COLUNA DESCOLADA

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Que treta é essa?

No maior dos acasos, em conversa com um amigo carioca a morar em Lisboa, soube que uma festa que ele costumava ir lá no Rio, aparentemente muito divertida, se ia realizar em Lisboa. Logo combinámos ir. Ele insistiu para ir cedo, que ia ter fila, que ia estar cheio. Eu desconfiei, pensando que uma festa carioca a aterrar de paraquedas em Lisboa, e a comunicar muito em cima da hora, não iria por certo encher à primeira. Ainda assim acedi e chegámos pouco passava da uma hora. Nada de fila e eu já a pensar: que pena, vai ser um fracasso. Mal entrámos todas a minhas dúvidas se desvaneceram, o espaço estava lotado e não tinha fila porque parecia que toda a gente já tinha entrado. Lá dentro um ambiente super animado, com a pista toda a dançar ao som de ritmos predominantemente sul-americanos, num ambiente que me parecia quase a 90% brasileiro e que me transportou por instantes para a América do Sul. Um incauto que ali entrasse pensaria estar no Rio, ou pelo menos no Brasil. Não parecia definitivamente Portugal, em particular pela forma como as pessoas dançavam, pela desinibição e descontração do ambiente. A noite acabou por ser divertidíssima e fiquei muito curioso em saber mais sobre esta festa, motivo que me levou a falar com Guilherme Acrízio, um dos sócios e criadores da festa Treta.

A Treta nasceu no Rio há 4 anos, num pequeno bar chamado Galeria Café – situado em plena zona sul, no bairro de Ipanema –, pelas mãos do Guilherme e do Thiago Araújo (sócio, produtor e DJ), virada para um público LGBT selecionado, privilegiando o atendimento e a qualidade de som, com uma escolha musical centrada no Pop que estava bombando na altura. Rapidamente a festa se tornou pequena para o espaço e teve de crescer, apesar de manter a periodicidade semanal no espaço de origem.

Sobre o que diferencia a Treta, diz Guilherme “Muitos lugares fazem festas parecidas para tentar seguir essa pegada, que é uma pegada muito nossa. Não há um padrão exacto, a gente faz acontecer no dia. Somos perfeccionistas com tudo, trabalhamos e fazemos que a festa seja perfeita em todos os sentidos. Nós temos um escritório no Rio que comporta toda a demanda. Um escritório bem direcionado na parte artística e visual, para manter a identidade visual forte, a característica da festa, sem perder isso em nenhum lugar. Quanto à qualidade da festa, a gente mantem a festa igual, faz todas as formas de estar presente, ou eu ou o Tiago, porque somos a cara da festa e levamos a própria equipa que acabou se tornando, também ela, a cara da festa.

A festa também se diferenciou desde o início pela forma como usou as redes sociais, “temos um Facebook e Instagram muito forte. Somos a festa LGBT mais seguida do Brasil, das mais seguidas do mundo. Quem entra no Instagram da Treta pode ver o material completo desde o início da festa, vídeos em directo, quem está tocando, se tem fila, quem são os convidados. Isso atrai quem está em casa, saber o que está acontecendo na Treta. Algo que gosto muito de fazer, a divulgação em tempo real. Começámos a fazer há 4 anos ainda com Blackberry, tirando fotos e postando. Não se via isso em lugar nenhum. Queria mostrar para as pessoas em casa como estava a festa naquele momento. Aqui no Brasil isto é muito forte, vejo menos noutros países, mas as pessoas acabam aderindo a essa moda de internet e rede social.”

A música é um dos factores que distinguem a Treta, em tempos em que a música electrónica invade a maioria dos espaços, aqui há uma escolha de DJ que se foram juntando ao projecto, tornando-se parte dele, e onde predominam estilos brasileiros como o funk carioca, o sertanejo ou o axé, secundados pelo reggaeton e pelo pop comercial.

Até chegar a Lisboa, “A Treta começou por ter uma visibilidade muito grande no Rio. Chamou a atenção de produtores de outras cidades e nisso foram fazendo parecerias independentes em cada cidade (Belo Horizonte, Brasília, Manaus), até chegar a 30 cidades em todo o Brasil, 10 mais fortes e outras que alternam. Criámos uma grande experiência de chegar na cidade do zero e fazer a marca acontecer.” Seguiu-se a internacionalização para Nova Iorque ou Santiago do Chile, estando já no horizonte que a festa chegue a Madrid, Dublin ou Milão, cidades com muitos brasileiros, que é o público alvo, base para chegar ao público em geral.

No seguimento deste crescimento, como diz Guilherme “não foi difícil atingir Portugal, até pela língua, o público consome o que a gente consome. A sensação é a mesma de fazer no Rio, toda a gente canta as músicas, até portugueses. Toda a gente sabe quem é a Ludmila. Foi muito mais fácil chegar e fazer o que a gente faz aqui. A festa em Portugal é basicamente para brasileiros, mas também atinge o público local.“

Sobre a dificuldade de chegar a uma cidade diferente e montar um projecto com este sucesso logo a partir da primeira edição, “A gente conseguiu por conta desse trabalho. O processo do brasileiro conhecer a marca, montar uma equipa local na cidade em que a equipa de promoters locais mostrasse o que é a festa, o que ela representa. Eu tenho meu tempo dedicado quase a 100% à festa. Eu chego um dia antes, saio à noite, tento conhecer as pessoas, pesquiso público, encontro as pessoas. Vejo o que está rolando nas outras festas. Crio amizades, relacionamentos. Isso gera um retorno muito forte para o meu trabalho de RP, de promoter, valoriza muito quando recebo as pessoas na porta e as abraço, ou as sigo nas redes sociais.”

A Treta tem geralmente uma periodicidade entre 1 a 3 meses em cada lugar habitual, o suficiente para deixar saudades e não ser esquecida. “Depois que se faz uma vez, a tendência é ir crescendo até chegar à Tretona, que é uma Treta em formato maior, uma outra marca, que a gente trabalha quando a festa tomou uma proporção muito grande na cidade. Em lugares maiores, no futuro cada cidade terá sua Tretona, como tem São Paulo ou Belo Horizonte”. Depois do sucesso das duas primeiras Treta Lisboa, que tiveram lotação esgotada, poderemos então esperar uma próxima Treta brevemente na cidade e, provavelmente, não levará muito tempo à Tretona chegará aqui. O público de Lisboa agradece.

 

Por: João Almada

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