Uma bola de pêlo – Makassar

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Uma bola de pêlo felpuda. Ao longe é só isso que se vê. Quando nos aproximamos o restante ganha forma. Quatro patas, um focinho que parece nunca parar de sorrir, uma língua caída para o lado e uma cauda que alegremente serve de leque àqueles que se encontram nas imediações. Colocamo-nos de cócoras com os braços abertos e eis que se inicia a banda sonora composta por sons inexplicáveis acompanhados de expressões como ‘ai que pequerrucho’, ‘quem é lindo’ e ‘nunca vi algo tão fofo’. Como moeda de troca recebemos uma barriga virada para cima pronta a ser acariciada. Não podia ficar melhor que isto.

Durante a viagem este processo repete-se inúmeras vezes. Não, não é obra do acaso. O processo em si repete-se porque não só quando viajamos, mas especialmente quando o fazemos, sentimos uma vontade inexplicável e incessante de procurar o carinho canino. Fazemos desvios, mantemos olhares atentos, paramos abruptamente a mota e até pedimos que alguém se cale porque nos pareceu ouvir um latido. Quando a dúvida se transforma em certeza e identificamos um patudo para mimar invade-nos uma sensação de estranha realização e bem-estar. Num instante, sem controlo aparente sobre os nossos movimentos, damos por nós de cócoras, ou até sentados no chão, prontos a iniciar uma troca de carícias que se estenderá no tempo.

Porque será que tal acontece? Porque será que somos subconscientemente guiados a acariciar patudos que muitas vezes ainda nem sequer sabemos existir? Que fazem apenas parte de uma construção mental daquilo que gostaríamos que fosse verdade quando dobrássemos a próxima esquina? Poderá haver muitas explicações, umas mais simples e outras mais complexas. Para mim, uma delas é que quando a meio de uma viagem largamos tudo para acariciar um pequeno cachorro, situamo-nos simultaneamente entre o passado e o futuro. Projetamo-nos numa realidade em que a saudade do passado e a expectativa do que nos reserva o futuro andam de mãos dadas com os dedos entrelaçados entre si. A partir do momento em que nos pomos de cócoras conjugam-se na nossa mente imagens que até ao momento nunca antes haviam coexistido entre si. Ainda assim, de forma inexplicável, tais imagens encadeiam-se numa sequência harmoniosa de acontecimentos que nos inundam de calor e felicidade.

As primeiras imagens que surgem são as de momentos bem passados numa das muitas tardes solarengas no jardim de casa dos nossos pais. A correr de um lado para o outro estão a Helga, o Óscar, a Bé, o Peanut e a Dora. Uns rebolam na relva seca enquanto outros correm atrás de bolas ou de quaisquer objetos que sejam arremessados para longe. A Bé lambe-nos a ponta dos dedos dos pés em jeito de aviso que está pronta para receber a sua dose diária de mimo. Como se isso fosse necessário. As saudades de casa tomam conta do nosso cérebro, as memórias de alegres tardes passadas com aqueles de quem mais gostamos desencadeiam o surgimento de uma lágrima no canto do olho.

Em simultâneo, assim que docilmente começamos a coçar o queixo da pequena bola de pêlo responsável pelo saudosismo que nos invadiu, deparamo-nos também com imagens de um futuro. Um futuro há muito projetado e desejado. Estamos no final do dia. O sol já se pôs e apenas resta a luz alaranjada que se manteve agarrada às poucas nuvens que resistiram ao entardecer. Damos por nós na nossa sala e do vinil saem os melódicos acordes de não há estrelas no céu acompanhados da inconfundível voz do Rui Veloso. No sofá, junto a nós, um pequeno patudo que ainda não conhecemos, mas que agora sabemos que irá fazer parte da nossa vida, resta descansadamente. Chamemos-lhe Sal. O Sal está no sofá de olhos fechados e a sua respiração profunda simboliza o cansaço daquele que foi um dia bem passado na praia. Aí, para além de se ter tornado campeão de buracos na areia teve ainda direito ao seu primeiro mergulho no oceano. É ali que queríamos estar neste momento, num futuro que sabemos está reservado para nós. Para nós e para o Sal.

É na conjugação entre as memórias de um passado feliz e das saudades de casa, por um lado, e a vontade de aí regressar para nos encontrarmos com o risonho futuro que nos aguarda e que desejamos viver, por outro, que está a magia de mimar uma pequena bola de pêlo. E é precisamente por isso que não deixamos de as procurar incessantemente durante as nossas viagens.

E quanto ao prazer inegável que é ver uma barriga virada para cima e poder acariciá-la com todo o amor que temos para dar enquanto viajamos pelo mundo? O bem-estar que sentimos quando vemos uma língua pender para um dos lados da boca enquanto uma cauda abana descontroladamente, refrescando-nos do calor da Indonésia? Isso é apenas a cereja no topo do bolo.

 

Por João Barros

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