Antes de o tempo nos mudar

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Durante o concerto da Patti Smith ocorreu-me que éramos somente miúdos quando o Cabral caiu inanimado na Rua da Rosa. Já passaram quase sete anos, se não me falha a memória, embora a medida do tempo se relativize com o avançar dos dias. Talvez tenha sido há menos tempo, já nem sei. Apesar de as vozes que vamos ouvindo confessionalmente e que nos vão desarmando ao longo dos anos disso nos darem conta, vozes que não nos permitem esquecer o passado e os seus segredos, não deixa de ser estranho notar a idade a avançar nos rostos diários. Agora que a beleza juvenil da Patti Smith se extinguiu por completo, sobram apenas aqueles longos cabelos brancos e desgrenhados que lhe desenham a face terna e agressiva ao mesmo tempo, bem como o seu paternalismo maternal, tão necessário nos tempos presentes. E como cuspia obsessivamente para o palco, a xamã do punk, cravando-o de punhais de saliva. Também o Cabral era um tipo obsessivo, como a maioria das pessoas de quem gosto genuinamente. Uma das suas principais obsessões eram os The National, hoje transformados numa banda de rock delicodoce, o que certamente não o teria demovido de continuar a idolatrá-los, porque se estava sinceramente a cagar para o que poderiam pensar dele. Não queria saber. Saberá ele que eles lhe dedicaram uma música num concerto no Meo Arena, a sua música preferida — a Mr. November —, não muito tempo depois de ter falecido?

Depois do excelente concerto dos New Order, em que possivelmente verti umas lágrimas quando tocaram a Ceremony dos Joy Division, e em que o Cabral não deixaria de ensaiar comigo a dança epiléptica do Ian Curtis, também o concerto da Patti Smith foi extraordinário, onde nos foi permitido ouvir que somos livres para fazer aquilo que que- remos, e nos foi permitido sentir, com uma leveza diferente, a liberdade que temos sabe-se lá por mais quanto tempo. E o Cabral era dos tipos mais livres que conheci. Livre e completamente imprevisível. Como quando nos contava, entre risos, se me recordo correctamente, que, numas eleições para a associação académica, tinha sido o único a quem todas as juventudes partidárias haviam oferecido dinheiro e ele decidira aceitar o dinheiro de todas, ou quando o encontrei no Bairro Alto, junto à tasca do Sr. Jaime, a fazer um concurso de socos na barriga com um tipo qualquer — e que murro disferiu na barriga daquele pobre tipo.

Creio que a melhor música do concerto da Patti Smith foi a Beneath The Southern Cross, na qual se pôde ouvir «Oh», «Ser», «Não qualquer um», «Foi-se», «Esse labirinto de ser», «Pele», «Oh», «Chorar», «Não qualquer choro», «Tão triste que» «A pomba apenas ri», «Os firmes suspiros», com a penumbra como fundo a recortar o palco e o anfiteatro natural do Paredes de Coura. Lembrei-me de quando recebi um telefonema do Porfírio — «Jorge, o Cabral morreu», ouvi uma voz tremeluzente do outro lado afirmar —, sem que conseguisse alcançar a piada, não podia ser uma piada, eram palavras que não faziam sentido e que ainda hoje são difíceis de engolir. Recordo-me igualmente de estar à porta do Hospital de S. José com amigos que modelaram a minha forma de ver a vida e de compreender o mundo e de me compreender a mim próprio e que agora parecem longínquos, como estranhos, vultos no horizonte, amigos que desapareceram da minha vida de uma forma não muito menos dramática, mesmo que o não saibam, do que aquela que tolheu o Cabral. Todos tínhamos uma réstia de esperança, podia ler-se nos olhos perturbados e no andar alvoraçado daqueles que lá foram, de que tudo aquilo não passasse de uma piada de mau gosto de Deus ou do próprio Cabral, mas sei hoje que era simplesmente a expressão de um desejo, tão típico dos homens que repetidamente confundem aquilo que é com aquilo que acham que deve ser ou que querem que seja. Quantas vezes não acreditamos nós, mesmo depois de perdida a infância, que se desejarmos muito uma coisa, ou se pedirmos muito essa coisa a uma qualquer entidade divina, talvez o desejo ou o pedido se realize misticamente como num passe de mágica, ainda que saibamos perfeitamente que não passamos de pó estelar, que somos fruto de um mero acaso cósmico? Talvez o Cabral tenha ido dar um passeio até ao lado selvagem, como as personagens da música do Lou Reed cantada pela Patti Smith. Ou talvez tenha ficado preso nalgum país exótico em virtude de uma história mirabolante e épica, como quase todas as histórias em que se envolvia eram, e este- ja impedido de voltar a Portugal, da mesma forma que o Freddie Gibbs não conseguiu vir ao Paredes de Coura em 2016, porque terá sido preso nos Estados Unidos — estes são os tempos em que há mosh em concertos de hip hop, o que poderia muito bem ser uma proposição saída da boca do Cabral em face de um concerto que valeu pela comédia, e como se teria rido o Cabral do Madlib de peruca loura na cabeça. Ele teria feito o mesmo e como teria rido de si próprio, conforme se riu daquela vez em que se meteu com o Ninja, que lhe mandou dois rotativos a rasar a cara, ao que respondeu que «isso é merda, andei no râguebi, dou-te duas cabeçadas e parto-te todo» e acabou de rabo sentado no chão, e dizia-me no dia seguinte, entre risos, que não fazia ideia de onde tinha vindo aquilo, porque nem sequer tinha andado no râguebi.

Não me lembro da última frase que lhe possa ter dirigido, ou do último gesto de amizade, um abraço, uma mão no ombro ou um simples aperto de mão que possamos ter trocado. Mas julgo ter sido ao som dos Suede que dancei pela última vez com o Cabral. Estávamos no Primavera Sound, no Porto, e o Cabral chateou-se com toda gente sem razão aparente e disse que ia fazer o festival dele e nós que fizéssemos o nosso; ligou-me uns minutos depois a perguntar onde raio estávamos, e juntou-se a nós a meio do concerto e dançámos e saltámos abraçados. Era impulsivo e complacente, alegre, displicente, intuitivo e nada pretensioso, como uma criança de bom coração. Até a sua auto-comiseração não era professoral e trágica como a minha, mas somente caricata. Passaram cerca de sete anos desde esse concerto e o Brett Anderson parece agora estar mais novo, parece ter regredido até aos vinte anos. Começou o concerto por um dos novos temas, em que cantou «aqui estou eu, a falar com a minha própria sombra», e continuou como se estivesse ligado à corrente ou enfeitiçado, dos seus olhos eram projectadas faíscas e corria lunaticamente, ajoelhava-se, rastejava teatralmente, deixava cair-se novamente sobre o palco, saltava, batia no peito palpitante, cantando emocionalmente e suando em bica aquela camisa azul que me pareceu de seda. Quero muito vestir-me assim. Estendeu-se no chão a recitar poesia, com a cara junto ao palco humedecido pelo cuspo da Patti, junto à cabeça do microfone solto que cintilava.

Cheirava a Verão, a floresta, a rio e a sexo. Lembro-me de pensar em vender o carro, deixar o emprego e fazer-me à estrada com a Rita. Nesta altura estava já muito próximo das grades, aos saltos, após ter sido puxado e levado por entre a multidão pela Joana, que, de olhos bem abertos e órbitas palpitantes, se queixava de que na zona em que estávamos ninguém se estava a divertir, estavam todos parados. E esse era um pecado capital, algo impossível de acontecer se o Cabral tivesse tido a oportunidade de ali estar, como certa- mente teria estado. Quando o Brett Anderson cantou a Beautiful Ones posso jurar que não restava um milímetro sequer da sua camisa livre da transpiração que o seu corpo, que fumegava, havia secretado e destilado por todos os seus pequenos poros. Bem lá no alto, fitava sedentamente o anfiteatro enquanto apontava o microfone para o público, como se nos estivesse a agarrar a todos com as duas mãos, como se todos estivéssemos deitados numa enorme cama a partilhar segredos, a denegrir e a depreciar tudo o resto, todos os restantes, como se nada mais interessasse naquele momento. Podia ter sido mais uma noite com o Cabral, a última noite até. Havia uma centelha que o puxava tanto para a emoção quanto para a destruição, daquelas que costumam tocar as estrelas, e talvez tenha sido isso que o derrubou. Mas que culpa tinha ele? Que fez ele senão viver compulsivamente? Tal como a Patti Smith canta, porventura também o Cabral terá morrido pelo pecado de outra pessoa qualquer, por mero e sádico engano, ou pelo menos é a melhor explicação que encontro para o sucedido. Não estamos sozinhos, porém. E isso é o mais importante, é o que nos permite avançar. E quem disse, conforme nos demonstrou quer o Brett Anderson quer o Cabral, que é preciso ser punk para ter atitude?

Depois de o Brett Anderson chamar a si toda a energia disponível no universo, a treva desceu à terra e abateu-se sobre nós. E choveu copiosamente. Tal como chegaram os dias seguintes, vazios e penosos após a morte do Cabral, ainda que o esquecimento não acelerasse conforme tantas vezes por isso rogamos, também o dia seguinte ao festival chegou. Tudo o que deixo escrito parece-me agora algo venial e até ingénuo, como todos aqueles miúdos de óculos escuros a pavonearem-se em barcos insufláveis pelo Rio Coura, estendidos na relva a dourar a pele ao sol, abraçados e aos beijos, semi-despidos, felizes, inocuamente felizes. Ao pensar em to- dos aqueles miúdos, vejo-me profundamente transformado, algo que na adolescência me parecia uma impossibilidade lógica, embora não julgue paternalisticamente a pessoa que fui, senão de modo benevolente, e penso com curiosidade no homem em que me tornarei daqui a uns anos. E questiono-me sobre como seria o Cabral hoje. Noutros tempos, depois de futuros secretários de estado lhe dizerem em pleno urinol que era um tipo com potencial, era capaz de responder-lhes, indignado, a partir para a porrada, «Potencial? Eu como gajos como tu ao pequeno almoço!». E hoje, como seria o Cabral hoje?

A manhã chegou finalmente, coberta de orvalho, e deixámos Paredes de Coura de carro, por aquelas estradas intrincadas e lentas, com a neblina a engolir e a castigar o verde das árvores, que se mostravam tristes por não poderem mostrar-se aos viajantes. A serra, nervosa e em movimento, erguia-se até às nuvens para se queixar a Deus. Só a música não parou de tocar.

 

Por Jorge M. S. Sampaio

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