Artigo

(Ainda) O Desconforto Moderno

“(Ainda) O Desconforto Moderno” – Exposição temporária
Miguel Palma
Museu Coleção Berardo, Lisboa
19 de setembro 2019  a 19 de janeiro de 2020
Piso: -1
Curadoria: Miguel von Hafe Pérez

 

Referência incontornável da arte portuguesa na transição para o século XXI, Miguel Palma é um artista que se apropria das narrativas de uma modernidade em permanente questionamento para melhor refletir sobre o presente.

O fascínio de Miguel Palma por ícones da modernidade clássica é evidente: o mundo da aviação, o automóvel, a arquitetura, a natureza (mais ou menos domesticada) e a tecnologia em geral. Porém, aqui, estes elementos são continuamente sujeitos a uma migração conceptual, reclamando a intervenção do artista uma densificação hermenêutica vital. A apropriação de maquetas, por exemplo, aproxima-os de uma realidade em segundo grau — a maqueta indica precisamente a existência de uma outra entidade noutra escala; mas as situações em que aquelas se apresentam são situações suspensivas do real, como se o excesso de realidade dos objetos entrasse em curto-circuito em função de um jogo derrisório que torna o real vertiginosamente polissémico e poético. A criatividade do artista desdobra-se numa pulsão construtiva que convoca e problematiza conceitos como o progresso, a degenerescência, a velocidade e o fracasso.

A exposição apresenta uma importante seleção antológica do trabalho de Miguel Palma que cobre um arco cronológico de trinta anos e transita entre os mais diversos meios, como a escultura, o vídeo, a instalação, o desenho e a performance. Além de obras de escala monumental nunca antes apresentadas em Portugal, como é o caso de “Cinq temps” (2016), produzida para o MuCEM, em Marselha, o artista criou a “Montanha” (2019), uma peça especialmente concebida para o espaço do Museu Coleção Berardo.

Aquilo que Miguel Palma nos propõe em forma de obras de arte são considerações de uma espessura existencial absolutamente única. A sua curiosidade e o modo como articula diferentes horizontes do saber sublinham a capacidade de nos reinventarmos, dissimulando a inexorável lei maior, que é a da vitória do tempo sobre a finitude humana. Enquanto dispositivos potenciadores de um olhar crítico sobre o nosso passado recente e o nosso presente, os enunciados de Miguel Palma confrontam-nos com as tensões vividas no frágil equilíbrio da nossa existência. Tal como liminarmente nos diz o artista: «Se o mundo fosse confortável, eu não fazia arte.»

 

Imagem de capa:
Miguel Palma, Desenho técnico do topo da montanha, 2019. Exposição “(Ainda) O Desconforto Moderno”.
 

Fonte: Museu Coleção Berardo

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