O nosso desempenho

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Começámos por ouvir umas notícias que vinham lá do outro lado do mundo. Ainda no ano passado, as notícias davam conta de surto de infeção por um novo vírus. Parecia ser mais uma gripe das aves. Uma coisa que, à maioria de nós, pareceu ser inventada para encher o país de suportes de arame com gel desinfetante, para uma doença que, não só não chegou como deixou os suportes por toda parte, muitos deles ainda com o primeiro frasco que, depois de dar o que tinha a dar, nunca viu chegar o seu substituto.

Depois ameaçaram-nos como uma gripe suína, que afinal era muito menos letal que a própria gripe, e que serviu apenas para deixar pendurados uns atrevidos que entenderam que era a altura para uma espertezazinha e irem passar férias mais baratas a Cancún.

Não foi, portanto, de estranhar que tivéssemos desvalorizado o que se passava e víssemos com muita desconfiança a notícia de um novo surto. Vinha de longe e, mesmo quando começou a aproximar-se, parecia não querer nada connosco. A determinada altura, na União Europeia, só faltávamos nós e os irlandeses. Os da ponta, está visto.

No fim de semana anterior ao encerramento das escolas, já havia infetados e ainda nos cumprimentávamos como se nada fosse, e quando um de nós exitava no cumprimento, logo o outro dizia “deixa lá isso, que não vai ser nada”. Custa-nos muito, e bem, abandonar os cumprimentos com apertos de mão, beijos e abraços.

Numa semana tudo mudou. Os primeiros foram as universidades e politécnicos, logo a meio da semana, numa iniciativa que, no momento, pareceu até algo extemporânea. Na quinta-feira adivinhava-se o fecho das escolas e nas ruas, ao fim do dia, já havia um clima de mudança no buliço da cidade. Na sexta o SNS decide o fecho das escolas e nós percebemos que nesse momento era a sério. Começámos um processo de reclusão mesmo antes de o governo o decretar. Quando ele o fez, com iniciativa do Presidente da República, mas sem fazer birra, sentimos o confirmar de uma decisão previsível.

A partir daí, começámos a esperar os números que nunca foram desanimadores. Porém, logo de início, houve sempre razões para não estarmos satisfeitos com o que estávamos a fazer. Os números eram animadores, mas escondiam sempre qualquer coisa:

– “Já há muito mais gente do que para aí se diz. Não testamos.”

As pessoas foram para casa e controlaram-se.

-“Ai, mas só agora é que começou. Daqui a uma semana é que se vai começar a saber. Tanta gente infetada que, sem saber, anda a disseminar a doença…”

Quando os números de internados pareciam sobre controlo.

– “Mas nos hospitais falta tudo.”

Depois os números de infetados mostravam que íamos no caminho certo.

– “Mas os números não batem certo. A mim, dizem-me que só no hospital do lado há xis, como é possível?”

Já se ajustaram os números das direções regionais de saúde aos dos hospitais, não há grandes diferenças.

– “Ficam doentes, não vão ao hospital, ficam em casa por mais de 14 dias, não testam, se calhar ficam contagiosos por mais tempo e ninguém sabe.”

Dia 8, no Público, Gabriela Gomes, matemática, diz que não vê um pico adiante, que o pico já terá sido. Diz aquilo que nós já íamos sentindo, mas ninguém se atrevia a dizer, sempre, claro, com medo de sermos catalogados de irresponsáveis, tal é o estigma que tanto nos impõem. É sempre assim quando as pessoas fazem o que têm a fazer, mesmo que seja com muito sacrifício, mas o fazem com alguma leveza. É preciso queixume e um ar sofrido para que os esforços sejam levados a sério. É assim com as pessoas, e é, pelos vistos, assim com os povos.

Anthony Bellanger, jornalista, editor internacional da France Inter, escreve um artigo em que justifica “O mistério português face ao covid-19” com três razões todas de natureza mais ou menos geográfica, mas salienta que a disciplina que os portugueses têm mostrado é de facto a pedra de toque para um caminho que os números, e não as nossas impressões, dizem ser bom.

Sabemos bem que isto está longe, muito longe de acabar, de voltarmos ao toque e ao convívio aberto de que tanto gostamos, e que o pico da mortalidade, esse, muito provavelmente ainda não chegou. O planalto que temos pela frente não é um planalto qualquer, é do tipo planalto de Trás-os-Montes, ou mesmo a meseta espanhola se a vacina demora muito. No entanto, devemos sentir-nos bem com o que fizemos até aqui porque isso nos dá alento para nos mantermos afinados. Vai ser dificílimo, vamos ter de sair e comportarmo-nos como se fossemos do frio, mas começámos com boa nota e não nos perdoaríamos se deixássemos cair a bola.

 

Por João Pedro Costa

 

 

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