Os livros de junho

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Sete livros para a chegada do verão

Com a reabertura das livrarias é tempo de retomar as visitas regulares a estes espaços privilegiados de contacto com os livros e a literatura. Deixamos-lhe sete recomendações para todos os gostos e idades. O importante é escolher bons livros!

Maria Filomena Mónica

O Olhar do Outro

Uma citação para abrir o apetite: «Os portugueses precisam de estômagos de avestruz para digerirem as toneladas de gordurosas vitualhas com que se abarrotam. (…) Tudo é guisado em banha de porco e de tal modo carregado de pimenta e especiarias que uma só colher de ervilhas e um quarto de cebola nos deixariam a boca a arder. Com tal alimentação e um tal permanente ingerir de doçaria, não é para admirar que esta gente esteja sempre a queixar-se de dores de cabeça e de gases intestinais.» O autor destas linhas é William Beckford (1760-1844), um dos ilustres viajantes que escreveu sobre Portugal. O Olhar do Outro tem por subtítulo Estrangeiros em Portugal: do Século XVIII ao Século XX, e Maria Filomena Mónica partilha as páginas do livro com umas dezenas de nomes, entre os quais Lord Byron, Hans Christian Andersen, Mark Twain, Miguel de Unamuno, Saint-Exupéry, Mircia Eliade e Jean-Paul Sartre. A autora abre cada capítulo com elementos biográficos e as circunstâncias que levaram à vinda destes estrangeiros, e escolhe depois as passagens mais suculentas e cáusticas das suas impressões. RG

Relógio D’Água

Arte de furtar/ Furto na Arte

A obra A Arte de Furtar, hoje dominantemente atribuída ao jesuíta Padre Manuel da Costa (1601-1667), é um monumento da prosa barroca, o ponto mais alto da literatura portuguesa de costumes dos séculos XVI a XVIII. A acompanhar a reedição do texto, este livro reúne ensaios e contributos artísticos de duas dezenas de autores de renome no panorama nacional, dedicados ao roubo, cópia e apropriação. Apresenta um conjunto de reflexões sobre a ideia de apropriação e cópia, com ensaios da autoria de José Bragança de Miranda, Pedro Cabral Santo (com Nuno Esteves da Silva) e de Luís Alegre. Exibe trabalhos de artistas plásticos portugueses (António Olaio, João Louro, José Luís Neto, Miguel Palma, a dupla Sara & André ou a cineasta documentarista Susana Sousa Dias) concebidos acerca da temática do apropriacionismo e plagiarismo na arte, que vão desde a influência mais direta, ou material de outros artistas e obras, até ao uso de imagens de arquivo e vernaculares, passando pelos históricos readymades. Um magnífico e luxuoso álbum que convém guardar num sítio seguro.

Stolen Books/ N Books

Paco Bou

Alicia Alonso – Prima Ballerina Assoluta

“Os mais cruéis labirintos retrocedem diante do seu passo de dança” Desta forma, o poeta José Lezama Lima prestou tributo à arte incomparável de Alicia Alonso, uma das maiores bailarias do século XX, considerada “a primeira na via láctea das grandes Giselle”. Dotada de um domínio técnico preciso e virtuoso, de uma profunda musicalidade, de uma linha de dança puríssima e perfeita, aliava uma qualidade de movimentos grácil e fluída a uma singular intensidade emocional. O seu estilo era elegíaco, frágil e etéreo. Parecia literalmente flutuar no palco, levando um crítico norte-americano a escrever, em 1967, após assistir a uma representação de Giselle: “quando o seu partenaire levantava Alicia Alonso, sentíamos uma impressão única: que não a elevava, mas que a agarrava para a impedir de voar”. O presente Álbum de Homenagem aos 100 anos do nascimento da bailarina cubana, vista pelo fotógrafo Paco Bou, inclui dois poemas com o título Dança, o primeiro, de Pablo Neruda, o segundo dedicado a Alicia Alonso, da autoria da poetisa portuguesa Joana Lapa. Uma belíssima edição que celebra o talento da bailarina que, segundo o romancista e musicólogo Alejo Carpentier, tinha “o poder de transcender o gesto, elevando-o ao plano da emoção pura”.

Centro Português de Serigrafia

Sadeq Hedayat

O Mocho Cego

Um mito paira sobre este estranho livro, o de que é portador de uma maldição: quem o ler suicida-se. O seu autor, Sadeq Hedayat, suicidou-se e o mocho Cego foi acusado de ser a causa de inúmeros suicídios de pessoas que o leram. O escritor, pai da moderna literatura persa, viveu em constante conflito entre o anseio por uma modernidade europeia (era leitor de Maupassant, Chekov, Rilke e Kafka) e as raízes tradicionalistas da sua família e do seu país. Obra de culto, O Mocho Cego é um romance obsessivo, surrealizante e existencial, sobre a imersão de um ser humano na loucura. Certo dia, um jovem, rejeitado pela mulher, vê uma rapariga com uns assustadores olhos negros e deixa-se afundar na profundeza desse olhar, dominado pela sombra e pela escuridão. Empreende, então, uma descida ímpar a um “abismo interminável numa noite eterna”. Mergulhado em visões e pesadelos, num sonho de morte, o jovem sente uma necessidade compulsiva de escrever como forma de “arrastar para fora” o “inimigo que lhe tortura a alma”. E transmite-o ao leitor.

E-Primatur

Ismail Kadaré

O General do Exército Morto

O poeta e romancista Ismail Kadaré constrói um relato que é a própria voz da Albânia milenar, simultaneamente o país da lenda e da verdade. 20 após a derrota da Itália na Segunda Guerra Mundial, um general italiano é enviado à Albânia para recuperar os corpos dos soldados italianos aí abandonados. Cruza-se com um general alemão incumbido de tarefa semelhante. Esta “tarefa odiosa” dos generais dos exércitos mortos é “uma espécie de um duplicado da guerra”. “Talvez seja mesmo pior do que o original”. Começando e acabando sob o signo da chuva e da neve, esta é uma obra irónica e feroz sobre as consequências da guerra que lhe sobrevivem durante anos. Os testemunhos orais de habitantes locais e os diários de soldados encontrados pelos oficiais, reconstituem a “época em que éramos obrigados a viver nas trevas, em que éramos forçados a esconder-nos de nós próprios”. Romance comovente que revela personalidade singular da Albânia, país “onde a bandeira simboliza apenas o sangue e o luto”.

Sextante

Fernando Sobral

A Grande Dama do Chá

Em dezembro de 1937, em Macau, ninguém ousava falar na guerra, mas ela “já germinava nas sombras, à espera da luz do dia”. Com o rápido avanço do exército japonês em território chinês, a guerra chega silenciosamente à cidade. Muitos refugiados vêm de Xangai. Entre eles está Jin Shixin, que abre a mais famosa casa de chá de Macau e que passa a ser conhecida como A Grande Dama do Chá. Mas a sua verdadeira missão é outra. Ela faz parte da tríade Bando Verde, de Du Yuesheng, outrora o mais poderoso homem de Xangai. Em Macau também encontra refúgio Cândido Vilaça, saxofonista da Benny Spade Orchestra. Entre espiões japoneses, riquezas escondidas, o ópio, o jogo e os sonhos de alguns portugueses, os caminhos de Cândido e Jin cruzam-se. Dividido entre a música e a sobrevivência, o amor e a guerra, a liberdade e o compromisso, Cândido confronta-se com escolhas quase impossíveis. O jornalista e escritor Fernando Sobral relata uma brilhante aventura em Macau, cidade que uma personagem define como “bela e sem saída”, ideal “para jogar, para fugir do passado, para encontrar o futuro.”

Arranha-céus

Eduarda Lima

O protesto

O silêncio tem um efeito apaziguador quando é falta de ruído. Mas o que acontece quando o silêncio anula os sons da presença humana e da natureza? Não será mais opressivo do que certos ruídos incómodos? O álbum de estreia de Eduarda Lima, é exactamente isso: um grito silencioso! Os pássaros deixam de cantar. Os gatos já não miam. Os insectos não emitem os seus zumbidos. As crianças param de brincar. Da floresta virgem ao rio da nossa cidade, o silêncio ecoa por todo o lado. O Protesto, com texto e ilustrações de Eduarda Lima, é uma história sobre o impacto da acção humana no ambiente e um apelo para nos unirmos hoje, em nome da biodiversidade e de um planeta mais sustentável. Neste belíssimo livro os animais e as crianças, procurando salvar a Terra, parecem ter feito um pacto de silêncio. Será que os homens conseguem entender o sentido desse sossego perturbador?

Orfeu Negro

 

Estes e outros livros estão presentes no novo podcast da Agenda Cultural de Lisboa, Livros em Agenda aqui

Fonte: agendalx por L

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