RODRIGO LEÃO – CONVERSA SOBRE “O MÉTODO”

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Rodrigo Leão nasceu em Lisboa no ano em que os Rolling Stones lançavam o seu álbum de estreia e Dylan, antecipando o Nobel da Paz atribuído a Martin Luther King, anunciava ao mundo que “The Times They Are A-Changing”. Por cá, os tempos de mudança ainda levariam tempo a chegar e Rodrigo, como a maioria dos portugueses, vivia habitualmente dividindo o seu tempo entre as brincadeiras de rua, as aulas no Colégio Moderno e as férias de Verão na Ericeira.

O fervilhar de uma Lisboa que sonhava ser cosmopolita apanhou-o já no final da adolescência, num tempo em que todos os caminhos iam dar ao Bairro Alto. Influenciado pelos sons que chegavam de Londres e Manchester e pelos ritmos que começavam a emergir um pouco por toda a cidade e marcavam encontro no Rock Rendez-Vous, Rodrigo aventura-se no mundo da música e com Pedro Oliveira e Nuno Cruz, funda, em 1982, a Sétima Legião. “A Sétima Legião traduzia as influências não só de Manchester, mas também da Galiza, por exemplo, e nisso talvez tenhamos sido diferentes.”, dirá mais tarde. Desse tempo recorda os concertos iniciais no Rock Rendez-Vous, quando ia a correr a casa do amigo Pedro Ayres de Magalhães pedir o baixo Fender emprestado, para tocar. A proximidade ao líder dos Heróis do Mar acabou por ditar a sua entrada, como teclista, para um novo projecto que começava a ganhar forma e que veria a luz do dia em 1985, os Madredeus. A estreia, com o duplo “Os Dias da Madredeus” gravado no Teatro Ibérico de Xabregas, ditará uma nova fase na vida de Rodrigo Leão. Durante oito anos e mais três álbuns, fará parte integrante do projecto musical português de maior sucesso internacional.

Mas Rodrigo ambicionava outros voos e em ’93, ainda membro da banda, edita o seu primeiro álbum a solo, com a colaboração de dois dos seus parceiros dos Madredeus – Gabriel Gomes e Teresa Salgueiro. “Ave Mundi Luminar” espelhava um olhar musical próprio, recheado de uma miscelânea de influências que iam do tango argentino, ao minimalismo contemporâneo de Michael Nyman e que Rodrigo continuaria a explorar nos álbuns seguintes, “Mysterium” e “Theatrum”. “Alma Mater”, o seu quarto álbum, misturando o minimalismo experimental dos álbuns anteriores com uma carga mística que se começa a desenhar no seu percurso musical, representa, também, um regresso a sonoridades mais pop, notórias em músicas como Pasión, que daria nome ao seu primeiro disco ao vivo, com participações de diversos músicos do panorama nacional. A procura incessante de novas sonoridades, abrem espaço a parcerias com nomes incontornáveis do mundo da música: Rosa Passos, Beth Gibbons, Ryuichi Sakamoto, Neil Hannon, Stuart A. Staples, Melingo, Celina da Piedade, Scott Matthew, Beth Gibbons, Adriana Calcanhoto, Sara Tavares, entre muitos outros, nos sucessivos álbuns “Cinema”, “Mãe”, “Songs” e “A Montanha Mágica”. Pelo meio, assinou a banda sonora de um país, em “Portugal-Retrato Social” de António Barreto.

A “electrónica discreta” do centro da Europa e o gosto por um certo experimentalismo sonoro, anunciavam-se já em “A Vida Secreta das Máquinas” e marcam definitivamente, segundo o próprio Rodrigo, o seu mais recente álbum “O Método” que será lançado nas próximas semanas e deu o mote para uma conversa com a BICA junto à Academia Musical dos Amigos das Crianças(AMAC), onde estudam os seus filhos.

 

Fala-nos um pouco do teu novo álbum “O Método”.

Pois… o novo álbum (risos). Esta é das primeiras vezes que eu falo do disco. Nunca sei bem o que dizer sobre um disco que termino. As primeiras vezes então… Depois uma pessoa habitua-se (risos). Este disco foi preparado ao longo dos últimos 2 anos, e eu já o queria ter editado o ano passado, porque coincidia com os 25 anos do aniversário da minha carreira, mas acabámos por ter tantos concertos que atrasou um bocadinho o processo e ainda bem. Chama-se “O Método”, mas eu sou a pessoa com menos método para fazer o que quer que seja (risos). No entanto, este foi dos discos em que procurámos mais método para atingir esta concretização. Foi feito no meio do ambiente familiar em que eu costumo produzir os meus discos – com o João Eleutério e o Pedro Oliveira, que são muito amigos e pessoas muito chegadas, pelo que sempre houve um grande receio de convidar alguém do exterior –, mas neste disco, pela primeira vez, convidámos um músico que é compositor e que também é produtor, o Federico Albanese, que é italiano, mas vive em Berlim. Ele é novo, tem dois ou três trabalhos, mas está numa corrente musical com que eu me tenho identificado nestes últimos anos, na linha de compositores como Nils Frahm, Ólafur, portanto aquela música alemã com uma electrónica discreta. O António Cunha, que é o meu manager e meu amigo de longa data andava, há anos, a dizer-me: “Vocês deviam trazer uma pessoa fresca para a vossa equipa de produção”, insistiu e acabámos por aceitar o desafio. Os primeiros dias correram muito mal. Fiquei a pensar: “Se calhar, isto está a ser o maior erro da minha vida”. Mas, a verdade é que depois as coisas correram muito bem e entrámos em sintonia.

Fui compondo como costumo fazer para todos os discos e passado um ano tinha para aí umas quarenta ideias prontas, das quais umas não tinham nada a ver com outras. Mas já ali havia o princípio de um caminho, de música mais instrumental, mais ambiental, mais electrónica. E se havia algumas que ainda tinham aquela influência que existe no meu trabalho do Kusturica, saíram logo todas. Fomos gravar a nossa primeira maquete, com um trio de cordas e arranjos do Carlos Tony Gomes, gravámos sete ou oito faixas e fiquei contente com duas ou três.

Acabámos por gravar o disco aqui no Atlântico Blue e depois fomos misturá-lo a Berlim, num estúdio que se chama Vox Ton, que é um estúdio analógico. Por acaso, naquelas sessões que eu tento fazer, mais isolado, a trabalhar das 6h da tarde às 6h da manhã, há alturas em que não sai música nenhuma e eu comecei a fazer uns desenhos. Assim umas coisas muito abstratas, com umas canetas Rotring, e a verdade é que, de repente, começou a haver alguma associação de alguns desenhos a algumas músicas e, portanto, A Bailarina tem alguns desenhos que eu fiz, com a animação do Colectivo Criativo Oskar & Gaspar, que é fantástico.

Outra das ideias que eu tinha também, de início, era tentar usar um coro juvenil nalgumas faixas e isso acabou por acontecer através do coro juvenil da Academia Musical dos Amigos das Crianças (AMAC), onde os meus três filhos estudam (o mais velho já saiu, está na Escola Superior de Música). A Bailarina é cantada pela nossa filha mais nova, a Sofia, com a Ângela Silva, a Viviena Tupikova e o coro juvenil da AMAC. As palavras que estão a cantar são inventadas, escrevemo-las de propósito numa língua que não existe, para sublinhar o lado sonhador e espiritual da canção.

Com tudo isto, penso que houve a procura de alguma mudança em relação ao meu passado, que nunca é total, porque há sempre influências que permanecem. Mas, há mudanças, sobretudo se pensar nos últimos discos que fiz: “A Vida Secreta das Máquinas” que foi um disco feito de repente, num mês ou dois; “O Retiro”, com a Orquestra da Gulbenkian, um disco mais clássico; “Life Is a Song”, com o Scott Matthew, que era um disco mais pop; e o “Cérebro” (para a exposição “Cérebro – Mais Vasto Que o Céu”, que esteve na Gulbenkian em 2019), mais electrónico. A verdade é que este último trabalho foi muito importante para mim e para o João Eleutério, que estávamos quase todos os dias a trabalhar neste disco e tivemos a sorte de trabalhar com o Luís Fernandes, que é um músico de Braga que domina a electrónica, com o qual aprendemos muito nos poucos dias em que trabalhámos juntos na produção de “Cérebro”.

Tudo se encaixou e embora tivesse ficado com pena de não ter incluído dois ou três temas que já tínhamos seleccionado, uns por razões técnicas, outros por o arranjo não ter resultado muito bem, a verdade é que ficaram estes 12 temas e estou muito satisfeito. Durante os últimos seis meses, pensei: “Que sorte! Desta vez tenho tempo para pensar num título para o disco”. Normalmente acontece sempre à última hora, mas quando me apercebi já não tinha tempo nenhum. Acabou por ficar “O Método”, que era um título de trabalho para um dos temas.

Que vai ser um single.

Sim, é um instrumental a que eu dei aquele título, porque como estava a trabalhar no computador, tinha de lhe chamar qualquer coisa (risos). Como, depois os músicos e as pessoas que estão mais envolvidas no disco se começaram a habituar aquele nome, a associar aquele tema ao título…

… já era impossível mudar.

Quase. Muitas vezes, mudo seis títulos num álbum, uns dias antes, mas é uma estupidez. Este é o primeiro disco em que acabaram por ficar muitos títulos que eu jamais imaginaria que poderiam ficar.

Isso é curioso porque os títulos, quer das músicas, quer dos álbuns, para quem vê de fora, parecem sempre uma coisa muito pensada, muito elaborada.

Pois, por vezes é. Os meus amigos mais chegados estão sempre a perguntar porque é que me preocupo tanto com os títulos e, realmente, eu vivia obcecado com os títulos, porque, para mim, tinham de fazer sentido, tinham de transmitir alguma coisa que fizesse sentido. Depois olho para os títulos anteriores, “Ave Mundi Luminar” o meu primeiro, mas também “Alma Mater”, “Cinema”, “Theatrum”, “Montanha Mágica” e acho que há ali alguma unidade. Agora vem “O Método” e não sei (risos). Mas “O Método”, apesar de reflectir um pouco este trabalho que tivemos, também tem a ver com aquele método, que para mim é mais importante, mais abstrato, mais filosófico, de pensar as coisas.

Eu até associava mais a essa vertente.

Eu associo muito mais a isso, porque acho que é um disco mais abstrato, com algumas letras que não têm significado nenhum, em que a ideia é, precisamente, que as pessoas não se prendam muito ao significado das palavras e se deixem envolver pelo carácter mais misterioso das canções. Existe uma música cantada em inglês, embora eu não quisesse repetir aquilo que já tinha feito em muitos trabalhos, convidar um cantor ou uma cantora para cantar um tema inglês, mas a verdade é que, quando o Federico Albanese sugeriu o nome do Casper Clausen, dos Efterklang, de que eu conhecia uma parte do trabalho, e me disse que ele vivia em Lisboa…

Agora há essa facilidade, toda a gente vive em Lisboa.

(Risos). É verdade. Mas, quando soube que ele vivia cá, concordei em convidar o Casper para cantar e para escrever uma letra para esse tema, que foi dos últimos a ser compostos, “The boy inside the body”.

Esse carácter mais misterioso que quiseste entregar ao disco é um caminho que tens vindo a seguir, de maior influência de uma certa música electrónica?

Talvez. Sabes que eu não me considero músico. Não aprendi música, toco mal, aprendi a tocar sozinho, por isso tenho muito pouca técnica.

Isso dava uma caixa jornalística (risos).

(Risos). Os meus filhos sabem ler música, eu não sei ler música. Escrevo as ideias para o computador, imprimo, e depois tenho pessoas que me ajudam a criar um arranjo. Por isso, é natural que a minha música tenha influências de géneros musicais de que eu gosto, de que sempre gostei e que ouvia em casa dos meus pais quando era adolescente: Joy DivisionNew Order, mas também tango, música brasileira, música clássica, pop britânico.

Comecei a fazer o meu primeiro disco sozinho em 1993, já lá vão 26 anos, e era uma música muito estranha, havia meia dúzia de pessoas que gostava daquilo em Portugal. Até em Espanha o disco teve mais êxito do que em Portugal. Estou a dizer meia dúzia de pessoas porque os discos na altura vendiam, sei lá, dez, vinte, trinta mil exemplares e o nosso vendeu mil, era uma coisa insignificante. Só a partir de 2001 é que me preocupei mais com os concertos – entre ‘94 (que foi o ano em que eu deixei os Madredeus) e 2001, estive muito mais preocupado em estar em casa a compor, do que propriamente a fazer concertos, ou seja, os primeiros três discos que saíram não foram muito divulgados em concerto, fizemos para aí 10 concertos em Espanha e cinco em Portugal.

Também já devias estar farto de estrada, depois de tantos anos na Sétima Legião Madredeus.

Entre ‘86 e ‘94 foram oito anos de loucura, em que chegámos a fazer 70 concertos por ano!

Guardo grandes recordações dessas viagens todas que fiz, quer com Madredeus, quer com Sétima Legião.

Li algures que gostas de compor nas viagens.

De há cinco, seis anos para cá, mesmo fazendo trinta concertos por ano, passas muito tempo nos hotéis e, às vezes, chegas de um concerto à meia noite e se tiveres à mão um teclado pequenino e um computador, pode-te apetecer estar ali até às duas, três da manhã a tocar.

Estavas a explicar que de ’94, a 2000, ficaste mais por casa a compor.

A partir de 2000, mudei um bocadinho a formação base do grupo, com a entrada do Luís Sampaio a tocar bateria e de um baixo, e comecei a fazer uma música menos minimalista do que a que tinha feito nos primeiros álbuns. Foi com o “Alma Mater”, que já tinha uma canção em castelhano, Pasion, e a Casa, cantada pela Adriana Calcanhoto, que começou a existir uma aproximação à linguagem pop, e a partir daí é que começámos, outra vez, a tocar, a fazer mais concertos e eu comecei, também, a ter mais prazer em dar concertos, porque naqueles anos anteriores ia sempre com muito receio. Com os Madredeus toda a gente aprendia muito com o José Peixoto e com o Pedro Ayres, são grandes músicos, mas eu fazia coisas muito simples e ao fim de 40 concertos estava farto daquilo, queria era estar em casa. Penso que perceberam, principalmente o Pedro Ayres, porque continuamos muito amigos.

Foi uma decisão difícil?

Para mim foi uma decisão dificílima, porque estávamos a viver um momento muito intenso e eu tinha acabado de gravar esse tal primeiro disco, no intervalo dos concertos que tínhamos com os Madredeus.

Disco em que participou o Gabriel Gomes, se não estou em erro.

O Gabriel, a Teresa Salgueiro também cantou em dois temas, e depois continuámos com os concertos. Entretanto, o meu disco começa a ser distribuído por todos os países da Europa e eu a sentir que não lhe estava a dar atenção nenhuma e foi aí que resolvi deixar os Madredeus, porque a Sétima Legião já tinha praticamente acabado. Eu e o Gabriel tínhamos achado que não conseguíamos conciliar com a nossa participação nos Madredeus.

Mas, com o regresso a uma linguagem mais pop, começámos a fazer muitos concertos em Portugal, com essa variedade toda, até tínhamos uma cantora lírica, a Celina, que cantava uns temas e as pessoas achavam normal (risos). Quando íamos tocar lá fora, éramos muitos músicos e não era fácil tocar todos os anos. Muitas vezes os promotores diziam: “nós adoramos a vossa música, mas onde é que encaixamos isto?” (Risos). Não que isso me influenciasse nas composições que faço, obviamente, mas este disco e este concerto que tivemos a oportunidade de fazer nestes últimos três meses, sinto que está com muito mais unidade, mais homogéneo do que os concertos que fizemos para trás. Sinto que este disco talvez seja o que terá sido mais pensado.

Mais homogéneo?

Sim. A verdade é que, desde o início que estava com essa preocupação, de dar um corpo homogéneo ao disco e tinha algumas ideias: gostava de ter um coro, gostava de ter vozes com efeitos, cantadas ao contrário. Calhou ser a minha Sofia, que tinha 12 anos na altura (tem 13 agora), a fazer experiências e este disco tem um lado muito familiar, porque durante dois anos, os meus filhos, a minha mulher, Ana Carolina, eu, até amigos nossos que estavam em casa faziam experiências no microfone a cantar coisas que eu pedia. Depois teve um lado mais profissional destes estúdios de que falei e acredita que muitas das vozes que fomos regravar em estúdio, em grande som, não tinham a mesma inocência, a mesma genuinidade que tinham sentados no sofá. (Risos). Agora há tanta coisa que se grava em casa que até pode ter um bocadinho de mau som, mas tem mais onda, tem mais alma.

Esse experimentalismo é algo que procuras cada vez mais?

Sim, procuro. Não faço ideia do que vou fazer no futuro, não me imaginava a editar um trabalho com dez canções cantadas em Português, por exemplo, ou dez em Inglês. Acho que há coisas novas que estão a ser feitas e que ouço e que me levam a querer explorar muito mais novos sons do mundo da electrónica, bandas sonoras…

A tua música é, sempre, muito cinematográfica.

Sem dúvida. O que eu estava a dizer é que tenho uma necessidade, apesar de haver uma coesão, como tu dizias, nos meus trabalhos todos, com influências muito diferentes, mas tenho necessidade de experimentar. Imagina que ainda estava na Sétima Legião, há 36 anos, por muito que se tente inovar ou mudar, de disco para disco, são os mesmos músicos, a mesma voz e isso para mim é impensável. Eu gosto desta sorte que tenho de poder trabalhar com músicos muito diferentes. Até porque, como muitas vezes tenho dúvidas em relação a muitas músicas, gosto de ouvir sugestões. Tenho a ideia de que deixo que as pessoas participem na minha música, sugiram arranjos, sejam músicos, sejam cantores.

Estás aberto a sugestões.

Estou sempre aberto a sugestões. Lembro-me de duas pessoas que admiro muito, o Nuno Gonçalves dos The Gift e o Pedro Ayres, que são duas pessoas que sabem exactamente o que querem e que têm jeito para dirigir em estúdio. Eu não tenho essa capacidade e esse jeito. Terei jeito para outras coisas, mas não para isso. Muitas vezes estou em estúdio a gravar as minhas músicas e saio uma hora, os produtores dizem aos meus amigos, João e o Tiago: “Então o Rodrigo onde é que foi? Ele não quer saber nada disto agora?”. De outras vezes, os músicos estão a gravar e eu digo: “Isso está óptimo”, e eles dizem: “Ó Rodrigo, não está óptimo. Eles deviam gravar outra vez” e eu: “Pronto, ok.” (Risos). Mas, claro que admiro esse lado que eu muitas vezes não tenho, embora ache que isso tem mudado nos últimos anos.

Era impensável eu gravar um disco e sair passado um ano ou oito meses. Para mim, os discos estavam acabados e saíam passadas duas, três semanas. Toda a gente dizia: “Vocês são malucos. Assim não há tempo, sequer, para pensar em fotografias, vídeos, textos…”. Agora sinto uma maior tranquilidade, não tenho aquela ansiedade e a verdade é que acabámos em Julho, masterizámos em Novembro e sai, agora, em Fevereiro. Ainda bem que assim foi.

Como foi fazer a banda sonora de um país, para Portugal – Um Retrato Social, de António Barreto?

Houve logo, desde início, uma empatia muito grande com o António Barreto e a Joana Fontes, isso é o mais importante quando se trata de uma banda sonora, porque quando aceito fazer música para filmes tenho sempre aquela preocupação de mostrar, para cada situação, duas ou três ideias, e tenho sempre um pouco de receio: “Eles não vão gostar disto, eles não vão gostar daquilo…” e com o António e com a Joana correu bem desde o início. Deram-me muita liberdade para fazer o que queria e, ao mesmo tempo, senti que estava a aprender imenso sobre Portugal, sobre nós próprios, naquelas imagens que ia recebendo dos arquivos da RTP, dos últimos 30, 40 anos.

Ias recebendo essas imagens e isso é que te servia de inspiração para a composição?

Sempre. Só que muitas vezes, o que acontece é que serve no momento, nos primeiros 10, 15 minutos, porque se sinto que há ali uma ideia, não fico a ver as imagens.

Depois desse desafio ficaste com um olhar diferente sobre Portugal e sobre os Portugueses?

Acho que sim. Não sei explicar bem como, nem porquê, mas claro que fiquei. Fiquei, se calhar, com a certeza de algumas ideias que tinha do Portugal de antes do 25 de Abril, das escolas, da grande pobreza… Depois acabámos por fazer, nesse ano, uns 15, 20 concertos por Portugal inteiro, precisamente a mostrar essas imagens e a tocar essa banda sonora. No ano passado, voltámos a fazer, no projecto que estava inserido no âmbito dos 25 anos do “Ave Mundi Luminar”, era o aniversário do disco e acabou por ser o ensaio que depois resultou no “Método”. Ou seja, foram os primeiros concertos em que nós começámos a testar uma formação diferente, sem cantores, com imagens, em que começámos a trabalhar algumas coisas que o João Eleutério, que toca comigo há muitos anos e é um dos produtores, fez em vídeo. A partir daí, começámos a tentar construir a ideia do que viria a ser “O Método”. Ainda muito envergonhados, ainda a tocar alguns temas que parecia que não faziam parte daquele concerto, como “A Estrada” ou “A Comédia de Deus”, aqueles temas que o público aplaude mais, até porque eu tinha receio que o público achasse uma música muito lenta. Mas é curioso, porque estes concertos têm corrido bem. Toco mais piano acústico, foi como se tivesse perdido o medo de tocar piano acústico ao vivo, que eu nunca toquei a não ser de há um ano para cá e isso também é uma diferença que existe neste disco, tem mais piano.

Com Madredeus fizeste a banda sonora de Lisbon Story de Wim Wenders, que retrata uma Lisboa que praticamente não existe. Como foi a tua vivência nessa Lisboa dos anos oitenta?

A minha vivência nessa Lisboa dos anos 80 foi extraordinária. Eu tinha 17, 18 anos e vivia fascinado. Era um mundo mais pequeno, muito mais pequeno, mas a verdade é que nós vínhamos para o Bairro Alto e passávamos noites e noites a falar das ideias que tínhamos e do que queríamos fazer. Havia o Rock Rendez-Vous, os Heróis do Mar, os Rádio Macau, os Croix Sainte – nós tentávamos organizar alguns concertos e o Pedro Ayres emprestava-me o baixo para eu poder tocar no Rock Rendez-Vous com a Sétima Legião, ia eu a correr a casa dele e emprestava-me um Fender – e foi o grande boom da Música Portuguesa. Havia um grande entusiasmo das editoras, do jornalismo. Aliás, o jornalismo dos anos oitenta, em relação à música, comparado com hoje, não tem nada a ver. Havia o Hit, o Se7e, o Êxito, havia videoclips a passar antes do Telejornal, foi uma época muito especial. Claro que isto está muito diferente, passaram trinta anos.

Diferente para pior?

Nalguns aspectos sim. Acho que é muito difícil, hoje, um projecto novo, que não seja de música muito comercial, afirmar-se. Não tem muito espaço para se mostrar e na altura tinha. Havia mais facilidade. Agora, é evidente que há coisas muito boas que se fazem hoje em dia.

Lembrei-me da Billie Eilish, por exemplo, não é portuguesa, mas como é que ela com 16 anos grava um disco, com o irmão a ajudá-la na produção e conquista o mundo? Sem precisar de marketing nenhum, nem editora nenhuma. E tem bom gosto. Foi a minha filha Rosa, a do meio, que me mostrou há dois ou três anos: “Pai, ouve isto”. Passou-lhe aquela fase má que todos eles têm dos 11 aos 13 de uma música muito esquisita e, de repente, começa-me a mostrar coisas muito interessantes.

Isso também influencia a tua criação?

Que eu tenha consciência não, mas é evidente que, inconscientemente, tudo me pode influenciar, desde uma música que a Rosa me mostra, até outra que a Sofia me mostra, até ao café em que eu entrei nesse dia, tudo isso à noite, quando eu estou a trabalhar, deve ter alguma importância no resultado final.

Duas coisas que, definitivamente, influenciam a tua criação são a literatura e o cinema.

Leio muito menos do que lia na adolescência, mas, curiosamente, há um livro que eu li antes de entrarmos em estúdio de que gostei muito, “O Deserto dos Tártaros” do Dino Buzzati. Foi um livro que me fez pensar muito e que eu li com muito prazer.

A literatura e o cinema, influenciam porque são, naturalmente, fontes de inspiração para tentares ter ideias.

 

Por João Albuquerque Carreiras e João Moreira

Fotografias: João Albuquerque Carreiras

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