Padre António Vieira: um encontro com o “outro”

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Ronaldo Vainfas, um dos principais historiadores brasileiros do Padre António Vieira, tem destacado que o passado familiar do jesuíta terá influenciado a forma de ser do mesmo: somos da mesma opinião. Como é sabido, pela via paterna, Vieira tinha ascendência africana – dado comprovado pelo processo de Inquisição e também pelo facto de os seus familiares no Brasil terem perdido o hábito de cavaleiros da Ordem de Cristo, uma vez que um dos requisitos era ter “pureza” de sangue. Pela via materna, muito se tem dito, embora sem aparente comprovação, suspeitando-se que seria neto de uma cristã-nova. Sobre este assunto, Vainfas recorda uma afirmação de Vieira que pode indiciar essa ascendência judaica, uma vez que este chegou a declarar que aprendeu a ler com a mãe que era, como indicam as fontes, padeira dos franciscanos de Lisboa. De facto, as probabilidades de, em inícios do século XVII, uma padeira em Portugal saber ler eram praticamente nulas, pelo contrário, os judeus tinham índices de literacia bastante elevados entre a sua população.

 

Estes dois fatores familiares podem contribuir para explicar a obra do Padre António Vieira e, sobretudo, um dos aspetos que mais o caracterizam: a sua proximidade e preocupação pelo outro. Vieira foi sempre um homem que aprendeu com todos, até com os seus “inimigos” holandeses, cujo modelo comercial, que viu no Brasil, tentou replicar em Portugal. Não se deixou levar pelas características do seu tempo, que olhava para os outros, os judeus, os negros, os indígenas americanos, como diferentes; na obra de Vieira vemos que para ele todos são seres humanos. Esse humanismo e a sua capacidade de não julgar os outros por aquilo que são ou aparentam ser fez com que Vieira pudesse viver de igual modo e sem problemas nos sertões do Brasil, privando com os índios, e nas cortes europeias, privando com a família real portuguesa ou com a rainha Cristina da Suécia no Vaticano.

Acima de tudo, o Padre António Vieira é um homem com um profundo sentido de missão, um jesuíta marcadamente influenciado pela segunda escolástica pós-tridentina e que, como muitos do seu tempo, via na evangelização do Novo Mundo uma oportunidade fantástica de reviver a gesta dos primeiros cristãos. Ao longo dos seus 89 anos de vida, realizou sete viagens transatlânticas. Foi sempre alguém que esteve entre cá (Portugal) e lá (Brasil), não só fisicamente, mas também espiritualmente. Convenhamos que, para o século XVII, não sendo marinheiro ou comerciante; sete viagens era um número elevadíssimo, tendo em conta as “duras penas” que implicava a travessia atlântica.

Mas nem tudo foram rosas ao longo da vida de Vieira. A sua postura de reconhecimento do outro e a sua militância jesuítica levaram a que fosse muito criticado e perseguido pela nobreza, pelos colonos brasileiros e até pela própria Igreja portuguesa, passando inclusivamente por dois anos de reclusão nos cárceres da Inquisição em Coimbra. O Padre António Vieira, homem culto – aluno destacado de entre os jesuítas – e experimentado – conhecedor de diferentes culturas e modelos de sociedade – quis mudar as mentalidades e quis fazê-lo enquadrado na sua fé e naquilo que considerava serem os ensinamentos mais puros de Cristo: o amor ao próximo, a humildade e a justiça social.

No Maranhão, no célebre sermão de Santo António aos Peixes (1654), tem uma das frases mais marcantes e demostrativa da sua preocupação pela injustiça que se vivia na colónia, defendendo a ideia de que o mais forte deve apoiar o mais fraco (em alusão aos indígenas) e não destruí-lo: “Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos”.

Num tempo em que muito se tem questionado a relação com o outro – como aquele que vem de outro lugar, aquele que é diferente, o migrante –, o Padre António Vieira é um exemplo de humanidade. Fernando Pessoa considerou-o o imperador da língua portuguesa, pelo seu uso da palavra, mas Vieira não se cingiu apenas ao uso da sua língua materna, teve a humildade de aprender a língua do outro, dos povos originários do Brasil, que carinhosamente o chegaram a tratar de paiaçu (pai grande).

O Padre António Vieira que, muitas vezes, nos entusiasmou no passado com a sua palava em São Roque, onde hoje está a Santa Casa e onde se localizou a antiga casa professa dos jesuítas, é assim um exemplo inspirador de humanidade e misericórdia para esta instituição cujo foco é também precisamente o outro: o desamparado, o doente, o que sofre, o que está desenraizado e o que está só.

 

Por: Gonçalo de Carvalho Amaro

Foto: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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