Viagem pela fotografia colonial

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O documentário de Joana Pontes Visões do Império, que releva a importância e o papel da fotografia no colonialismo português. O filme complementa-se com uma exposição homónima, comissariada pela realizadora e pelo investigador Miguel Bandeira Jerónimo, patente no Padrão dos Descobrimentos. Conversámos com a realizadora que nos explicou como os dois projetos ajudam a perceber a natureza do colonialismo, fomentando ao mesmo tempo a reflexão e o debate.

As fotografias da infância de Joana Pontes, em Angola, país onde viveu até ao seu regresso a Portugal com 13 anos, serviram de ponto de partida para o filme. Ao revisitar estas memórias, quando estava a fazer o Doutoramento em História Contemporânea sobre a Guerra Colonial, “comecei a perceber que estava na altura de olhar para as fotografias de outro modo. É o seguimento de um percurso pessoal. Há uns anos não me teria permitido essa reflexão, agora, que estou muito longe da realidade que expressam, posso olhar para elas com outras ferramentas. Antigamente não conseguia olhar para as fotografias, ficava emocionada… hoje, olho para elas de uma forma mais pacificada.”

Durante o doutoramento, Joana Pontes questionou o porquê de existir tão pouca coisa escrita sobre a fotografia da guerra colonial. Essas perguntas levaram-na ao encontro com dois investigadores, Filipa Lowndes Vicente e Miguel Bandeira Jerónimo. Foi o início do documentário Visões do Império. Para a realizadora era importante “tirar do espaço estrito da academia, investigações que dizem respeito ao espaço público e que no espaço público podem contribuir para uma discussão mais fomentada e menos opinativa. Achei que fazermos o documentário era uma forma de tornar mais clara esta discussão”, sublinha.

O filme, uma viagem coletiva ao passado colonial através de uma seleção de fotografias do império português, captadas desde os finais do século XIX até à Revolução de Abril de 1974,  desvenda os locais onde hoje se adquirem fotografias e postais realizados no contexto colonial, assim como os arquivos onde se guardam as milhares de fotografias relacionadas com o passado imperial português. Uma viagem que nos faz refletir sobre os problemas éticos associados ao uso destas imagens e que ajuda a relançar um debate essencial que não tem tido o protagonismo necessário.

“Estávamos muito próximo do acontecimento e não somos particularmente bons a lidar com a memória. Como houve uma mudança de regime brusca, não foi possível incorporar estes acontecimentos de uma forma mais factual, mais histórica, mais refletida”, esclarece a realizadora. “Muitas das pessoas que procuram informação sobre o tema são ex-combatentes que não querem que se esqueça o sacrifício que fizeram pela pátria, tentam reconstituir o passado e que se fale do assunto independentemente do julgamento que daí advém.”

Assentamento da via, 1949

 

A exposição, já patente no Padrão dos Descobrimentos, e o livro/catálogo (que será lançado em setembro) surgem como um complemento ao documentário e permitem uma outra forma de difusão do tema. “No fundo a exposição tem outras fronteiras, inclui textos de pessoas que dão opiniões e pontos de vista sobre as fotografias, tem uma organização diferente da do filme, transmitindo uma perspetiva pessoal, uma espécie de itinerário de investigação”. São estes textos que guiam o visitante pelos oito núcleos da mostra, onde se incluem imagens captadas nas antigas colónias em tempos e momentos muito diversos: da ciência ao trabalho, passando pelos hábitos, usos e costumes culturais. O percurso termina com uma instalação de Romaric Tisserand.

Viagem ao Búzi Duquesa da Aosta 1909

 

Tanto a exposição como o filme permitem-nos perceber como uma imagem nem sempre “vale por mil palavras.” Os postais com imagens de África e de africanos ganham uma dimensão completamente diferente quando se leem as mensagens escritas por aqueles que os enviavam para Portugal. Joana Pontes confirma este facto “quando lemos aquilo que se escreve sobre elas”. Nas imagens enviadas de Portugal para a ONU, e que “pretendiam ajudar a fazer uma espécie de contra discurso, compreendemos um contexto que não nos é acessível se só olharmos para a fotografia. A fotografia é uma imagem, mas tem que ser compreendida num contexto de produção e de classificação, o que neste caso é muito perturbador.”

Outro facto inquietante revelado no filme diz respeito à ausência de imagens que expressassem o sofrimento do povo africano ou a forma desumana como eram tratados. Mesmo depois de uma maior democratização na utilização da câmara fotográfica, as fotografias veiculadas traduziam “uma visão branca” de tempos felizes e prósperos. Sobre esta questão Joana Pontes cita a escritora Dulce Maria Cardoso, “concordo quando ela diz que a nossa vida pessoal não pode servir de amostra da vida coletiva. Neste discurso das colónias, e sinto isso mesmo em relação a alguns elementos da minha família, há muito quem justifique não fizemos mal nenhum, trabalhámos, levámos os filhos à escola… Isso são as histórias pessoais, como há a história dos brancos pobres que foram enviados para as colónias no final dos anos 50, que chegaram pobres, viveram pobres e saíram de lá pobres.”

Independentemente da experiência de cada um “a narrativa individual não nos pode fazer esquecer, nem permitir não analisar, o que foi a grande história dos impérios, que levou ao sofrimento, ao trabalho forçado, à violência e ao profundo desrespeito pelas populações locais. Achamos que a nossa narrativa pessoal é prova da bondade das coisas onde estivemos inseridos, mas não é. Acho que hoje, uma outra geração, que está de fora da cronologia dos acontecimentos mais dolorosos, talvez consiga olhar para isto de outra maneira. Percebemos que embora a nossa vida tenha sido feliz em Angola não é paginável com a vida de milhões de pessoas que viveram numa profunda infelicidade e desrespeito. Porque é essa a natureza dos impérios e o seu objetivo: ocupar e explorar os recursos.”

 

“Visões do Império”, de Joana Pontes

Fonte:Agendalx

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