Artigo

O Valor Sentimental e a Efemeridade da Vida 

Valor Sentimental (Affeksjonsverdi), é um drama profundo e altamente comovente que retrata o clima de tensão de uma família, um pai e duas filhas – caracterizados por Stellan Skarsgard, Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas respetivamente – após a morte da mãe. 

A personagem de Skarsgard, Gustav Borg é um realizador de cinema carismático e egocêntrico, perturbado pela vida, pelo álcool, e desesperado pela construção de uma relação com as filhas, principalmente com Nora. A química inegável de ambos, alimenta as questões sobre as intenções de Gustav quanto ao súbito interesse de aproximação com a filha mais velha. Paralelamente, o envelhecimento do protagonista tem um papel nesta tentativa de contacto familiar – nesta passagem de guião -, um certo conformismo com as suas capacidades e o pensamento de que o seu fim é quando e como o escritor quiser. Ou será quando percebe o sucesso da carreira de Nora? 

Nora, personagem de Renate Reinsve (a estrela de Joachim Trier em The Worst Person In The World), é uma atriz de teatro, sucumbida pela ansiedade de performance e vínculos emocionais. A sua atuação é tão crua e real que comove a audiência lentamente até ao climax. O ressentimento pelo pai, desde o divórcio, é evidente e justificado aos olhos da criança que passou a sua infância a ouvir discussões, insultos e falsas esperanças de reconciliação e retorno. É pelos olhos da pequena Nora, que tanto sofreu, que já em adulta, consegue apenas ter relações superficiais; sendo verdadeiramente Nora com o sobrinho Erik de nove anos, e, com alguma resistência, a irmã Agnes. 

E apesar da sensação inicial de que Gustav e Nora Borg são as personagens mais complexas do núcleo, é impossível ignorar a presença de Agnes. Inga Ibsdotter Lilleaas brilha ao ser o cimento que mantém a casa estruturada, mesmo quando está a desabar. Sem ela, não havia o enredo de Gustav e Nora. Sem ela, não havia Nora. Sem ela, não havia Erik, o seu filho, que simboliza esperança e novos começos. Um novo começo para Agnes, que conseguiu fundar uma família aparentemente funcional, amadurecendo de uma infância desequilibrada. Um novo começo para Gustav, como avô, podendo alimentá-lo com brincadeiras e afetos que não pôde com as filhas, estando nessa altura na Suécia. E para Nora, o sobrinho simboliza a esperança em relacionamentos transparentes, seguros e afetivos – se consegue sentir o amor de uma criança, ser vulnerável com ela, então, não poderá estar tudo perdido. E talvez seja por isso que Erik acaba por ter um espaço para ele no guião do avô. 

O vencedor do Grand Prix de Cannes, também conta com Elle Fanning no papel de Rachel Kemp, uma famosa atriz americana maravilhada pelo trabalho de Gustav. O que parecia uma luz ao fundo do túnel na sua carreira, torna-se numa constante batalha interior sobre seguir em frente num papel que não foi desenhado para ela, ou afastar-se do papel de uma vida. Contrariamente ao expectável, Rachel apaixona-se por Oslo, pela língua norueguesa, e pelo guião de Gustav. A sua obsessão acaba por fazê-la perder-se na personagem, fica com medo de desapontar Gustav, que se torna quase uma figura paternal para Kemp. Porém, não há tinta de cabelo ou sotaque escandinavo que a torne Nora. A escolha é feita. 

Valor Sentimental é, sobretudo, uma reflexão sobre relações pessoais e a efemeridade da vida. A Casa é uma personagem, e sendo, também ela é efémera. Nela estão guardados

todos os antepassados, mortes e nascimentos, infâncias e adolescências, segredos, confissões das sessões de psicoterapia da mãe Sissel, discussões, fricções, fissuras. E o forno, um objeto tão mundano, mostra o dualismo da dor e a versatilidade de um objeto – é um objeto usado entre as mulheres de várias gerações. Tanto é um veículo de amor, através da comida, que acarreta memórias e saudade, como é um objeto de tortura física e psicológica. Também a morte acompanha-nos durante toda a longa-metragem, seja no cemitério ou num palco sintético, e reflete medo nas personagens, mas igual certeza e inevitabilidade. 

O filme é repleto de metáforas e simbolismos, e, eficazmente, toca nas vidas pessoais de cada membro da audiência, porque cada qual tem a sua interpretação. Cada qual tem a sua vida. Cada qual é Gustav ou Nora ou Agnes, ou mesmo Rachel. Todos nós temos A Casa, sofremos perdas, receamos desgostos, ansiamos por amor. 

Desde The Worst Person In The World (2021), Trier recuperou da leva de prémios internacionais, e voltou em força para mais com este novo drama. 

Valor Sentimental é lançado nos cinemas nacionais já no próximo dia 29 de janeiro. São duas horas imperdíveis que fazem questionar o valor sentimental que damos à vida, às relações e a nós mesmos, ou até a um simples banco do IKEA.

 

Por Catarina Mendes

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