Emergência Digital

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Não acho que seja de bom tom dizer que as crises têm aspetos positivos.

A minha geração andou na escola durante a década perdida, estudou durante a crise da dívida e procurou o primeiro emprego num mercado de trabalho em enormes dificuldades, graças à governação socialista de Sócrates e Teixeira dos Santos. Todas essas crises foram (e são) más. A verdade é que existe uma espécie de silver lining no momento em que vivemos, que é o despertar da sociedade para a evidência de que a transformação digital é possível e, aliás, desejável!

Isso está a acontecer numa academia em que muitos diziam ser impossível dar aulas online, num comércio com muito pouca presença digital, numa indústria em que a utilização de big data é residual, num mercado de trabalho que insistia em relacionar a produtividade com o número de horas que alguém passa dentro do escritório, num sistema político que fazia deslocações de carro e de avião para ter reuniões de algumas horas, e, talvez com maior relevância, em gerações inteiras de pessoas que não sentiam necessidade de se confrontar com a realidade digital. Mais de metade do país está em Teletrabalho e em Telescola. A infraestrutura de que precisamos neste momento, e no futuro próximo, é a digital: para as pessoas, para as empresas e para o Estado. É o que nos permite estar na corrida para um futuro altamente dominado pela tecnologia e uma economia cada vez mais dominada pelo conhecimento, ao invés do turismo, do imobiliário ou dos impostos sobre o consumo.

Esta é evidência de que já não faz sentido falar de transição, mas sim em transformação digital: ou a fazemos ou ficamos para trás. E infelizmente até ao momento não assistimos a muito mais do que anúncios, estratégias, planos, projetos piloto e coisas do género, que pouco mais são do que números políticos para dar a ideia de que se está a “trabalhar nisso”. Daqui a poucos anos, saber programar vai ser uma competência tão básica quanto falar inglês. Todos reconhecem a necessidade da transmissão das competências digitais, mas pouco acontece na reconversão de profissionais ou no ensino básico, cujo parque tecnológico ficou a última legislatura inteira sem ver um único euro de investimento.

Os avanços que se fizeram na relação do cidadão com o Estado continuam esbarrar em obstáculos como códigos do CC, chave móvel digital e leitores de cartões. Continuamos a ter procedimentos a demorar mais tempo do que aquele que temos, e que precisam de ser digitais. E no nosso setor empresarial, em grande parte constituido por micro, pequenas e médias empresas, vemos a vontade de reconversão para um novo mercado depois do COVID perdida na asfixia em impostos e na falta de capacidade de investimento. Face à ameaça o Governo optou por proteger os empregos com o Lay off: congelando as estruturas das empresas para que, no momento seguinte, fossem exatamente o que eram.

O problema é que o mercado já não vai ser o que era, nem semelhante. Vai ser alterado pelas novas lógicas globais da intermediação de bens, da monetização, da transparência, da procura e dos dados – conforme explica (e bem) a tese da nova mão invisível do Kyle T. Westra. Face a esta crise, os anti-políticos sumiram e todos reconhecem o papel positivo que o Estado pode ter na vida das pessoas. Esse Estado, que defendemos, precisa de relançar a economia. Isso não significa controlá-la, mas sim ter uma estratégia para um crescimento que deixe de ser anémico e de manter os salários dos portugueses estagnados nos mesmos valores em que estão há 20 anos.

De outra forma, vamos sair de uma emergência nacional para uma emergência digital.

 

Por Hugo Crvalho

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