Artigo

Lisboa dos Refugiados – Itinerários Culturais

A 27 de janeiro, assinala-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, data decretada pela ONU por ser o dia em que, perto do fim da Segunda Guerra Mundial, foram libertados os prisioneiros do campo de concentração e extermínio nazi de Auschwitz-Birkenau.

Lisboa recorda a data, associando-se ao Programa Nacional “Nunca Esquecer”, que visa assinalar e preservar a Memória do Holocausto por todo o país, e homenagear as vítimas e os salvadores portugueses.

Munido do mapa, siga e (oiça) aqui os passos de muitos dos refugiados que passaram por Lisboa durante a II Guerra Mundial.

Reprodutor de áudio

Com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, a Europa mergulha num ambiente de destruição, perseguição e morte. À medida que a Alemanha Nazi avança, vai empurrando milhares de refugiados das zonas ocupadas, entre eles, intelectuais, opositores do regime nazi, socialistas, comunistas e sobretudo, judeus. O drama humano intensifica-se com a chegada dos alemães a Paris a 14 de Junho de 1940, provocando a deslocação da população para Sul, para a cidade de Bordéus, que fica de repente cheia de gente desesperada que deixou tudo para trás e, à frente, tem um futuro incerto. Para muitos deles, a sorte surgiu pela mão de um cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, cuja coragem e a humanidade, o levaram a passar milhares de vistos de entrada em Portugal, mesmo contra as ordens recebidas de Salazar. Esta ação heroica do cônsul português, vai permitir a cerca de 30.000 refugiados a entrada em Portugal, um país neutro e uma porta de saída para a liberdade. Nessa altura, em 1940, Portugal festejava orgulhosamente os seus 800 anos de história. Lisboa era então o único porto livre da Europa no Atlântico Norte, onde diariamente chegavam milhares de refugiados, muitos deles reencaminhados para estâncias balneares e termais, ou outras cidades que os pudessem receber. Lisboa já era demasiado pequena para tanta gente.

A – Estação do Rossio

A maior parte dos refugiados chegava a Lisboa de comboio, à Estação central do Rossio. Muitos destes comboios vinham selados. A Estação do Rossio tinha uma passagem secreta para o Hotel Avenida Palace na Rua 1º de Dezembro, que servia para aqueles que queriam chegar de forma incógnita e sem o controlo policial. Eram os mais abastados e sobretudo aqueles que chegavam com missões de espionagem de ambos os lados do conflito.

B – Pastelaria Suíça e Café Chave d’Ouro, 32 (Praça D. Pedro IV)

As ruas e praças da cidade enchem-se de refugiados. A Pastelaria Suíça torna-se o primeiro estabelecimento a ter as famosas esplanadas, já que o interior era insuficiente para tanta gente. Nessas esplanadas, sentavam-se os homens e também as mulheres estrangeiras com hábitos diferentes, descontraídas e a fumar, o que para os portugueses era extremamente escandaloso.

No Café Chave d’Ouro negociavam-se bilhetes de embarque, depois de obtidos os vistos de saída, alguns pagos pela organização de apoio aos refugiados, o HICEN. Os refugiados vendiam o que tinham, as joias, os carros, os seus pertences. Eram peças de um jogo de influências e de muita corrupção.

C – Sucursal do Diário de Notícias (Praça D. Pedro IV na esquina da Praça com a Rua do Ouro)

As últimas notícias sobre os acontecimentos políticos e militares eram afixadas nas montras das agências dos grandes jornais. À frente dessas montras e a horas certas, juntavam-se multidões interessadas em saber sobre os avanços e recuos da guerra.

D – Loja das Meias (Praça D. Pedro IV, 3)

Com esta grande vaga de refugiados, Lisboa passa a estar atenta à moda. A Loja das Meias era a loja favorita das estrangeiras mais endinheiradas. Já não era necessário ir buscar os vestidos da moda a Paris, por Lisboa desfilavam verdadeiros modelos. As mulheres estrangeiras trouxeram novos hábitos à cidade. Apesar de bastante criticadas pelas lisboetas, exerciam sobre estas um fascínio que as levou a adotar uma forma de estar mais descontraída e a ocupar o espaço público sem a companhia dos maridos, pais ou irmãos.

E – Hotel Frankfurt (Rua de Santa Justa nº 70)

Os hotéis, pensões ou casas particulares, ficaram a abarrotar de gente que procurava um teto para dormir. Quando as camas faltavam estendiam-se colchões nos corredores ou onde fosse possível. Um dos melhores hotéis era o Hotel Avis na Avenida Fontes Pereira de Melo, numa altura em que a cidade crescia timidamente para Norte com as avenidas novas. Todos praticavam preços acima dos 140 escudos por noite, mas o Hotel Avis cobrava 500 escudos. Não era para todos os bolsos mas sim para quem podia, como o General Eisenhower, Calouste Gulbenkian ou até alguns espiões.

F – JOINT (Rua do Ouro, 242)

JOINT, American Jewish Committee, era uma das várias associações de ajuda aos refugiados da Grande Guerra. Estas organizações estabeleceram-se em Portugal pela neutralidade do país e pela sua localização geográfica privilegiada. Foram extremamente importantes na ajuda para obtenção de vistos e apoio financeiro. Eram eles que negociavam junto das autoridades portuguesas a saída ou a libertação de alguns refugiados, apoio médico, bem como o aumento da cota de entrada em Portugal.

G – Pan América (Rua Augusta nº 40)

Lisboa era a única cidade que assegurava ligações mais ou menos regulares com as Américas e África. Para aqui chegar era necessário obter um visto de trânsito português, o que tornava possível a obtenção de um visto de saída francês e um visto de trânsito espanhol. Portugal estava estrategicamente posicionado para permitir a fuga de uma Europa em guerra e chegar a destinos onde a paz ainda imperava. Um dos meios de chegada e partida eram os famosos clippers, os hidroaviões que amaravam no Tejo em Cabo Ruivo, na chamada Doca dos Olivais, pertencentes à companhia de aviação Pan América. Foi um destes hidroaviões que transportou a famosa atriz Lilian Harvey que, não sendo judia, se viu obrigada a sair da Alemanha por ter ajudado um amigo homossexual.

H – Posta-Restante (arcadas poentes da Praça do Comércio)

A Posta-Restante, os correios, era um dos lugares mais procurado pelos refugiados que diariamente buscavam notícias dos seus familiares ou de uma boia de salvação para o outro lado do Atlântico.

Portugal apresentava-se para a maioria dos refugiados como um paraíso que Saint Exupéry, também ele de passagem por Lisboa, qualificou de “paraíso triste”. Ficou na memória dos refugiados a hospitalidade, a generosidade e a ausência de sentimentos anti-semitas. Ao saírem da barra do Tejo, a luz brilhante da Exposição do Mundo Português era a última imagem de uma Europa mergulhada na tristeza.

foto Embarque de refugiados num cais de Lisboa, década de 1940
Foto: Armando Maia Serôdio / Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico

Fonte Agendalx

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