Escrever num quarto com vista – Literatura na Baía de Cascais  

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“Acabei de chegar, mas acho que encontrei o local perfeito para escrever o meu próximo livro.”  Jonathan Coe  

A vila de Cascais tem vindo a receber alguns dos mais destacados escritores mundiais, por iniciativa da Fundação D. Luís I, através do Programa de Residências Internacionais de Escrita.  

Iniciado em 2018, já acolheu nomes consagrados da literatura internacional, como Olivier Rolin, Michael Cunningham e Jonathan Coe, que acabou de chegar à Cidadela. Organizado no âmbito da acção cultural da Câmara Municipal de Cascais, o programa funciona por convite a autores com prestígio internacional, que, durante dois meses, além de escrever, podem divulgar o seu trabalho em Portugal, através de intercâmbios com agentes culturais portugueses, nomeadamente a participação num jantar quinzenal com convidados (Book Dinner Club), a participação num festival literário fora de Lisboa e a realização de duas Masterclass, uma aberta ao público e outra, exclusiva para estudantes de Escrita de Ficção.  

No final da sua estadia, Olivier Rolin confessou, “[…] já tenho saudades da minha estada em Cascais… ali escrevi quase 150 páginas. Senti-me verdadeiramente em casa; não compreendo, aliás, por que já lá não estou!”, durante a qual escreveu cerca de metade do seu livro “Peregrinação”, recentemente publicado em Portugal, onde homenageia a língua e literatura portuguesas e que foi seleccionado para finalista do conceituado Prémio Goncourt 

Michael Cunningham escreveu: “Cascais salvou o meu próximo livro”, que ainda não foi publicado, mas se aguarda com expectativa.  

Já estão previstas para 2020, as presenças dos romancistas Javier Cercas (Abril a Junho de 2020) e Germano Almeida (Prémio Camões 2018).  

A Bica tem o gosto de publicar os depoimentos de Olivier Rolin e de Michael Cunningham e uma pequena conversa com Jonathan Coe, recém-chegado a Cascais. 

 

“Portugal sempre me acolheu muito bem, desde a tradução do meu segundo livro, há… 30 anos! Mais uma vez, foi assim. TUDO me foi agradável: o mar diante da janela; os barcos e as nuvens; os faróis à noite (sou um pouco marinheiro); a beleza da Cidadela e do hotel que nela se dissimula de um modo tão discreto, tão elegante; a amabilidade, não, mais do que isso, a atenção constante e muito afetuosa dos meus anfitriões, os da Fundação Dom Luís I, bem como os da pousada Pestana Cidadela Cascais; a Língua Portuguesa, na qual ( finalmente!) fiz progressos; a presença na cidade de Lisboa, ao mesmo tempo próxima e distante, no término desse pequeno comboio a bordo do qual por vezes temos a impressão de estar num barco…  

Ah, quase me esquecia: e os charutos do Professor Salvato!
De qualquer forma: já tenho saudades da minha estada em Cascais…  

Ali escrevi quase 150 páginas. Senti-me verdadeiramente em casa; não compreendo, aliás, por que já lá não estou! 

Obrigado, e até breve!

Olivier Rolin 

 

“20 de Outubro de 2019  

Cheguei à residência da Fundação D. Luís em Cascais no início de maio de 2019, com um rascunho de um romance que parecia estar a passar pelo ralo proverbial.  

O livro simplesmente se recusou a encontrar um foco, a ganhar impulso ou a produzir personagens convincentes e complicados. Embora contivesse várias palavras escritas em várias páginas, faltava-lhe quase todos os elementos que um romance requer.  

Isso acontece. Um escritor, mesmo aquele que está envolvido há algum tempo, pode se perder num livro em particular. Essa condição parece surgir do material que acha extraordinariamente difícil, misturado com o puro mistério da própria criatividade, que tem um jeito de ir e vir sem muito aviso prévio.  

Eu estava pensando seriamente em abandonar o livro completamente, depois de quase dois anos de esforço, quando parti para Cascais. Não é exagero dizer que os meus dois meses na residência literalmente resgataram o romance.  

Dois meses de solidão em um país estrangeiro para mim – com tudo o que implica em foco e uma nova perspectiva sobre o próprio mundo – acabaram por ser exatamente o que o romance precisava. Desde que voltei, vejo-me a dizer a amigos que passei o tempo em dois países estrangeiros paralelos: o país de Portugal e o país do romance.  

O romance ainda não está terminado, mas está vivo, depois de quase ter sido entregue à morte. Deverá estar finalizado até o final de dezembro próximo, graças ao presente desses dois meses.  

Na verdade, não posso expressar adequadamente minha gratidão à fundação.

Michael Cunningham 

 

Fotografia : Pousadas of Portugal

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