V(erdes) de Verdade!

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“Chego a uma região e não resisto: tenho de me meter pelos campos fora, pelas serras, pelos montes, saber das culturas, beber o vinho e provar o pão. E quando anoitece volto, como agora, cheio do enigma que fez cada região do seu feitio.”

Miguel Torga, in “Diário (1942)”

 

Artur Meleiro nasceu em Golães, nas margens do Rio Minho, coração do alto Minho.  Na Quinta de família, ganhou o gosto pelas coisas do campo, em particular pelas vinhas de que a avó e o pai cuidavam e onde se produzia vinho para consumo próprio. Vinho Verde, pois claro, como manda a tradição minhota.

Sempre que podia, escapava para os vinhedos e embrenhava-se nos trabalhos da lavoura: as enxertias, as podas, as vindimas, a pisa. Foi assim durante toda a meninice e muito tempo depois de ter abandonado a aldeia e ter seguido o seu caminho profissional. Talvez por essa paixão nunca ter desvanecido nem com o afastamento para Lisboa, Artur decidiu concretizar um sonho de família: fazer vinhos com marca própria.

Somos muito orgulhosos das uvas que produzimos, – atira em jeito de justificação – por isso fazia todo o sentido comercializarmos o nosso próprio vinho em vez de vendermos as uvas para outros produtores e cooperativas da região.

Assim nasceu a empresa Valados de Melgaço que dá nome ao ex-libris familiar, produzido exclusivamente com uvas Alvarinho e que desde que chegou ao mercado em 2013, se tornou um caso sério no restrito mundo dos Vinhos Verdes.

É notório o orgulho com que Artur Meleiro fala dos vinhos que produz e não é caso para menos: em pouco mais de 4 anos, arrebatou uma invejável quantidade de medalhas em diversos concursos nacionais e internacionais e a extraordinária pontuação de 91 pontos atribuída pelo famoso crítico Robert Parker ao seu Valados de Melgaço Alvarinho Reserva de 2015.

2013 foi o nosso ano zero. Um ano de teste para a afirmação da marca, com a produção de 2500 garrafas colocadas no mercado em Maio e que resultou da forma mais positiva possível, com opiniões muito favoráveis de enólogos e críticos especializados e, sobretudo, dos consumidores, pois esgotámos o stock em Agosto do mesmo ano.”

O ano seguinte, 2014, revelou-se o ano de afirmação do projecto, com um aumento de produção para 7500 garrafas e a apresentação ao mercado de uma nova marca – Quinta de Golães.

O novo verde da família Meleiro é bastante diferente do Valados de Melgaço, pois embora a predominância da casta Alvarinho se mantenha em quase 90%, ao vinho que ganhou o nome do “terroir” onde é produzido, foram acrescentadas as castas Trajadura e Loureiro, que lhe conferem aromas florais e a frutos como o pêssego, a maçã e a pera, atenuando o vigor e o ímpeto vegetal do Alvarinho, resultando num vinho mais fresco e aveludado.

O Quinta de Golães Tinto, outra marca da casa, feito de forma absolutamente tradicional com uma panóplia de castas plantadas pelo avô e pelo pai, com predominância para o Vinhão, “é um vinho que vem da essência”, numa espécie de homenagem a uma tradição familiar ancestral que reafirma da forma mais genuína a matriz identitária da região.

Até porque, como nos explica Artur Meleiro, “a região dos Vinhos Verdes é uma região muito ampla e esta designação gera alguma confusão nas pessoas. Afinal, o que é isso do vinho verde? O vinho verde não é um tipo de vinho, é um vinho que se produz na região demarcada dos Vinhos Verdes. Durante muitos anos, as pessoas associavam o vinho verde a um tipo de vinho leve e gaseificado, meio adocicado e com pouco grau alcoólico. Mas, embora esse seja um tipo de vinho verde, nem todo o vinho verde é assim. Existem outros tipos de vinho verde, com perfis completamente distintos deste, que são produzidos na região e que cada vez mais se afirmam no mercado.”

De facto assim é. E uma das características que lhes confere essa diferenciação é a longevidade, notória, sobretudo no Alvarinho que envelhece muito bem. Esta durabilidade em garrafa, associada ao trabalho de afirmação da casta, leva Artur a afirmar que “a região dos Vinhos Verdes, em particular a sub-região de Monção e Melgaço (Origem do Alvarinho), a prazo, tende a ser uma região de vinhos brancos por excelência, capaz de concorrer com regiões produtoras dos melhores vinhos brancos mundiais, o que aliás já acontece.

O projecto Valados de Melgaço espera beneficiar desta afirmação da região, sobretudo a nível internacional. Neste momento, a empresa já exporta para o Reino Unido, Suíça e França. Os Estados Unidos são um mercado potencial, juntamente com o Japão e o Brasil, países onde já foram estabelecidos os primeiros contactos para futura colocação da marca.

A produção de 2017 foi de 50 000 garrafas, o que representa um crescimento impressionante em relação às 2500 de há quatro anos, mas irá estabilizar por aqui, pois como nos garante Artur, que tem os pés bem assentes na terra, “a limitação de produção é um dos factores que temos de ter em consideração. Queremos crescer, mas mantendo a genuinidade e verdade dos nossos vinhos.

Nem o sucesso do Valados de Melgaço Espumante Extra Bruto Alvarinho Reserva 2015, entretanto colocado no mercado e já esgotado, faz Artur vacilar na sua opção de manter a produção aos níveis actuais. “Os nossos vinhos são feitos do que as uvas nos dão e queremos que continuem assim.

Brindemos a isso.

 

Enólogos: José António Lourenço e Fernando Moura

Em Lisboa podem encontrar-se: Garrafeira Napoleão, Wines 9297, Living Wine, Mercearia do Vinho, Delidelux e em diversos restaurantes.

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