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Perve Galeria e Casa da Liberdade – Mário Cesariny abrem portas para a visão única de Renée Gagnon, que transforma resíduos em arte e dá voz aos espaços marginalizados

Perve Galeria e Casa da Liberdade – Mário Cesariny abrem portas para a visão única de Renée Gagnon, que transforma resíduos em arte e dá voz aos espaços marginalizados

A Casa da Liberdade – Mário Cesariny e a Perve Galeria inauguram, no próximo dia 17 de dezembro, a exposição “Obstinada.mente”, uma mostra antológica da artista canadiana Renée Gagnon (n. 1942). A exposição estará patente até 18 de janeiro de 2025, apresentando uma seleção das suas obras mais significativas, que abrangem a fotografia, a pintura e a serigrafia, e que, ao longo das décadas, exploraram questões como a transformação de resíduos industriais e a reinterpretação de paisagens e patrimónios culturais.

A exposição destaca algumas das suas séries mais emblemáticas, com especial ênfase nas fotografias e pinturas inspiradas pelos Musseques de Luanda, um dos marcos centrais da sua produção artística.

De 1972 a 1974, Gagnon residiu em Luanda, Angola, onde a sua atividade artística se cruzou com o seu grande interesse por estudos sócio-antropológicos. Durante este período passou a documentar as práticas de reaproveitamento de materiais descartados pelos habitantes dos Musseques (bairros de lata), que transformavam tonéis de vinho, chapas de metal, plásticos e outros resíduos em materiais para a construção de casas e paliçadas. Este processo de construção, que une funcionalidade e arte, ocupa um lugar central na obra de Gagnon e representa uma adaptação criativa às condições de urbanização precária.

Apoiada por uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian em 1975, regressou a Angola em plena guerra civil, tendo registado esses momentos de transformação e resiliência ao criar um conjunto de obras que combinam fotografia e pintura, com um tratamento inovador das cores e formas. O trabalho de Gagnon oferece uma visão artística e académica da dinâmica desses espaços marginalizados, sublinhando os obstáculos enfrentados pelas suas comunidades e a criatividade que emerge da necessidade de adaptação.

Nascida em Montreal, no Canadá, Renée Gagnon iniciou os seus estudos em Pintura na Escola de Belas-Artes de Montreal, antes de prosseguir a sua formação na Escola do Louvre e na Grande Chaumière, em Paris. Em 1970, a artista mudou-se para Lisboa, onde se aprofundou no domínio da serigrafia, criando obras de grande formato que, com o tempo, se tornaram uma das suas marcas distintivas, misturando métodos tradicionais e experimentais para explorar temas de identidade, estruturas sociais e ambientes urbanos.

Na Perve Galeria, a série dedicada aos Musseques é apresentada como um dos principais focos desta exposição, transcendendo a simples documentação. A artista transforma o abrasivo sol africano, que desgasta os materiais, numa metáfora visual de resistência e adaptação. As suas imagens captam a complexidade dos espaços, transformando ruínas urbanas em símbolos de engenho e sobrevivência, num diálogo entre a memória coletiva e a reinvenção artística.

Por sua vez, na Casa da Liberdade- Mário Cesariny, o foco desloca-se para outras séries significativas da trajetória de Renée Gagnon, que abrangem desde os anos 1970 até à atualidade. Para lá das paisagens africanas, a artista desenvolveu um fascínio pelas oliveiras milenares e os monumentos megalíticos que há milénios pontuam a paisagem europeia, que a leva a criar séries fotográficas, centradas na exploração da ancestralidade europeia.

Em muitas destas obras, a técnica serigráfica ganha protagonismo. Sobre as fotografias a preto e branco impressas, a artista aplica camadas de tinta serigráfica, utilizando cores quentes e saturadas, como vermelhos, amarelos, laranjas e rosas dominando a composição, contrastadas por tons de azul, cinza e preto realçando os pormenores visuais e subvertendo a estética documental. Esta utilização da cor próxima das técnicas da Pop Art, confere às peças um caráter quase celebratório.

Estas intervenções, que frequentemente vibram entre a precisão da fotografia e a fluidez da pintura, revelam o desejo da artista de habitar os espaços retratados, introduzindo-lhes vida e uma dimensão subjetiva que desafia o olhar do observador. O trabalho técnico é ainda mais enriquecido pela abordagem de grandes dimensões. Em muitas das suas obras, a escala permite uma imersão completa no universo que a artista criou. As cores e texturas não apenas delimitam as formas, mas também desenham narrativas que conectam o passado ao presente, transformando o gesto artístico num diálogo atemporal.

Com a aproximação do 50.º aniversário das independências dos países da CPLP. “Obstinada.mente” insere-se assim num movimento de valorização das narrativas que emergem da luta pela autodeterminação e da criatividade nascida em cenários de adversidade. Renée Gagnon, aos 82 anos, mantém-se uma voz ativa e singular, cuja obra é crucial para compreender as dinâmicas socioculturais dos espaços marginalizados e os desafios enfrentados pelas comunidades que os habitam.

Ao trazer a público esta antologia, assinala-se não apenas a extensão da sua prática visual mas também a relevância da (sua) arte como agente de mudança e diálogo. Ao longo da sua carreira, a artista demonstrou uma capacidade única de transformar o ordinário em extraordinário, criando imagens que desafiam o tempo e a história. “Obstinada.mente” é um convite à revisitação do passado – com olhos postos no futuro, questionando desigualdades, enaltecendo resiliências e reconhecendo a beleza das narrativas que, muitas das vezes, permanecem à margem, na sombra, ocultadas pelos desideratos do quotidiano.

A exposição enquadra-se na visão da galeria, que desde a sua fundação tem como missão destacar obras que interpelam o passado e o presente, promovendo uma visão plural da arte. Este compromisso inclui criadores portugueses, artistas dos países da CPLP e da diáspora africana, sempre numa busca incessante por vozes que desafiam as narrativas dominantes e, neste caso, que refletem sobre o colonialismo, os movimentos de resistência e as memórias associadas às independências dos países africanos de língua portuguesa.

Atualmente sediada em Lisboa, Renée Gagnon continua a contribuir ativamente para os campos artístico e académico. O seu legado é definido pelo empenho em lançar luz sobre comunidades sub-representadas e pela sua capacidade de articular narrativas sociais complexas através da arte e da escrita.

Mais informações e catálogo da exposição: www.pervegaleria.eu

 

Fonte: perveglobal.com

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