Leituras – «Serotonina» de Michel Houellebecq

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Quando o assunto é a saúde mental, deparo-me frequentemente, nos inúmeros artigos sobre o tema, com a mensagem de que se trata de um capricho globalizado. A depressão, à luz de uma sociedade cada vez mais exigente, é vendida na ideia dicotómica dos fortes em detrimento dos fracos que se deixaram sucumbir, certamente, no seguimento de um coração vulnerável. Cada vez mais a vulnerabilidade é assumida como sinónimo de fraqueza. Enaltecem-se as pessoas cujos ponteiros se esticam muito para lá das conhecidas vinte e quatro horas, pessoas que trazem na ponta da língua a pressa dos dias, o telemóvel hiperativo e a cabeça que se subdivide nas mais hercúleas tarefas. Hoje brindamos tudo isto como bravura da (suposta) grandiosidade humana.

Quando o assunto é Michel Houellebecq, a sua escrita depressiva vem rapidamente à superfície, como um ponto vincado que o define num reflexo de histórias aparentemente cruas e sombrias. Há, porém, uma base inesperada de onde tudo isto surge: é no amor que o autor se centra em (quase) tudo o que nos escreve. Talvez seja esse um dos grandes motivos, como ainda recentemente li, para estarmos perante um dos escritores mais humanistas de sempre.

Ao ler «Serotonina» o leitor irá descobrir uma escrita incisiva. O autor é mordaz, irónico, inconveniente muitas vezes mas é, em igual medida, sentimentalista. Pergunte-me porquê. Eu respondo-lhe que só alguém com o coração desarrumado poderá, alguma vez, aspirar a algo mais do que uma vida pacata, mesmo que falemos em aspirações preguiçosas. É ponto assente na premissa deste livro.

Florent-Claude Labrouste tem 46 anos de idade, vive uma vida desafogada na sequência do seu trabalho como funcionário do Ministério da Agricultura. Não gosta do seu nome, não gosta de muitas coisas.

“(…) Deus tinha disposto de mim mas eu não era, não era na verdade, nunca tinha sido nada sessão um cobarde inconsistente, e tinha já quarenta e seis anos e não fora capaz de gerir a minha própria vida, enfim, parecia deveras plausível que a segunda parte da minha existência acabasse por ser, à imagem da primeira, um frouxo e doloroso desabamento.”

 Tudo na vida deste homem parece pautado pelo marasmo. A panóplia considerável de indiferença atinge também a sua namorada japonesa, cerca de vinte anos mais nova. Inicialmente, o viço da idade e vaidade da jovem despertou-lhe o interesse do corpo mas, rapidamente, o vazio instala-se e o abismo cresce.

“(…) o número de objectos necessários para manter o seu estatuto de mulher era absolutamente alucinante, as mulheres ignoram-no em geral, mas é uma coisa que desagrada aos homens, que os enoja mesmo, que acaba por lhes dar a sensação de terem adquirido um produto adulterado que só mantém graças a artifícios infinitos (…).”

 Será numa viagem com destino a Espanha, na tentativa rogada de passar uns dias de férias com a namorada, que uma viragem parece acontecer na vida deste homem. Serão duas jovens indefesas, quando lhe pedem ajuda com o carro, que o farão sentir- se atingido na idade já firme, no passar do tempo e no vácuo a que tem dedicado toda a sua vida. O vórtice de pensamentos bloqueados de Florent-Claude é assim criado através de uma passagem quase despercebida, uma evidência inegável do brilhantismo do autor.

«Serotonina» é um livro escrito à luz desse tema universal: a procura de um sentido na vida, a procura constante de respostas que nos justifiquem. É no confronto com as desilusões de um homem cansado que o leitor perceberá a tendência de nos refugiarmos numa couraça de autoproteção, de um ego inflamado que não suporta críticas e, muito menos, suposições sobre uma vida que tomamos como nossa para, mais lá à frente, percebermos o quanto desejaríamos que não fosse só nossa, tão individual.

“Seria eu capaz de ser feliz na solidão? Não acreditava nisso. Seria capaz de ser feliz no geral? É o tipo de perguntas que, creio, devem evitar fazer-se.”

Terá sido Florent-Claude Labrouste, em toda a sua vida, esse homem perdido entre passado e presente? Adianto-lhe que não e descobrir o motivo que lhe inflama esta desmotivação tão viva, é o que nos motiva a nós, leitores, procurar uma resposta. Perceber que essa resposta está muito longe das expectativas em torno dessa grandiosidade movida pela pressa dos dias, é a ironia vendida por Houellebecq. A procura incessante de um sentido em nós mesmos, em Deus, no mundo, não nos deixará, nunca, sair do mesmo lugar. A consciência cansada deste personagem abrir-lhe-á os olhos, quase à falsa fé, para o fazer ver aquilo que sempre esteve à sua frente: ser-se humano é a resposta em si mesma e é nossa a culpa de vivermos uma infelicidade mascarada.

“(…) não é o futuro, é o passado que nos mata, que volta para nos moer e nos minar, e que acaba finalmente por nos matar.”

Como viver perante tamanha consciência de auto-responsabilidade? Tomemos um comprimido e assumamos a iminência dos seus efeitos secundários. É que quando o assunto é a saúde mental, à luz de uma sociedade cada vez mais automatizada, a ideia de depressão como capricho assume, forçosamente, a resposta de quem quer fugir à vulnerabilidade.

Para os grandiosos e para os cobardes desta vida, ler Houellebecq é uma obrigatoriedade. Para assustar uns, para empurrar outros, faça de «Serotonina» um manual de instruções sobre como não morrer enquanto a vida nos pulsa cá dentro. O primeiro passo é, para surpresa de muitos, deixar-se ir ao ritmo dos corações vulneráveis.

 

Título: Serotonina

Autor: Michel Houellebecq

Editor: Alfaguara Portugal

Páginas: 280

Por Denise C. Rolo

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