Grande Entrevista – Francisco José Viegas

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Francisco José Viegas nasceu no Pocinho, em 1962, ano em que John Steinbeck ganhou o Nobel da Literatura e Garrincha encantou o mundo com as suas fintas, catapultando o Brasil para a conquista do segundo campeonato do mundo de futebol. Aos 8 anos, abandonou a aldeia do concelho de Vila Nova de Foz Côa, terminal da Linha do Douro, para rumar a Chaves, acompanhando os pais, professores primários aí colocados. Dessa infância e adolescência transmontana pouco se conhece, a não ser o sonho de ser cantor. Optou pela escrita.

Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, pela Universidade Nova de Lisboa, cedo se dedicou ao jornalismo, escrevendo na maioria dos jornais e revistas nacionais: Jornal das Letras, Expresso, Semanário, O Jornal, O Se7e, Diário de Notícias, O Independente, Visão, Correio da Manhã, Volta ao Mundo, Record, Oceanos, de que foi editor, Grande Reportagem, de que foi director e da Revista Ler, que ainda hoje dirige. Manteve presença regular na televisão com diversos programas de sua autoria: Escrita em Dia, Falatório, Ler para Crer, Prazeres, Um Café no Majestic, Primeira Página, Livro Aberto e Nada de Cultura. Como editor, é responsável por uma das mais interessantes chancelas nacionais, a Quetzal. Mas, foi na literatura que se distinguiu, como um dos grandes romancistas portugueses. O melancólico Inspector Jaime Ramos, personagem fundamental dos seus romances, passou a fazer parte do imaginário da literatura policial mundial, ombreando com detectives famosos como Philipe Marlowe, Hercule Poirot, Comissário Maigret ou o Delegado Espinosa. Em 2005, foi galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novelada Associação Portuguesa de Escritores, com o romance “Longe de Manaus”. Com o pseudónimo António Sousa Homem, escreve, há anos, as “crónicas de um reaccionário minhoto”, das mais conseguidas crónicas de costumes escritas em língua portuguesa.

Em 2006, aceitou o convite do então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carmona Rodrigues, para dirigir a Casa Fernando Pessoa, lugar que ocupou até 2008. Três anos mais tarde entra na política pela mão de Pedro Passos Coelho, como cabeça de lista do PSD à Assembleia da República pelo círculo de Bragança, sendo nomeado Secretário de Estado da Cultura.

Escritor, poeta, cronista, contista, professor, jornalista, crítico, editor, comentador e hedonista, Francisco José Viegas é um apaixonado por futebol, por viagens, por gastronomia, por cervejas, por charutos e, claro, por literatura. Conhecemo-nos no Snobe do Sr. Albino, tinha acabado de ser editado o “Mar de Casablanca” e conversámos noite fora sobre paixões literárias e outras, embalados por whiskys “católicos” e um San Cristobal da la Habana, Mercaderes, lentamente fumado, como o devem ser todos os Habanos.

Num encontro há muito prometido, regressámos à conversa com Francisco José Viegas para falar do romance que se anuncia, de edição, dos seus prazeres e do estado da cultura.

Por onde anda o inspector Jaime Ramos, o único representante
português, na longa tradição de investigadores policiais, que se
tornou referência no imaginário literário mundial?

A investigar, como é o destino das personagens. Esta fase do trabalho de escrita de um livro é sempre tensa, nunca se sabe qual a direcção que eles tomam…

Está a terminar?

Sim. Quase a terminar. No fundo, nunca sei quando termino… Um romance é um processo até ao fim.

Tem receios, manias, procedimentos especiais para esta fase?

Não muito especiais. Deito-me muito cedo, acordo pelas três e meia da manhã, tomo o pequeno-almoço, trabalho até às nove creio que sem parar. Ao longo do dia vou e venho; tenho deveres fora da literatura, digamos. Isto durante dois meses, mais ou menos. É a fase em que Jaime Ramos e eu estamos presos à mesa, eu com os meus receios, ele com os dele.

Como são os seus?

Normais, mais ou menos normais. Receio de não conseguir obter aquela frase que abre as portas de saída, que são sempre várias. A sala fica desarrumada, despejo o cinzeiro, dou umas voltas quando nasce o sol. Sou completamente normal e não alimento nenhuma mitologia do trabalho do autor, aquela coisa do silêncio total, do isolamento absoluto. Gosto de trabalhar em esplanadas, sítios abertos, em cafés. A única coisa que quero é que o romance termine e que Jaime Ramos sobreviva. Neste caso, ainda não sei se sobrevive.

Porquê?

Porque vive um confronto, provavelmente o confronto mais sério da sua carreira, digamos assim. Um combate entre a vida e a morte, um combate pelo sentido do seu trabalho num mundo sitiado pela estupidez e pela deformação. Deformação moral, deformação profissional, deformação da relação entre os seus semelhantes. E, finalmente, um confronto acerca do amor.

Não é o discurso habitual de um autor de romances policiais…

Não é um discurso habitual, ponto. [risos] Faz-se sempre uma distinção entre literatura e literatura policial, eu compreendo-a, mas é malévola. Geralmente, espera-se que um autor de romances policiais se interesse pelo crime, pelo argumento puro e duro, pelas implicações mais ou menos sociológicas do trabalho do detective. Ora, o crime não me interessa grande coisa. Nem a sociologia do crime ou da violência. O argumento, sim, porque é disso que vive a literatura, policial ou não.

Ainda existe um preconceito, no meio literário português, em relação ao romance policial, apesar dos prémios atribuídos à “Balada da Praia  dos Cães” de José Cardoso Pires e ao seu “Longe de Manaus”?
Claro que sim. A literatura policial é uma espécie de parente incómodo da literatura, desleal, com que não se pode contar para abrilhantar conversas sobre “o destino do homem”. Outro dia, há um ano ou dois, quando lhe falaram de mim, uma escritora dizia, numa feira do livro, que a literatura policial era uma espécie de literatura cor de rosa. Era uma daquelas senhoras de penteado formal, para quem a literatura é um programa de estudos universitários, está a ver?, uma dependência das belas letras de antigamente. Eu não tenho nada contra esta literatura bem penteada, nada mesmo. Mas não me interessa. Interessa-me o policial, da maneira como eu o abordo, porque é um género híbrido, indefinido, irregular. Trata da vida das pessoas híbridas, indefinidas, irregulares. Pessoas que andam no fio da navalha e cuja biografia não é lá muito apresentável. Funâmbulos num mundo em que todos querem ser certinhos, à esquerda ou à direita, mas certinhos, com opiniões muito definidas. E, se puder ser, a darem lições de moral, sobre como se deve viver ou se deve pensar.

 E na altura não ficou surpreendido com o Prémio APE para o seu “Longe de Manaus”?

Muito. Garantiu-me muitas inimizades [risos]. Nunca esperei que isso acontecesse. Nunca esperei ambas as coisas, aliás: nem o prémio, que foi saboroso para um livro que gostei muito de escrever, nem as inimizades, que também foram saborosas.

Penso que terá sido José Cardoso Pires a dizer que toda a literatura é policial. Concorda com esta afirmação?
Sim. Ele disse-o numa entrevista que lhe fiz a propósito do “Alexandra Alpha”. Em 1986, imagine. Quando me perguntam quais são os temas do policial eu costumo dizer que são a morte, o arrependimento, o medo, a fuga, o desaparecimento, o enigma, a perseguição, a culpa, o passado… São este os temas da chamada “literatura em geral”. A questão é que o policial elege-os como tema, não como pretexto. Impõe uma investigação, uma narração, não apenas uma espécie de revelação. Impõe a existência de uma história, não uma história com princípio, meio e fim, mas uma reconstituição de todos os passos independentemente dessa ordem. Essa ideia de que o policial é uma “literatura pobre” já passou.

Os seus romances, em particular “As Duas Águas do Mar”, “Longe de  Manaus” e “Mar de Casablanca”, além de policiais, são livros de viagens. Escreve, sempre, sobre locais que já visitou?
Sempre. Um das grandes pilares da arte do romance é a sua ligação à geografia, ao espaço, ao movimento sobre a terra… E sim, concordo com essa ideia dos meus livros como livros de viagens. Sobre África, a América, Portugal. Até sobre o Oriente.

 O Oriente? Onde?

Agora, neste.

À semelhança do Delegado Espinosa de Luiz Alfredo Garcia-Roza e do investigador Bellini de Tony Bellotto, Jaime Ramos é um hedonista. Há muito de Francisco José Viegas em Jaime Ramos?

Há um combate. Uma das coisas mais interessantes desse combate é que eu quero que ele faça uma coisa e ele às vezes faz outra. Não consigo pô-lo a dizer uma frase que ele não queira dizer. Falou do Cardoso Pires, e eu recordo como o José Cardoso Pires falava dos personagens: eles é que nos levam, e quanto mais desconhecidos forem os caminhos – melhor. Interessa-me gente que não conheço no meu círculo de amizades, que não são intelectuais, nem gente bem comportada: Geralmente é gente em risco permanente que me obriga a ouvir outras vozes que falam de outras vidas que eu não conhecia.

 Pode dizer-se que há um pouco de auto-ficção no seu trabalho?

Tudo menos auto-ficção. Eu acho que a auto-ficção é uma espécie de arremedo, de recurso para escapar à pobreza actual da ficção literária. A ideia de colocar o autor-narrador como personagem e pilar da história e da narrativa é muito interessante, se não tivesse sido usada antes por génios como Camilo, Laurence Sterne, Garrett, Machado de Assis, Sebald, até em certas passagens do “Quixote”. Hoje, qualquer pateta se vale da auto-ficção para mascarar a falta de imaginação e o ódio que tem ao leitor mas, sobretudo, à brutalidade dos outros. Mais uma vez, compreendo perfeitamente a coisa, mas não me interessa nada, é uma pantomineirice. Há pessoas que gostam dessa literatura que anda muito à volta de si mesmo, multiplicando-se, evitando falar de assuntos, digamos, não-literários.

 Nesta fase, que já se arrasta há algum tempo, da ditadura do
politicamente correcto, recordo sempre uma conversa extraordinária entre o Jaime Ramos e o seu director, sobre a importância do exercício físico, que termina com  o inspector a deixar um charuto em cima da  secretária do chefe dizendo: “Mesmo que não o fume. Só para se lembrar da forma deles.” Caminhamos para uma sociedade “higienizada”,  onde não sobra espaço para o prazer?

Já pensei isso, mas hoje acho quase o contrário. A sociedade está cada vez mais higienizada, sim – mas o prazer é uma espécie de denominador comum de todas as actividades. Na escola, tem de se aprender com prazer e, em última instância, não aprender, porque isso dá trabalho. Na vida social busca-se apenas aquilo que o jornalismo de “life style” diz que é o prazer, tudo muito enquadrado e definido. As pessoas buscam incessantemente “o prazer”, e eu acho que já não sabem o que isso é. O prazer é cada vez mais uma imagem excitante e menos uma intensidade, uma busca de profundidade, de serenidade. Vivemos numa sociedade muito sexualizada, por exemplo. Vamos pela estrada fora e temos outdoors com anúncios a motéis, sex-shops, até os vinhos se chamam “Sexy”, por exemplo, etc. É impossível escapar a essas referências, tal como à omnipresença do abuso sexual, da ética das relações sexuais, da educação sexual, das questões de identidade sexual, das meninas da televisão e das novelas que mostram o corpo no Instagram ou naquela coisa do Facebook… A explosão da “matéria sexual” transformou-se numa obsessão de qualquer discurso público. Esta ideia da educação sexual para crianças de seis e sete anos, não sei… Não sei.

 Tem dúvidas sobre a necessidade de educação sexual nas escolas?

Não. Nenhumas. É necessário, fundamental. Tal como uma educação para a igualdade dos sexos que ponha termo àquele machismo pateta e destrutivo em que os adolescentes caem. A violência no namoro. A violência conjugal, que é um flagelo, um abuso, uma forma de autoritarismo nas relações humanas. Mas também acredito que é necessária uma educação para o pudor, para a natureza discreta e íntima do sexo. Acredito na ideia de vícios privados, públicas virtudes… [risos] Acredito no papel da dissimulação, se quiser. E na natureza selvagem das nossas inclinações, já agora. [risos] Os anos 80 e 90 foram uma espécie de despertar da libido para a vida política, o espaço público, a televisão, a imprensa, etc. Nos EUA, foram os ‘naughty nineties’, aquela geração de “babyboomers” que chegou ao poder, como o Clinton, agora o palerma do Trump. O que os une, a todos, é a falta absoluta de pudor.

 É curioso. Foi um crítico de Trump antes da eleição dele. Participou naquela campanha internacional contra Trump…

Sim, claro. Qualquer pessoa decente o faria.

 Mesmo à direita, mesmo um conservador?

Sobretudo um conservador. Trump é tudo menos um conservador, uma pessoa honrada: é um mostrengo dos negócios que está a fazer mal à América como o fizeram a cupidez e a soberba dos Clinton. Com a agravante de que o Clinton era um tipo medianamente culto, e com uma certa noção do bem público, e Trump é um pateta analfabeto, ressentido, malcriado. O Partido Republicano é herdeiro de uma tradição conservadora e “piedosa” muito importante, e que Trump acabou de enterrar: foi o partido anti-esclavagista, anti-imperialista… Bom, mas as pessoas não sabem o que foi o debate sobre o imperialismo em 1900, com a ocupação das Filipinas e do Panamá, não vale a pena sequer recomendar que leiam… Portanto, qualquer pessoa decente e na plena posse das suas faculdades mentais acha que o presidente Trump é, pessoalmente, humanamente, uma coisa abominável que talvez a ciência possa explicar. Mas acho que não basta choramingar e fazer guerrilha, é preciso compreender porque é que as pessoas do Big South, dos estados operários, pobre reais, brancos desempregados, etc., votaram Trump. Porque, tal como na Europa, estão descontentes com “o sistema”. E os europeus ainda não despertaram para essa ameaça, ameaça do descontentamento, do grande poder das oligarquias políticas e mediáticas, do “politicamente correcto”, que é uma linguagem que não tem correspondência com o real, e que é uma espécie de parlapié ideológico que diz muito pouco às pessoas reais… Tenho algum receio sobre os próximos anos da Europa. Bom, muito receio.

Voltemos a Jaime Ramos. Como é que o define?

Um burguês do Porto. Um burguês mais ou menos conservador de uma cidade burguesa e conservadora. Um celibatário que vive com uma mulher. Um velho teimoso. Não fui eu que o fiz assim, foi ele que nasceu desta forma, como um pessimista, um cínico, um homem que procura alguma espécie de sensatez e de conforto. Ele foi militante comunista no passado, um homem que aprendeu a natureza da desilusão, da derrota e da perda. E não gosta de coisas novas, de comida nova, nem de novos jogadores do FC Porto. Por ele, ainda jogariam o Jardel, o Rodolfo, o Rolando e o Cubillas. E o Gomes.

 Os membros da sua equipa de detectives são sempre irónicos com ele, mas respeitam-no. O Isaltino, Corsário, Delfim…

…e a Olívia.

 A Olívia, sim. Ela ganhou protagonismo logo a partir de O Colecionador de Erva.

Ela nasceu nesse livro como uma espécie de redenção do próprio Jaime Ramos. Uma mulher independente, razoável, dura, sensual, discreta, e preparada para as coisas quotidianas. O ex-marido, que era boxeur no Infante de Sagres, batia-lhe — e ela, um dia, respondeu-lhe à letra, partiu-lhe o maxilar. Uma mulher do Norte [risos]. Olívia é das personagens de que mais gosto.

 Qual deles vai ser o herdeiro de Jaime Ramos quando ele se reformar?

Isaltino é o herdeiro natural, muito cumpridor, mas tem aquele perfil de homem honrado de Massarelos, sempre de gravata… Olívia é a rival: tem a vantagem de ser mulher e de ser formada em Direito. Vamos ver.

Uma das características fundamentais da sua escrita tem a ver com as deambulações melancólicas, com aquele tom melancólico que marcava muito certos capítulos de “As Duas Águas do Mar”, “Morte no Estádio” ou “Um Céu Demasiado Azul”. Isso era pouco condizente com o estilo do romance policial…

Bom, eu estou-me um bocado nas tintas para “o estilo do romance policial”… O tipo de romance que faço é provavelmente herdeiro de uma certa tradição lírica da prosa. As minhas personagens são assim. Filipe Castanheira [primeiro detective dos romances de FJV] era assim. Jaime Ramos tem descuidos fortuitos e fica assim. Essa marca melancólica, ou nostálgica, é também uma forma de conhecimento ou de apreensão da realidade. Há uma teoria muito engraçada sobre o romance policial, defendida sobretudo pelos que não escrevem romance policial, segundo a qual este tipo de romance deve ser muito mais seco, directo, pouco dado a estados de alma. Não sei o que isso é. Um dia, o José Saramago, que tinha acabado de ler o “Morte no Estádio”, disse-me uma coisa desse género: oiça lá, eu li o livro mas aquilo não é bem policial. Estávamos na Ericeira, numa casa em cima do mar, ele tinha terminado o “Evangelho” no dia anterior, e estávamos a falar sobre o livro — e eu disse-lhe, “olhando aqui à volta, que linguagem é que usaria para falar desta beleza toda, ou de uma personagem que fica tocada por ela?” Não era com certeza uma coisa seca, directa e pouco dada a estados de alma. Além de que o romance policial, ou histórico, ou seja o que for, é aquilo que o autor quiser que ele seja. Será escrito como o autor quiser. É um risco, mas é um risco que vale a pena correr. É o meu risco.

 Isso também não é muito surpreendente, porque escreve poesia. Publicou um livro novo no ano passado e sairá este ano uma nova edição da sua poesia completa… Que papel tem a poesia na sua escrita?

Não faço ideia, e não estou a ser arrogante. Não sei. Não sei falar de poesia, não consigo ter um discurso minimamente coerente acerca de poesia e, sobretudo, acerca da minha poesia. São sonetos, na maior parte das vezes. Mas eu penso que a poesia não tem a ver com a literatura, é uma coisa que está mais além, que se situa, se calhar, a par da religião, dos mitos, da música. De resto, acho que a prosa, a minha prosa, é muito devedora do que fiz na poesia. Há uma contaminação, se quiser. Há coisas que consigo separar: a crónica e a poesia, a ficção e a intervenção política, etc., etc. Mas o romance e a poesia não têm fronteiras muito definidas no meu caso. A não ser formalmente, claro…

A gastronomia tem sido uma das paixões. Escreveu sobre restaurantes, teve uma coluna de receitas, escreveu sobre cerveja e charutos… Já o li a criticar a “cultura gourmet”…

Quando comecei a escrever sobre comida, havia dois ou três grandes tipos na imprensa a fazê-lo. O José Quitério, naturalmente, mas também o Fernando Assis Pacheco, o Quito Hipólito Raposo, depois o Alfredo Saramago, um grande tipo. Acontece que hoje a gastronomia invadiu quase tudo o que se mexe na imprensa, peço desculpa. Por um lado, é um triunfo sobre aqueles tempos em que, como nos anos oitenta, não sei se se lembra, se vendiam apartamentos sem cozinha. Cozinhar era sujo. Os intelectuais portugueses, então, eram muito avessos à gastronomia, o que é estranho porque tivemos gente a escrever bem sobre cozinha, desde o Eça e o Camilo (que, como sabe, não comiam grande coisa, um porque o estômago não deixava, outro porque não tinha apetite), o Fialho, o Ramalho, depois o Aquilino, por aí fora. Mas o domínio da cozinha, como o da gastronomia e da arte culinária, está ligado ao do prazer. Não ao hedonismo, mas ao prazer, ao conforto, à aura doméstica, à convivialidade — e a nossa tradição literária, que é muito pessoana, primeiro, depois muito existencialista, não ia muito com isso. Hoje, pelo contrário, há uma superabundância de cultura gastronómica, de invenção, de sofisticação, de exibicionismo… Isto é bom e mau. É bom porque, finalmente, as pessoas ligam ao que comem, procuram comida, têm curiosidade, já não são preconceituosas em relação a certos ingredientes… Mas, por outro lado, há um tal exibicionismo bacoco, que me aflige. Outro dia estava a ver duas senhoras que se sentaram numa esplanada a comer uma daquelas coisas que se comem em todo o lado, com os ingredientes todos empratados, quer dizer, amontoados, uns em cima dos outros, e antes de comer passaram dois ou três minutos a fotografar os pratos. E é isto. Este exibicionismo chateia-me um bocado. Depois, a comida parece-me cada vez mais igual em todo o lado e eu até deixei de ir a restaurantes, que me parecem repetir coisas uns dos outros. E há a mania dos superalimentos (é tudo com abacate, com beringela com couve não sei quê), das reduções (quase todas falhadas), dos ingredientes repetitivos… E das coisas “gourmet”… [risos] Eu rio-me sempre que oiço a palavra “gourmet”. Tenho textos nos anos 80 contra a cultura “gourmet”, portanto não estava desprevenido. Não sou “gourmet”, nunca fui, e até acho uma coisa própria da parvónia. Outro dia, num bairro popular de Lisboa encontrei uma confeitaria de esquina que se dizia “recanto gourmet”. E um restaurante que serve hambúrgueres e bifes com risoto, e que se diz “soul food”. Interessa-me cada vez mais a cozinha de família, a cozinha de província, os pratos de todos os dias. Esta gente faz risoto de baleia ou “noodles” com gafanhotos, mas não sabe fazer um arroz de tomate em termos, um arroz de grelos, um arroz de míscaros… Não sabe fazer um assado, um estufado tradicional, um arroz de bacalhau ou um frango no forno. Há, na cultura “gourmet” uma histeria incompatível com a serenidade que se procura na cozinha, mesmo quando ela é barroca, experimental ou tradicional.

 É isso que cozinha em casa?

É isso que faço em casa. Legumes simples, mal cozidos, e comida de família, como eu via as nossas tias e as nossas avós fazer. É a minha dieta. Um arroz de ervilhas como se fazia há quarenta anos, por exemplo. Há pessoas que comem salada de quinoa com espinafres, bagas nórdicas e sumo de manga, que é bom, mas nunca comeram uma salada de agrião a acompanhar filetes de bacalhau… De modo que passo a vida a rir-me diante dos programas de televisão. Aliás, os programas de televisão portugueses de cozinha são uma tristeza, uma pobreza, uma palhaçada.

 Há algum cronista de gastronomia que segue especialmente?

Não. Leio poucas crónicas de comida. Gosto muito do que escreve o Ricardo Dias Felner, por exemplo. Mas, à generalidade dos nossos cronistas, falta-lhes conhecimento de história, de literatura e de geografia. Querem todos ser, como é que se diz?, aquela parvoíce?, “influencers”… Não se pode escrever sobre cozinha sem saber literatura, sem saber geografia e sem saber história. Ponto. A cozinha alimenta-se destas coisas, destes saberes. Mas hoje toda a gente tem orgasmos experimentais com “ramen” e “poke”…

 

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