Artemar Estoril 2021

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De dois em dois anos, a Artemar Estoril apresenta aos frequentadores do Paredão das praias do concelho uma selecção de artistas que intervêm no espaço público durante o período estival. Este grupo, sempre necessariamente restrito, é convidado a criar uma obra que, de algum modo, relacione as características específicas do local com a compreensão contemporânea da paisagem marinha. Deste modo, articulam, num espaço de passagem e grande afluência de público, obras que têm sabido responder com originalidade e criatividade aos reptos formulados.

A edição de 2021 não é excepção. Desafiámos três artistas muito jovens – Cândido, Hugo Brazão e Lea Managil -, embora já com currículo reconhecido nos meios artísticos nacional e, mesmo, internacional, a responder segundo as suas linguagens próprias ao grande objectivo deste projecto: trazer a arte contemporânea para junto dos utilizadores das belas praias da linha de Cascais. Nenhum deles se mostrou indiferente às características tão peculiares do local. Todos eles convocaram memórias e poéticas próprias, preocupações ambientais e mesmo disciplinas artísticas que só raramente associamos às artes visuais, para criarem trabalhos que irão, decerto, ao encontro do agrado do público. Ora apropriando-se – embora não sem humor – do pressuposto romântico que projectava na paisagem um duplo da realidade, considerando assim a arte como espelho do real e uma máquina de inventar imagens; ora concentrando num ser fantástico e colorido, próximo da ilustração e da banda desenhada, a angústia de um hipotético futuro em que os homens regressarão à condição de animais marinhos de onde vieram; ora, de modo poético, trazendo o vento e a música que ele cria para um momento de simbiose com o marulhar das águas na rebentação, todos os artistas nos convidam a alargar os nossos horizontes, literalmente, sobre tudo o que imaginamos caber dentro da palavra Arte.

Cândido concebeu uma escultura que se desdobra por dois espaços distintos. Em terra, um molde de quatro bidões de 200 litros, que foram colocados dentro de uma cofragem cúbica; o espaço entre estes objectos e as paredes da caixa foi preenchido com betão, sendo que o que vemos actualmente é o enchimento entre estas duas formas, a cilíndrica e a paralelepipédica. Por outro lado, no mar, em frente desta escultura, está o enchimento do centro, que forma uma bóia que balança ao ritmo das ondas e do vento. No fundo, estamos a olhar para duas formas cheias, mas que trazem sempre consigo o vazio que as formou. Esta escultura é por isso uma presença, mas também uma ausência. E, de certo modo, actualiza os princípios de toda a pintura de paisagem: trazer para perto, para dentro de casa ou do museu, a ausência da vista pitoresca distante, e colocar as bases para que a memória dos belos lugares não se apague. Cândido percebe ainda como é importante o jogo entre os cheios e os vazios, os espaços que servem para guardar – o bidão, a cofragem -, e os que aparentemente não têm utilidade. São estes que lhe interessam, aos quais atribui valor. Como atribui também valor ao mar como local de exposição, sendo que esta é a primeira vez, em dez edições de Artemar Estoril, que o elemento líquido é escolhido para a montagem de uma peça.

Hugo Brazão, a partir de uma pesquisa sobre a extensa relação de Cascais com as ciências que estudam o mar e os seres que nele habitam, realizou uma composição em tecido e madeira que representa uma criatura híbrida, misto de ser humano e ser marinho. Do mar viemos todos, como é sabido; e, na nossa própria formação como seres vivos, partimos do elemento aquático, uterino, no qual não precisamos de pulmões, para a vida exterior. Quem sabe o que sucederá, se as águas da Terra, como alguns preveem, subirem consideravelmente? O artista, que vive em Londres, chamou o imaginário da banda desenhada e da ilustração científica para criar a sua peça, que vai ainda buscar à Pop Art a exuberância cromática. Feita em tela, como um patchwork ou uma bandeira de praia, este Homo Branchia é o retrato imaginado de um habitante de um futuro distópico, onde a relação do ser humano com o elemento aquático será forçosamente muito diferente daquilo que é hoje.

Lea Managil, com Sough, criou uma escultura que, embora desprovida de aparato técnico sonoro, traz para o Artemar o som do vento que sopra, combinando-o com a musicalidade da rebentação marinha. Sough, o nome que escolheu para a sua obra, traduz-se dificilmente para a língua portuguesa, já que convoca simultaneamente esta componente sonora da paisagem marinha. A artista associou também a manga de vento, cuja forma e estrutura a sua escultura cita, com o cabeço que esvoaça ao vento. Wind in my hair, as palavras que imprimiu na manga plástica, só são compreensíveis num segundo grau. A associação é visual e formal; mas a interpretação é sempre poética, e apoia-se não apenas na experiência pessoal, mas também na literatura, na música e no cinema.

 

 

Luísa Soares de Oliveira

Fonte: http://fundacaodomluis.com/

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