A vida a continuar em Rede e com Rímel

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Um presidente da Câmara de uma cidade Italiana, de cabeça perdida, apelava às senhoras que parassem de receber o cabeleireiro em casa, dizia ele “quem é que vos vai ver?!?”.  Patetas inconscientes, mas acho graça. Tem razão, esses cuidados em que outros precisam de entrar no casulo são extremamente perigosos e para ser mantidos de lado, mas nada impede de fazermos por nós porque a beleza também representa esperança e essa não podemos por de parte.

No livro A Espuma dos Dias, de Boris Vian, à medida que a doença avança pelos pulmões também a casa fica pequena, escura e com mofo. A saúde degradava-se, com a tristeza ia-se a beleza da casa em tempos tão bonita, ia-se a dignidade.

O belo faz-nos acreditar que tudo vai ser como dantes, que vale a pena, porque a doença essa não queremos sequer admitir que nos vai bater à porta com a força de uma bala. É por acreditar que vai continuar tudo como sempre que nos mantemos dentro de casa, é por isso que sentimos que fazemos alguma coisa de valioso no isolamento. Nós que estamos fechados em casa não somos grandiosos, estamos só a tentar preservar o que temos. Daí que os insultos aos outros também não servem de muito porque cada um lá sabe o que tem para salvar.

Em plena guerra da Bósnia, um (nada) simples concurso de beleza, numa cidade cercada, tornou-se um símbolo de resistência. No meio de tanta destruição e sofrimento, eis que surge um palco de mulheres esplendorosas, cabelos loiros e olhos claros, fertilidade e alguma abençoada futilidade. Havia Miss Sarajevo, havia vida.

É verdade que agora é a vez dos médicos e cientistas, mas não precisamos esconder que continuamos a gostar e a precisar que uma parte dos dias tenha outras ilustrações que não o medo e a incerteza. As paisagens, os gatinhos estuporados, os bebés, as mulheres e os homens que se querem mostrar. Mais do que nunca precisamos de distrações para que não custe tanto imaginar que vai passar. Não precisamos de fazer que somos peritos em estatística ou virologistas. Não somos.

E de como o mundo vai ultrapassar esta terrível crise económica tão traiçoeira como o vírus? No meu incurável otimismo — só uma vez na vida pus as mãos à cabeça, mas o meu melhor amigo estava a poucos dias de morrer após quatro anos de tratamentos — vai ser duro, mas os prédios e as infraestruturas estão intactas. Há países e pessoas a sofrer muito mais e há muito mais tempo. Estamos todos, mesmo todos, no mesmo barco, sem furos e o pânico não nos serve de nada.

Online e resguardados, mas falem, mostrem-se sem vergonha, somos só pessoas a tentar gerir a nossa vida da melhor maneira. Não tem mal ganhar dinheiro. Tal como não tem mal tentar manter os negócios de pé e talvez seja altura de pedir ajuda a quem sabe. A culpa do que estamos a viver não é de ninguém, por isso podemos continuar a existir tal como fazíamos antes. O mais que pode acontecer é não sermos tão relevantes. Mas nas fotografias de família, no pão acabado de sair do forno, nas nossas tiradas mais ou menos felizes,  os amigos vão sabendo que estamos bem. E isso é uma boa notícia.

Por Marta Gonzaga

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