Amália – Editorial 13

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«O fado nasceu, para mim, naquilo que o José Régio escreveu, no “Fado Português”. Ele está certo. Acredito naquilo como se fosse, sei lá, a verdade absoluta. “O fado nasceu um dia quando o vento mal bulia, e o céu o mar prolongava, na amurada dum veleiro, no peito dum marinheiro, que estando triste cantava”. Foi muito tempo de dor e de desconhecimento, de medo e de angústia, e tudo isso levou à tristeza, a esta coisa que o fado tem. Por alguma razão, para cantar o fado, é preciso tê-lo cá dentro. Por alguma razão há pessoas que falam português por minha causa.»
 
Amália Rodrigues
 
Comecei a ouvir Amália muito novo. Tão novo que a primeira lembrança musical que me vem à memória, é dos fados de Frederico Valério, a que Alfredo Marceneiro, em tom crítico, chamava canções, e que, talvez por isso, como viria a perceber mais tarde, se transformaram nos seus maiores êxitos: “Só à Noitinha”, “Ai Mouraria”, “Maria da Cruz”, “Fado Malhoa”… Noites e noites a fio, fui embalado pela voz de Amália, sem me dar conta da dimensão do privilégio.
 
Por essa altura, ainda não sabia o que era o Fado, nem quem era Amália. Isso viria algum tempo depois, com a descoberta de “Busto”, um dos vinis que marcariam a minha vida. “Estranha Forma de Vida”, “Povo Que Lavas No Rio” e “Abandono” tornaram-se de audição diária obrigatória, disputando lugar a “Chega de Saudade” de João Gilberto, “O Bêbado e o Equilibrista” de Elis Regina, “Amsterdam” de Brel, “Chelsea Hotel #2” de Cohen, ou mesmo, à canção que mais ouvia nessa época, “Sad Eyed Lady of The Lowlands” de Dylan. Com “Busto”, Amália entrava no restrito mundo dos meus ídolos musicais.
 
Aos 16 anos, assisti à sua segunda apresentação individual em Portugal, no Coliseu dos Recreios, (a primeira tinha ocorrido, pasme-se, apenas dois anos antes, em 1985), e tudo se tornou mais claro. Afinal, Portugal tinha mesmo o seu milagre e esse milagre tinha nome – Amália.
 
A voz não tinha a limpidez que me habituara a ouvir em “Busto” ou em “Fado Português”, mas a entrega, a dádiva, eram as mesmas. Paramentada de negro, “sozinha em palco, braços abertos, como se crucificada em lágrimas”, como a descreveu, por essa altura, Baptista Bastos, Amália, o nosso milagre, arrebatou um Coliseu que não acreditava em milagres. Se dúvidas restassem, a ovação de pé, de quase dez minutos (10 min!!!!!!), que se seguiu a “Povo Que Lavas no Rio”, dissipou-as.
 
“Há 47 anos que ando a dizer a mesma coisa: Graças a Deus vocês gostam de mim e eu gosto de vocês.”, agradeceria, emocionada. O mais céptico dos seus públicos, o português, estava conquistado.
Depois dessa noite, mergulhei, a fundo, no meio do Fado. Por alguns anos, percorri casas de fado, ouvi diversos fadistas, li, conversei, discuti, para, finalmente entender que o fado era uma coisa, Amália outra. Cruzavam-se, obviamente, mas, pese embora, nunca, ninguém como ela, lhe ter entregue uma dimensão mundial, até então, dificilmente imaginável, o Fado não era só Amália, nem Amália era apenas Fado.
 
Durante esses anos, encontrei a mesma inteireza, a mesma verdade, a mesma “alma”, em dezenas de outros fadistas e, por diversas vezes, lhes preferi as interpretações, sobretudo no Fado Tradicional.
Então, onde residia a grandeza de Amália? A sua genialidade? Muito mais do que na inteligência com que soube rodear-se de grandes instrumentistas, compositores e letristas e com que soube escolher o seu reportório, cantando os grandes poetas portugueses, muito mais do que na sua incomparável voz e na “vibrante e profunda inteligência com que interpretava o que interpretava”, para citar David Mourão-Ferreira, a sua genialidade residia no profundo conhecimento do nosso âmago. Como tão bem definiu Virgílio Ferreira: “Amália conhece o rasgo, a qualidade distinta do que fala em nós de raça, de povo, de obscuro e de elementar.
 
Por mais que a cultura e o bom tom nos reprimam essa voz, ela não morre dentro; e basta que uma Amália a vibre em qualidade para nela nos reconhecermos (…). Por sobre tudo o que acumulámos de sublimação, há o que ficou em nós do que nos moldou o sentir. Amália revela-nos isso mesmo. E no segredo de nós, nisso mesmo nos reconhecemos. (…) Dêem-se-lhes as voltas que se quiserem, o lastro de nós próprios, o nosso ser fundamental de Portugueses está ali. Amália é a grande cantora do português fundamental.”
 
João Moreira

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