Escolhas

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No início de março, estávamos numa fase diferente da vida do nosso país. Antevia-se um ano de contas nacionais de saldo positivo. Para uns era o princípio de uma promissora história, para outros apenas um fogacho de vida auspiciosa, mas que rapidamente se desvaneceria. Isto, dependendo de se ver o governo com bons ou maus olhos ou, pura e simplesmente, conforme se seja otimista ou pessimista. Em todo o caso, um ano com contas nacionais como em nenhum outro nas últimas décadas. O turismo liderava a performance económica tendo valido 14,6% da economia nacional em 2019.

De repente, parece que um vírus, batizado, depois, de Covid 19, acordou lá pela China e pensou: Portugal com superavit!? Isso é que era bom. Nah! Vamos lá arranjar uma maneira de baralhar essas contas.

Acontece que, enquanto estávamos confinados, vimos imagens das grandes cidades despoluídas e dos mares que, à medida que os céus ficavam mais azuis, ficavam mais turquesa. Porque pudemos apreciar a imagem definida da Torre Eiffel, a arrojada arquitetura dos arranha-céus de Shangai, o brilho dos prédios de Downtown LA e, porque nos chegavam noticias de sítios como a Madeira, em que se testemunhava um aumento claro da variedade de peixes e dos cardumes, começámos a pensar que, se calhar, do que o vírus se fartou foi da poluição das cidades, da libertação dos gases responsáveis pelo efeito estufa, dos plásticos nos oceanos, da continua desmatação que, de resto, parece poder ser a causa do vírus ganhar consciência da nossa existência, em primeiro lugar. No que dizia respeito à nossa economia era só mesmo uma coincidência.

De repente, ficou no ar um certo “estava-se mesmo a ver”. Estava-se mesmo a ver, com esta dependência da produção da China e com os circuitos longos entre a produção e o consumo, estava-se mesmo a ver com esta vida que levamos e… estava-se mesmo a ver com este turismo. Ora, este salto, não é só um salto errado, como é um salto a que não nos podemos permitir. Compreensivelmente, é um salto dado por aqueles que, por viverem nos bairros e artérias mais alteradas pela atividade turística, no Porto e em Lisboa, que viram os seus bairros virados do avesso, ou mesmo que se tenham de ter mudado, num fenómeno de gentrificação de que, por este dias, já toda a gente ouviu falar, acham que o turismo foi uma justa vítima do Covid e que agora, sem ele, é que se voltava a ver a cidade como é devido que ela seja. Isto é errado, porque os turistas não são um fator estranho às cidades, são parte integrante delas. Já não é tão compreensível quando o turismo é culpado da dependência que 14,6% do PIB representa, como se fosse da sua responsabilidade que as outras atividades não acompanhem.

O turismo é, hoje, o terceiro setor exportador mundial. Portugal é um país que, chegado à revolução industrial, sem ferro e sem energia fóssil, esteve condenado a ser pobre. Podia ter feito das tripas coração e nós podemos martirizar-nos o que quisermos. À luz desse modelo, não tínhamos condições para ser outra coisa. Então, agora, que temos finalmente um recurso valioso, por 3 vezes considerado o melhor destino turístico do mundo – o reconhecimento, no turismo é fundamental para o valor do recurso – que pode ajudar definitivamente as finanças do país, vamos nós, de moto próprio, travar a atividade? Ser o primeiro e o melhor não pode ser só importante quando são os outros a consegui-lo e estarmos sempre à procura da desvalorização quando somos nós fazê-lo. Em Portugal, se alguma coisa há a apontar, é termos começado tarde. É que pelo menos desde 2002 que Espanha está permanentemente nos 3 primeiros lugares do ranking mundial da Organização Mundial do Turismo, e quando, em 2016 ou 2017, não faltava quem, acerca da atividade económica dissesse “olhem para Espanha”, não vi ninguém, a seguir, fazer a ressalva de que era muito dependente do turismo. É que já em 2017, em Espanha, o turismo significava 14,9% do PIB. Ah, e já agora, na UE, vale mais de 10%.

O turismo é uma atividade característica das sociedades capitalistas e daquela parte capitalista do maior regime comunista, que era já, até há pouco, o maior emissor de turistas.  O turismo acontece em consequência de, e por isso, necessariamente depois. Como o conhecemos, o turismo dá os seus primeiros titubeantes passos na segunda metade do séc. XIX, mas só porque a revolução industrial, especialmente a segunda revolução industrial, com a implementação de significativas distâncias de linhas de comboio e motorização dos navios com máquinas a vapor, permitiu massificar o transporte. É só depois da II Guerra, depois do direito a férias pagas ter sido incluído na Declaração Universal dos Direitos do Homem, que se cria a condição mínima para o início da massificação do turismo. Ainda assim, claro, a diferentes velocidades nos diferentes países, a braços com a reconstrução do pós-guerra e sob diferentes regimes. Em Portugal, por exemplo, até 1974, uma boa parte das pessoas, tinha direito a oito dias de férias pagas depois de “cinco anos de bom e efetivo serviço”. Se falo disto é apenas para ilustrar o que digo. O turismo não acontece do nada. Evolui em reação às alterações económicas e sociais que se vão dando.

Na sequência da pandemia, já há ideias que norteiam o futuro próximo do turismo, segundo os dirigentes europeus e nacionais que tutelam a atividade, bem como os agentes económicos do setor. Sustentabilidade, digitalização, qualificação dos recursos humanos, privilegiar o turismo interior, captar turistas de mais longe, porque permanecem mais tempo e gastam mais, e a criação do selo Safe Travel da OMT, que Portugal foi, de resto, o primeiro a obter, são exemplos do caminho a tomar.

Tudo isto é, porém, para voltar a pôr o turismo nos carris em que estava antes. Vai ficar tudo na mesma? Não, não irá. Por exemplo, nos bairros de Lisboa, muitos Alojamentos Locais encerraram a atividade e é pouco crível que voltem a ser emitidas boa parte dessas licenças. Mas se é para mudar, em resultado da pandemia, não é isso que devia estar em causa, aqui. Nós não aceitamos de bom grado, e bem, que o Estado intervenha no nosso direito à escolha enquanto consumidores. Estamos dispostos a pagar o preço? Por exemplo, se o estado limitar muito as licenças de AL é absolutamente crível que a Rayanair mude a sua operação do Porto e a Easyjet de Lisboa. Estamos confortáveis com isso? E, como em grande medida, as pessoas que se sentem incomodadas com o crescimento exponencial do turismo gostam muito de viajar, se os destinos começarem a criar objeções às suas viagens, estarão confortáveis com isso? Ou se se limitarem as viagens que as pessoas podem fazer por ano? Bom, acho que dá para perceber a ideia.

Se é para fazer doutra maneira, e se é para a nossa experiência recente contar, então tem de partir de nós, e o turismo está no fim e não no princípio.

A liberdade implica sempre responsabilidade. Se a afirmação for feita no contexto da política ou da educação, não há quem a questione. A liberdade que reclamamos no consumo, também deve impor responsabilidade. Estamos mesmos disposto a isso? Estamos, sequer, dispostos a acreditar que é através da consciencialização de cada um que vamos parar de comprar roupa em lojas cujo modelo de negócio é fast-fashion, que apresentam novas coleções, todos os meses, de roupa fabricada num lado do mundo e vendida no outro, com a pegada ambiental que isso significa? Que vamos parar de comer amêijoas que vêm do outro lado do mundo? Para dar só dois exemplos?

Em todo o caso, uma coisa é verdade. Íamos num caminho que parecia uma vereda. Forçaram-nos a uma pausa, pudemos oxigenar o cérebro e demos conta que, afinal, estamos numa bifurcação. O que fizermos agora depende, também, da nossa escolha individual, e isso, sim, marca o futuro.

 

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