes tu amar alguém? Eu não me amo, Ricardo, mas amei-te. Mal ou bem.

 

Por Tiago Salazar

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