Uma carta de Paris*

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Há mais de meio século, recebi em Argel uma carta vinda de Paris, assinada por Alain Oulman. “Tinha musicado Trova do vento que passa” (as quatro primeiras estrofes) e pedia-me autorização para ser gravada por Amália Rodrigues no seu próximo disco.

Fiquei surpreendido e emocionado. Eu estava no exílio, era locutor principal de A Voz da Liberdade, os meus primeiros livros tinham sido proibidos e apreendidos em Portugal.

É certo que os poemas continuavam a ser recitados e cantados nas associações estudantis e em agremiações culturais populares, sem o nome do autor ser mencionado, a não ser à socapa. Mas nunca ninguém me tinha pedido licença, como era natural. Admirei a gentileza e a ousadia de Alain Oulman, também ele expulso de Portugal e, sobretudo, a coragem de Amália em cantar um poeta proibido. Ainda por cima um poema com um título que, numa outra versão e pela voz de Adriano Correia de Oliveira, era já um hino da resistência estudantil. E não só.

Disse-lhe da minha alegria e honra em ser musicado por ele e cantado por Amália. “Trova do vento que passa” viria a fazer parte do disco Com Que Voz. Gravado em Janeiro de 1970, seria editado em Março do mesmo ano. Foi o disco de Amália Rodrigues com maior sucesso e repercussão internacional: IX Prémio da Crítica Discográfica Italiana; Palmarés do Grande Prémio do Disco 1975, em Franca; Grande Prémio da Cidade de Paris.

Entretanto conheci pessoalmente Alain Oulman, ficámos amigos e foi em casa dele que, em 1971, acompanhado pela Mafalda, fui convalescer de uma pneumonia, depois do internamento no Hospital Cochin. E foi ainda Alain Oulman que me levou a casa de Amália em Paris, onde passámos um serão inesquecível.

Durante o período de convalescença, assisti ao nascimento de novas composições, que viriam a integrar um novo disco de Amália, Cantigas numa Língua Antiga. Sugeri-lhe que musicasse Bernardim Ribeiro, o que ele fez com um fado a que chamou “Mal aventurado”. E também “Perdigão”, de Camões.

O disco incluiria três fados com poemas meus: “Meu amor é marinheiro” (com estrofes de “Trova do amor lusíada”), “Abril” (num arranjo que fizemos de “A rapariga do Pais de Abril”) e “As facas”, do livro, nesse tempo ainda não publicado, Coisa Amar.

Conversámos muito nesses dias na sua casa do Marais, sobre poesia (Alain tinha uma intuição rara), fado e, claro esta, Amália. E também de Ary dos Santos, com quem cheguei a falar ao telefone por causa de uma palavra dele que Alain precisava de substituir.

Amália era uma referência para mim desde Coimbra. Os seus discos acompanharam-me no exílio. Na sua voz, sentia pulsar a nossa raiz portuguesa e o bater do coração do mundo.

A sua maneira de cantar dava outra dimensão a cada verso e fazia da própria língua uma música inconfundível. Ela sabia dizer cada palavra e, quando cantava, nem uma silaba se perdia.

Com Alain e com Amália aprendi mais sobre poesia e sobre fado, confirmei a importância da oralidade e constatei que não há grandes poetas que não tenham dentro de si a estrutura rítmica da língua. Eugénio de Andrade considerava Os Sonetos, de Camões, o livro mais actual da poesia portuguesa. Amália canta Camões como se fosse um poeta de hoje. E, de certo modo, o seu poeta.

Alain Oulman musicou poemas meus que já estavam editados. Não sou um letrista e tenho pena, porque não e fácil. Mas, num certo sentido, todos os poemas podem ser letras de fado. Nunca tinha escrito para o fado de Lisboa. Mas sempre pensei que “Trova do amor lusíada”, publicada na Via Latina em 1961, podia ser cantada por Amália.

João Braga estimulou-me a escrever sobre e para o fado. Assim nasceram vários poemas que ele musicou e cantou. Alguns fazem parte desta colectânea por, directa ou indirectamente, estarem relacionados com Amália.

Enfim, pretendo, com este livrinho, prestar o meu tributo ao Centenário de Amália. Reuni os poemas meus que ela cantou, os que sobre ela escrevi e aqueles que exprimem uma visão do fado que, em grande parte, fiquei a dever a Alain Oulman e a Amália Rodrigues.

*“As Sílabas de Amália”, Manuel Alegre, Edições D. Quixote

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