Ao longo das primeiras oito décadas da história do cinema feito em Portugal, apenas uma mulher realizou uma longa-metragem de ficção que tenha estreado comercialmente e cuja realização lhe tenha sido devidamente atribuída. Foi Bárbara Virgínia, que tinha apenas 22 anos. As razões dessa realização precoce prendem-se com uma série de acasos que fizeram desaguar nas mãos da atriz protagonista o cargo de direção. Ou seja, só mesmo por acaso foi possível que uma mulher, em pleno Estado Novo, tenha tido a oportunidade de assumir tal função. Passariam quatro décadas até que outra mulher voltasse a assinar uma longa-metragem no nosso país – essa mulher seria Margarida Cordeiro e esse filme, TRÁS-OS-MONTES, corealizado com António Reis. (…)
O presente Ciclo tem como propósito pôr em causa essa narrativa que reduz a participação das mulheres que construíram o cinema português anterior à geração do Cinema Novo como uma nota de rodapé com um ou dois nomes apenas. Pioneiras do Cinema Português apresenta dezoito sessões dedicadas às dezenas de mulheres que, desde o cinema mudo até ao dealbar do Novo Cinema, fizeram filmes em Portugal. (…)
Pioneiras do Cinema Português pretende, antes de mais, sinalizar um conjunto de nomes e obras sobre os quais há ainda muito que estudar. É, por isso, um Ciclo que tem como propósito apresentar um conjunto de cineastas cujos materiais fílmicos eram pouco conhecidos, ora pelas suas características materiais (cópias únicas ou frágeis) ora pelas suas características de produção (evidente no que respeita a projetos inacabados ou ao cinema doméstico). Daí que tenha havido um esforço concertado para encontrar formas de apresentar estes filmes – alguns deles pela primeira vez – na Cinemateca: fizeram-se novas preservações e duplicações de materiais analógicos, fizeram-se novas digitalizações e restauros digitais, possibilitando que certas cópias cujas condições de preservação impossibilitariam a sua apresentação pública, sejam agora visíveis.(…)
A juntar a isso, o Ciclo integra os filmes de realizadores e realizadoras contemporâneos que se debruçaram sobre a vida e a obra de algumas destas mulheres. São, invariavelmente, documentários em forma de retrato. E, nos casos em que esses documentários não estão ainda prontos, aproveitam-se estas sessões públicas para os anunciar e visibilizar. De facto, este é um programa que procura estabelecer um olhar presente sobre o passado, ora desafiando músicos contemporâneos para reinterpretarem estas imagens sem som, ora optando pela via das sessões-comentadas, nos casos em que o estatuto fílmico dos objetos assim o convida. (…) Cinemateca Portuguesa
Programa aqui



