As cineastas, a pandemia e o financiamento do cinema: à conversa com Catarina Vasconcelos

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Continuamos a conversa com Catarina Vasconcelos, a propósito do seu filme mais recente, “A Metamorfose dos Pássaros”. A cineasta não hesitou em reconhecer que pertence a uma minoria, já que “o cinema português sempre foi um meio dominado por homens”. E ainda continua assim, apesar dos trabalhos de mulheres como Cláudia Varejão, Teresa Villaverde ou Leonor Teles. E nem contamos as equipas técnicas. O que seria do cinema “sem as diretoras de fotografia ou as assistentes de realização”?

Apesar de todos estes percalços, Catarina espera que as coisas possam mudar. Nas suas palavras, “temos realizadoras incríveis a trabalhar em Portugal. Os frutos do seu trabalho foram imensos e eu espero que possam ser ainda maiores”.

Do online para as salas de cinema

A família Vasconcelos viu “A Metamorfose dos Pássaros” pela primeira vez em janeiro. Nos dois meses seguintes, o filme chegou até aos festivais internacionais de cinemas. No entanto, a pandemia do Covid-19 chegou à Europa nessa mesma altura e todos os eventos culturais foram cancelados. Ainda assim, as estreias dos filmes não poderiam parar. Foi nesse contexto que o filme de Catarina “ganhou uma vida online”.

Apesar da internet ter possibilitado que “A Metamorfose” chegasse a cada vez mais pessoas, a cineasta não vê o futuro do cinema em plataformas como Netflix ou HBO. Para a realizadora, “em casa não há o mesmo nível de atenção de uma sala de cinema, nem o espaço tem as condições específicas para exibir um filme”. Para além disso, seria “uma injustiça pedir a uma equipa criadora de uma longa-metragem para apenas o ver num ecrã de 13 polegadas”. Ainda que essas plataformas sejam muito importantes, Catarina afirma que “os filmes devem voltar às salas de cinema”.

Os prémios primeiro e o reconhecimento depois

Nos seis anos que demorou a realizar a sua longa-metragem, Catarina foi encontrando diversas dificuldades. E como não poderia deixar de ser, o financiamento foi uma delas. Embora se sinta “afortunada por ter recebido a aprovação do Instituto do Cinema e do Audiovisual”, a cineasta não poupa nas críticas a essa instituição. Há diversos realizadores “bastante talentosos que não conseguem fazer cinema em Portugal. Tudo isso, porque lhes falta financiamento”. Com a nova lei do cinema, tudo veio piorar. “O cinema português está à beira de uma morte anunciada”, afirma.

Neste projeto-lei, as plataformas de streaming como a Netflix ou a DisneyPlus estão isentas da taxa de subscrição se investirem na produção de obras europeias e lusófonas. Porém, a selecção dos projectos e os montantes investidos são da sua total escolha. O cinema português ficaria assim submetido a uma lógica de mercado, prejudicando os cineastas menos conhecidos. Catarina já vê como “um milagre” o facto de “tantos cineastas farem tantos filmes com tão pouco dinheiro”. Se este projeto-lei passar, o trabalho destes realizadores será impossível.

O próprio reconhecimento também é escasso. Muitos filmes só chegam até ao espectador português “depois de serem reconhecidos lá fora”. Para Catarina, essa atenção deveria vir “antes dos prémios internacionais”. Contudo, todos fazemos o exato oposto. A cineasta teme o pior. Nas suas palavras, “se isto não mudar rapidamente, é possível que não voltemos a ter entrevistas destas tão cedo”.

 

créditos: @ D.R.

Por Pedro Maia Martins

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