UM CAMÕES PARA A PÁTRIA QUE É A NOSSA LÍNGUA

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Em outubro de 2015, fui assistir à adaptação do diretor João Falcão para o texto de Ópera do malandro, de Chico Buarque, no Teatro Castro Alves, em Salvador. O elenco era quase todo masculino, com exceção da atriz e cantora Larissa Luz, e se revezou na interpretação dos personagens homens e mulheres, conferindo à montagem ar de novidade. Não poderia ser diferente: quase quarenta anos depois de sua primeira encenação, a peça foi novamente sucesso de público e crítica por onde passou, de norte a sul do país.

Para criar sua “ópera”, ainda na década de 1970, Chico Buarque adaptou os textos clássicos de John Gay – Ópera do mendigo (1724) – e Bertolt Brecht – A ópera dos três vinténs (1928) – à alma brasileira, dando voz aos personagens marginalizados de nossa sociedade e primando por um forte recorte social. O musical foi encenado pela primeira vez em 1978, em plena ditadura (1964 – 1985), com trechos censurados pelo regime. A inspiração da peça, as obras de Gay e Brecht, mostra a sofisticação da formação cultural do autor e sua imensa capacidade de converter textos clássicos em uma linguagem capaz de comunicar com êxito ao grande público.

Ainda na plateia do teatro, enquanto aguardava o início do segundo ato, tentei alcançar o momento em que Chico havia adentrado a minha vida. A lembrança mais remota que tenho foi a de estar em frente à tela de uma TV preto-e-branco assistindo ao filme Os Saltimbancos Trapalhões, interpretado pelo grupo humorístico Os Trapalhões. O roteiro era uma adaptação da peça dos dramaturgos Sérgio Bardotti e Luis Enriquez Bacalov, que por sua vez foi baseada no clássico conto Os músicos de Bremen, dos irmãos Grimm. O texto e as canções foram traduzidos e adaptados por Chico.

Claro que na época ainda não compreendia a forte crítica social das letras, mas me emocionava imensamente com as canções, ao ponto de repeti-las por longo tempo, como nós crianças costumamos fazer quando aprendemos uma música nova. Anos mais tarde, talvez já na adolescência, assisti à reapresentação do especial televisivo Morte e vida Severina, baseado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, veiculado originalmente em 1981. Mais uma vez, era a arte de Chico transformando um texto duro em canções que jamais deixaram minhas recordações. Enquanto escrevia minha conferência para as Correntes D’Escritas deste ano – que celebrava o centenário de Sophia de Melo Breyner Andersen –, uma estrofe do longo poema de João Cabral, que foi um grande amigo da poeta, acabou adentrando o meu texto com a função de lembrar as nossas irremediáveis injustiças e desigualdades.  Mesmo tendo lido a obra com grande devoção, a poesia de João Cabral me chegou através da lembrança da atriz Tânia Alves interpretando a versão musicada por Chico.

Nos meus quase quarenta anos, sinto que Chico Buarque, o nosso mais completo artista, passou por todas as fases de minha vida. Nasci no fim da ditadura e durante os anos de redemocratização o vi gozar do status de unanimidade da Cultura brasileira. Não cresci numa casa de leitores e livros. Vim a me tornar leitor e escritor por essas razões inexplicáveis do destino. Porém, vivi numa casa onde a arte sempre foi celebrada. Meu pai era um grande apreciador da nossa música popular – de músicas estrangeiras também – e talvez tenha sido ele, porque já não me recordo, que tenha me apresentado as canções de Chico de forma mais profunda. Minha mãe sempre foi – e ainda é – uma telespectadora assídua das telenovelas. Não foram poucas as novelas que levaram o cancioneiro do artista ao domínio do público. Lembro-me que aos doze anos eu cantarolava com uma ponta de melancolia – não muito comum às crianças desta idade – a letra de Atrás da porta, na interpretação mais-que-perfeita de Elis Regina. E sei que a escutei numa das muitas novelas que vi ao lado de minha mãe.

Já o escritor Chico chegou a mim no início desta década com seu Leite derramado, que arrebatou público e crítica com o velho Francisco, e O irmão alemão, numa trama de vida e ficção que só poderia ser do artista andarilho. Só depois foi que li os seus primeiros romancesstorvo e Benjamin. Quando descobri o romancista, o fiz de livro em punho e sem nenhum assombro: era como se as narrativas do seu cancioneiro e da sua dramaturgia tivessem se transmutado com a mesma fluidez para a arte do romance, afinal, a complexidade e a criatividade das suas personagens e tramas já estavam em canções como Geni e o Zepelim, Olha Maria e Beatriz.

Chico, o artista onipresente, está entranhado nas minhas muitas memórias afetivas: das muitas canções – de Bye, Bye Brasil a Paratodos – aos grandes textos dramatúrgicos de Roda Viva a Gota D’água (Joana é a nossa versão da Medeia, de Eurípedes), de Calabar ao Grande Circo Místico; chegando ao romancista mais conhecido do que o compositor no Leste Europeu; da dura realidade de meu país aos amores não correspondidos e desfeitos; do samba tão brasileiro à sofisticação dos decassílabos de Cálice; da Grécia antiga (Mulheres de Atenas) à Revolução dos Cravos em Portugal (Tanto Mar). Por toda minha vida haverá a presença de Chico.

O escritor Sérgio Rodrigues, em texto publicado na Folha de São Paulo logo após a atribuição do Prêmio Camões, escreveu que, fosse a língua portuguesa menos misteriosa, o Nobel cairia bem no colo de nosso artista. Poucos dias depois, já em Portugal, pude ver como o Camões de 2019 estava a ser celebrado: portugueses, angolanos, moçambicanos, brasileiros e cabo-verdianos, todos louvavam de forma unânime a distinção de Chico. Era como se o Prêmio Camões deste ano não tivesse uma pátria, como em todos os anos anteriores, mas festejasse apenas a nossa diversa língua portuguesaom toda a dimensão humana que ganhou em cada fração de terra onde é falada ao redor do mundo. É como se Portugal não fosse um pequeno país do continente europeu, mas um idioma múltiplo que nos une pelo afeto e trajetória de dor e glória, como cantou o próprio Chico em Fado Tropical: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.”

Itamar Vieira Junior

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