O cesto da roupa lavada – Tam Coc

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Uma cebola? As camadas são tantas que quase parece que sim. Mas não. Apenas estamos a olhar para as camadas de roupa dobrada no cesto da roupa lavada. E esta visão, no chão de um quarto de hotel em Tam Coc, no norte do Vietname, ao contrário da cebola, não nos faz chorar. Ou pelo menos assim parece, à primeira vista.

Meias soltas com losangos e riscas coloridas, t-shirts que há muito passaram o seu prazo de validade. Uma camisola mais quente de há umas noites atrás quando arrefeceu descansa sob uns calções, em tempos calças, aos quais foi dado um novo propósito. Roupa interior, umas calças verdes tom de floresta e um fato de banho. São estas as peças que compõem a ordenada montanha de roupa lavada que, no cesto, aguardam ser recolhidas e arrumadas na mochila. A viagem continuará, por isso não há volta a dar. Terá mesmo de ser. Mas a verdade é que não é tão fácil assim desfazermo-nos desta visão que enche o chão do quarto de hotel.

Cada vez que aí entramos um cheiro apodera-se de todo o espaço. Um cheiro que mistura lavanda e sabão rosa. Um cheiro que nos remete para a nossa infância. Assim que entramos no quarto, e sem que disso nos apercebamos, já não estamos no presente. Damos por nós a viajar para o nosso próprio passado, transportados para um tempo em que nos caracterizam a inocência e a ingenuidade. Um tempo sem preocupações, em que a única responsabilidade é a nota do exame que nos permitirá avançar para o ano escolar seguinte.

Fechamos os olhos e estamos em casa dos nossos avós, no campo. Um sol quente matinal paira já no alto e alegremente dá-nos os bons dias. A avó está feliz a cantarolar enquanto cuida do seu jardim. O avô está a ler o jornal debaixo de uma vinha que nunca deu uvas, com o café a fumegar ao seu lado. Todos os primos, primas, irmãos e irmãs correm descalços pelo jardim sob a relva que já deveria ter sido cortada há uns dias atrás. No fundo, mais um fim-de-semana da nossa infância, daqueles que tanto nos marcaram. A um canto do cenário, como se tentasse passar despercebido a todo o frenesim, está o tanque.

Sim, o tanque que está lá fora, aquele que existe em todas as casas de campo de todos os avós de todo o Portugal. Trata-se de um objeto ao qual, quando somos novos, não damos valor algum. Nunca é grande o suficiente para aí aprendermos a nadar, mas também não é pequeno que chegue para não incomodar. Vemo-lo como espaço perdido que poderia ser utilizado para colocar uma baliza de futebol ou até uma piscina, se formos afortunados. Mas não, ali jaz o tanque que não serve para nada e do qual nem sequer nos podemos aproximar em demasia. ‘Não te debruces sobre o tanque que podes cair’, ouvimos dos nossos pais. Claro que não damos valor ao tanque. Para além de ocupar todo aquele espaço nem sequer dele nos podemos aproximar. O que seria de esperar?

Que tontos somos! Quão bom seria poder voltar a olhar para aquele mesmo tanque, da exata mesma forma? Ver a forma arredondada das bacias vermelhas que aí repousam com água a cobrir o seu fundo, os sabões rosa já gastos e de vários tamanhos que violentamente foram esfregados em tecido gasto, ou o arame torto que fragilmente se segura entre dois postes. Aquele arame que apenas tem molas perdidas viradas do avesso, de várias cores e feitios, que aguardam impacientemente voltar a entrar em ação. Sim, porque a roupa foi feita para secar ao ar livre, não numa máquina de secar qualquer. Só assim podemos sentir, quando colocamos o braço pela manga de uma camisola, o sol tocar-nos a pele. Só assim sentimos um perfume natural a campo que deixaria envergonhado qualquer amaciador dos dias de hoje.

Quão bom seria poder ouvir novamente, ao longe, a nossa mãe dizer que a roupa lavada está em cima da cama pronta para arrumar? Ou sentir outra vez o entusiasmo de tentar descobrir, entre toda a pilha de roupa perfeitamente dobrada – daquela forma que hoje todos somos incapazes de reproduzir, vá-se lá entender a razão -, se aquelas calças que quase rompemos a jogar à bola no jardim, e que nos valeram um valente raspanete, já estão prontas para uma nova aventura?

O cesto da roupa lavada é daquelas coisas que é muito mais que aquilo que aparenta ser. Não se trata de roupa lavada só, pronta a ser exibida numa ida para o trabalho ou mesmo num jantar com amigos. Não. É muito mais que isso. O cesto da roupa lavada é uma recordação de um tempo em que tudo era fácil, em que tudo era felicidade. Um tempo em que sabíamos, sem verdadeiramente o saber, que há coisas na vida mais importantes que outras.

Pensando bem, olhar para o cesto da roupa lavada é mesmo como olhar para uma cebola. Ainda que não pelas mesmas razões, a lágrima no canto do olho está lá. Quem diria que um monte de roupa disposto em camadas nos faria sentir assim?

Por João Barros

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