Artigo

Simpatia Rodrigo Blanco Calderón

Simpatia | Rodrigo Blanco Calderón

Sabem o dia e sabem a hora:
Dia 15, às 15h – edição de Agosto – possivelmente, numa qualquer praia, com os pés mergulhados em água salgada e o cheiro a protector solar na pele.  (Pelo menos, é o que vos desejo!)

Soube que tinha de ler este livro, há uns meses, no momento em que assisti a uma entrevista ao autor (Rodrigo Blanco Calderón), a propósito do mesmo.

A premissa é simples: Na Venezuela dos dias que correm, um homem herda do sogro a missão de converter a sua mansão num abrigo para cães abandonados.
O que não é assim tão simples é a complexidade da trama emocional, que revela uma profunda densidade psicológica urdida pelas diferentes personagens da narrativa. Personagens essas que nos levam, pela mão, até nos depararmos com o inevitável desfecho: os cães nada mais são do que uma poderosa metáfora para o povo venezuelano – abandonado, exilado e à deriva.

“Simpatia” é um romance que combina delicadeza e fragilidade, com uma imagética potente, articulado por um retrato político subtil, mas incisivo, de um país dilacerado. Em cacos.

Como muitos saberão, não escondo o meu carinho e afinidade para com este país (na verdade, alargados a todo o continente sul-americano). Mas, acima de tudo, celebro os autores (e todos os agentes) com a coragem necessária para entenderem a urgência de desinfectar estas feridas abertas, num mundo onde o simples acto de as destapar pode desencadear uma revolução.

Para quem aprecia literatura latino‑americana simbólica e pretende entender melhor a alma doliente y llorosa, mas resiliente, da Venezuela — capaz de transformar a dor e o abandono em beleza narrativa —, este livro é de leitura necessária.
Porque, habitualmente, as viagens mais transformadoras iniciam-se com um virar de página.

Gabriela Cunha

 

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