Os livros de janeiro Oito livros para o ano novo

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Fernando Namora

Deuses e Demónios da Medicina

Quando o diretor da empresa farmacêutica Pfizer perguntou a Alexander Fleming porque não tinha feito as coisas de maneira a obter direitos que lhe permitissem viver como merece um homem que prestou tal serviço à humanidade, o “pai da penicilina” limitou-se a responder: – “Nunca pensei nisso”. Contudo, nesta obra monumental que reúne 22 biografias de figuras marcantes da medicina, nem tudo são exemplos de abnegação pessoal e desinteresse material. Como escreve Manuel Sobrinho Simões no prefácio à presente edição: “Nem sequer é preciso escabichar demasiado as biografias desde Hipócrates, Galeno e Avicena até ao seculo XX, para se perceber que tanto se pode fazer muito bem como muito mal à custa da Medicina. (…) Não é estranho, por tudo isto, que Fernando Namora haja chamado aos médicos, Deuses e Demónios”. A vasta experiência do autor como médico concorre para tornar claros e acessíveis os conteúdos científicos inerentes a um projeto desta natureza; o seu talento de escritor contribui para transformar dados biográficos em fascinantes narrativas de perícia consumada. Caminho

Virginie Despentes

Teoria King Kong

“É daqui que escrevo, enquanto mulher não sedutora, mas ambiciosa, atraída pelo dinheiro que eu própria ganho, atraída pelo poder de fazer e de recusar, atraída pela cidade e não pelo interior, sempre excitada pelas experiências e incapaz de me satisfazer com o relato que me hão-de fazer delas”. Virginie Despentes, escritora e cineasta, publicou o seu primeiro romance Baise-moi (1993), que mais tarde adaptou ao cinema. Tanto o livro como o filme exploram a experiência fundadora da violação (“ao mesmo tempo o que me desfigura e me constitui”) na sua vida e obra. Sobre a violação escreve: “é um programa político preciso: esqueleto do capitalismo, é a representação crua e directa do exercício do poder”. Teoria King Kong opõe à retórica tradicional dominante, um discurso pessoal, iconoclasta e subversivo sobre a violação, a prostituição e a pornografia, “desconstruindo os modos de apropriação do corpo feminino que levam à subordinação social, económica e sexual”. A autora, membro da Academia Goncourt desde 2016, tomou a peito a máxima de Virginia Woolf, segundo a qual: ”O primeiro dever de uma mulher escritora é matar a fada do lar.” Orfeu Negro

Tiago Salazar

O Pirata das Flores

“Uma coisa é certa. Tudo o que se queira de grandioso na vida há-de partir de uma obsessão”. O Pirata das Flores conta, justamente, a história de uma obsessão: António de Freitas, aluno do seminário de Hangra, natural da Ilha das Flores, foge da vida monástica e, em 1810, embarca numa viagem rumo aos mares da China, onde sonha alcançar riqueza. Acompanha-o um jovem que com ele estudava, igualmente sem vocação religiosa, mas com gosto pelas letras e que, “mesmo sem saber ainda se para tanto me ajeitava com mais ou menos mestria”, vai passar a escrito as aventuras daquele que virá a ser “o mais façanhudo dos piratas desta ilha perdida no mar”. Ao longo de inúmeras peripécias, António lança-se no ramo do jogo, “sem descuidar do tráfico de ópio, os raptos e extorsões, a compra e venda de crianças pagãs e os assaltos de circunstância” nos mares e aldeias por onde passava o seu bando. Com O Pirata das Flores, Tiago Salazar consuma a transição de escritor de viagens para romancista de pleno direito. A obra agradará por certo, quer aos que se regozijam com uma boa narrativa repleta de aventuras, quer aos que se enlevam com um exercício de escrita exigente e criativo. Oficina do Livro

John Gray

Filosofia Felina: Os Gatos e o Sentido da Vida

“Os humanos, julgando conseguir conceber o fim da sua vida, acreditam saber mais da morte que outros animais. Mas o que sabem da sua morte vindoura é uma imagem gerada pelo espírito graças à consciência da passagem do tempo. Os gatos, sabendo da vida apenas o que vivem, são imortais mortais que só pensam na morte quando estão prestes a morrer. É fácil perceber porque acabaram por ser venerados.” O filósofo John Gray vive com gatos há muito e disso ficamos apenas a saber nos agradecimentos finais. O livro é composto com exemplos da convivência de outros pensadores ou escritores que observaram os seus felinos (Michel de Montaigne, John Laurence), ou biógrafos de escritores que tiveram gatos por companhia (de Colette, Patricia Highsmith ou Mary Gaitskill). Filosofia Felina vai equilibrando o seu pendor filosófico com histórias ternurentas protagonizadas por estes patudos em grande parte insondáveis. Quando observamos um gato a comer, a dormir ou remetido à sua existência solitária, percebemos que tudo nele é da ordem do tempo presente, do qual não fazem parte a ansiedade ou a depressão. Editorial Presença

Samuel Beckett

Teatro Completo

Samuel Beckett (1906/1989), Prémio Nobel da Literatura em 1969, nasce em Dublin mas abandona a Irlanda no início da década de 1930. Em Paris torna-se secretário e amigo de James Joyce que influencia a sua obra. Entre 1938 e 1953 publica algumas novelas e poemas que não encontram grande recetividade pública, nem reconhecimento crítico. Porém, a estreia, em Paris, da sua primeira obra teatral À Espera de Godot (1953) causa um profundo impacto. Aí se condensam todos os temas recorrentes da sua obra – a obsessão com a passagem do tempo, a morte, o vazio e a futilidade da condição humana – que o estabelecem, desde logo, como um dos expoentes do “teatro do absurdo”. Pela primeira vez em Portugal, é reunida a obra teatral de Samuel Beckett. O presente volume compila todas as suas peças de teatro, incluindo as peças para rádio e televisão, e um argumento para filme, textos que exploram de forma cada vez mais radical os limites da linguagem e da comunicação. Inclui traduções de Miguel Esteves Cardoso, Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo ou Margarida Vale de Gato. Edições 70

João Seixas

Lisboa em Metamorfose

Entre centro e periferia, cosmopolitismo e localismo, desenvolvimento e crise, a cidade de Lisboa teve um posicionamento histórico sempre oscilante. O plano de reconstrução após o terramoto constituiu uma das primeiras manifestações mundiais do Iluminismo, contudo tal não garantiu uma modernização constante da cidade. O metropolitano de Lisboa, por exemplo, será inaugurado com cem anos de atraso em relação ao primeiro, em Londres. Em meados dos anos 1970, perto de um quarto da população da capital vivia sem condições mínimas de conforto e salubridade habitacionais. Após cinco décadas de explosão metropolitana, Lisboa chega agora ao fim de uma década de transição. Embora a metrópole se tenha tornado mais cosmopolita e integrada social e economicamente em múltiplas tendências globais, mantém simultaneamente amplas estruturas de precaridade e desigualdade. Observando o passado e o presente, este ensaio produz uma ampla reflexão sobre a evolução contemporânea da cidade e os múltiplos desafios colocados: uma economia produtiva, social, redistributiva e circular, comunidades coesas e solidárias, habitats e mobilidades acessíveis, qualificados e ecológicos. FFMS

Mia Couto

O Caçador de Elefantes Invisíveis

Um dos ficcionistas mais conhecidos das literaturas de língua portuguesa, Mia Couto nasceu em Moçambique em 1955 e escreve “pelo prazer de desarrumar a língua”. O seu estilo desenvolve-se num permanente processo de contaminação entre prosa e poesia. Inventor de palavras, recorre aos cruzamentos e à mestiçagem de que o idioma português é alvo em Moçambique para captar “o lado menos visível do mundo”, que o fascinava na infância, procurando estabelecer uma relação profunda entre o homem e a terra. O Caçador de Elefantes Invisíveis recolhe sob este título, que é também o de um dos textos antologiados, os contos publicados ao longo dos dois últimos anos na revista Visão. O autor aproveitou a oportunidade para lhes dar uma demão, mais ou menos intensa aqui e ali, reescrevendo estas belas histórias tão diversas e variadas. Tal como Bernardo, um dos personagens destas breves narrativas, também Mia Couto através das suas ficções “recusa estar perante a derradeira versão da realidade.” Caminho

Thibaut Villanova

Os Banquetes de Astérix

Não é preciso ser apreciador de banda desenhada para saber que, em pequeno, Obélix caiu no caldeirão da poção mágica, razão da sua força e apetite descomunais. Esta obra ilustrada com desenhos e fotografias, reúne 40 receitas inspiradas nas viagens dos gauleses mais populares da literatura mundial: Astérix e Obélix. Dividido em quatro partes – Banquetes GaulesesBanquetes dos Povos Vizinhos, Banquetes Romanos e Banquetes das Terras Longínquas – apresenta sugestões irrecusáveis como o suculento javali, o salmão caledónio, o rancho legionário, o caril vegetariano, a compota e os brioches bretões ou a suprema tentação do menir de chocolate. Para além destas magníficas especialidades gastronómicas regionais e internacionais revisitadas à moda da Gália, o livro contém um sugestivo herbário do druída Panoramix que dá a conhecer ao leitor uma assinalável variedade de ervas aromáticas. Divirta-se a preparar e degustar estas receitas, mas com moderação. Imite a coragem dos famosos heróis gauleses, não a gulodice! Asa

Fonte AgendaLX

por Luís Almeida D’Eça

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