Uma porta aberta na noite de Lisboa

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Mais uma noite, mais um prato de comida quente na mesa e um espaço aconchegante, com uma cama lavada e quente. É aqui, no Centro de Alojamento Temporário Mãe d’Água (CATMA), que pessoas em situação de sem-abrigo se deslocam, para não cair nas amarguras de uma realidade que ainda se vê um pouco por toda a cidade de Lisboa e pelo país. Foi para dar resposta imediata a pessoas nessa situação, em domicílio instável ou em risco de perder a sua habitação, que nasceu o Centro de Alojamento Temporário Mãe d’Água, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em janeiro de 2000. Com o objetivo de proporcionar alojamento temporário e de emergência a pessoas em situações vulneráveis, o centro viu a sua área de abrangência ser alargada em 2009, com a constituição de uma valência de acolhimento para famílias monoparentais femininas: o CATMA – Extensão, com capacidade para acolher 16 utentes, num total de seis famílias, cinco das quais em alojamento temporário e uma em alojamento de emergência. Além disso, o CATMA, através da sua equipa técnica, é ainda responsável pela gestão e acompanhamento dos casos sensíveis que acolhe.

Situado no centro de Lisboa, o CATMA tem as portas abertas para acolher quem ali bate. Quando à noite outras portas se fecham, aquelas abrem-se, como uma espécie de porto de abrigo, para quem procura algum conforto e apoio. Aí, recebe-se uma refeição quente, lava-se a roupa, toma-se duche e descansa-se num ambiente controlado, acolhedor e moderno. Repartido por três pisos e com capacidade para acolher 36 utentes, seis em alojamento de emergência (três homens e três mulheres) e os restantes 30 em alojamento temporário (21 homens e nove mulheres), o centro tem como missão pros- seguir e desenvolver fins de ação social, apoiando, sobretudo, as pessoas mais desprotegidas da cidade de Lisboa.

O principal objetivo da atuação do CATMA é contribuir para a prevenção de situações de desigualdade e carência socio-económica, vulnerabilidade e exclusão social, participando no desenvolvimento pessoal e na inclusão das pessoas apoiadas, em articulação sistemática com outros serviços internos e externos da Misericórdia de Lisboa. No entanto, e como resposta pontual a determinadas situações, o CATMA garante um alojamento digno e temporário noturno a pessoas isoladas ou famílias em situação de sem-abrigo ou com domicílio instável.

Relativamente às pessoas ali acolhidas, cada caso é um caso, com a sua história e necessidades. O CATMA enfrenta diaria- mente situações de elevada complexidade socio-económica, muitas delas associadas ao desemprego ou emprego precário, à falta de qualificações, a doenças do foro físico e psicológico, à toxicodependência e alcoolismo e à reincidência de ruturas conjugais e familiares. Para dar resposta a estas problemáticas, o CATMA aposta numa intervenção em rede, com caráter multidisciplinar, focada na pessoa, de modo a compreender as suas dinâmicas. Estabelece ainda relações de proximidade como os utentes, tanto quanto possível, numa perspetiva de valorização das suas capacidades e competências na resolução dos próprios problemas, com o objetivo último de eliminar a situação de exclusão em que se encontram. No CATMA a lógica é simples, viver uma noite de cada vez, até que o dia ilumine o futuro de todas as pessoas que procuram o Centro de Alojamento Temporário Mãe d’Água.

Por Frederico Andrade

Fotografia: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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