Artigo

COZIDO DE ENTRECOSTO COM GRELOS DE NABO

Nesta quadra natalícia, recordo o cozido de entrecosto com grelos de nabo que foi a especialidade com que o Tristão e a mulher, dois viseenses nossos amigos e donos de uma pequena tasca nos arredores da capital, nos quiseram obsequiar, já lá vai uma data de invernos, no dia em que fizeram vinte e cinco anos de casados.

Prato forte, com demasiada gordura, a degustar de tempos a tempos, numa evocação à glória do porco alentejano e dos saborosíssimos grelos de nabo, crescidos em terras frias de Viriato, e em louvores à Mãe-Natureza que os criou.

– Foi um quarto de século de trabalho quase sem descanso, ela na cozinha e eu atrás do balcão e a servir às mesas. – Dizia o marido, feliz da vida, enquanto nos punha os talheres na mesa ao lado dos pratos de “Cavalinho”, da antiga fábrica de Sacavém.

– Pela ementa estampada ali à porta, esta vossa casa, embora pequena, deve dar muito trabalho. – Disse eu, num tom de quem aprecia o bom serviço que este simpático casal prestava à sua habitual e muita clientela.

– De manhã à noite! E só se descansa ao Domingo. Eu, sim, mas ela, não!. – Disse o Tristão, apontando para a companheira. – Eu sempre fui e vou à bola, seja aqui, em Lisboa ou noutro sítio qualquer, com a malta cá do clube. Ela, coitada, fica em casa a fazer num dia tudo o que não pôde fazer durante a semana. Vá lá que não temos filhos. Mas quem vai à praça, todos os dias, sou eu. Todas as manhãs, às sete horas, já estou na praça, chova ou faça frio.

– Cheira que é um regalo! – Exclamei, quando Tristão se aproximou com as travessas fumegantes, bem ao alto, uma em cada mão.

– E aqui têm, as carnes já cortadas, numa travessa, e os legumes, na outra.

Envolto nos aromas que rapidamente encheram a pequena sala, foi salivando que olhei aquela “natureza morta” digna de um Paul Cézanne.

– E qual é o segredo deste manjar? – Perguntei, não por perguntar, mas porque desejava mesmo conhecer-lhe a receita.

– É tão simples como isto. – Começou o Tristão, aproximando-se com uma garrafa de um Dão tinto, de 1988, de um lote que tinha guardado para certas ocasiões.

– Numa panela de ferro, de tampa bem pesada, que ali tenho, cozo o entrecosto com duas cebolas grandes cortadas a meio. Junto muito pouco sal e uma boa porção de grãos de pimenta preta. Cozida a carne tiro-a para fora e enfio lá para dentro os grelos, os nabos e as batatas. Os grelos, os nabos e as batatas, à sua frente, chegaram-me ontem lá da terra. O chouriço e a farinheira vêm do talho de um vizinho amigo, que os manda vir do Alentejo, mas a morcela é nossa, é beirã como eu e aqui a patroa.

– Os enchidos, – meteu-se na conversa a mulher que, entretanto, se aproximara – são cozidos à parte, para não deixarem o gosto a fumeiro que estraga o paladar desta especialidade. Há quem goste de pôr cenoura mas eu não ponho. Acho que adoça e tira este “amarujar” muito especial dos grelos e dos nabos. E agora, bom proveito.

António Galopim de Carvalho

Imagem: garficopo.blogspot.com
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