Cava de Viriato: O segredo evidente

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A recente publicação de um documentário acerca dos mistérios da Cava do Viriato em Viseu e da eventual nova linha de investigação que contraria a teoria da fortificação que sempre vingou levam-me a partilhar aquilo que foi a minha investigação baseada na curiosidade. Sim…essa curiosidade já me assolou!

A estar certa, poderemos ver Viseu saltar no ranking das cidades mais importantes da história do império romano…mas já la vamos:

 

Não acredito que a Cava de Viriato seja um modelo de uma cidade cristã como diz a investigadora nesse documentário. Diz a investigadora que tenciona escavar em alguns lugares concretos para encontrar uma igreja. Também não acredito que aos romanos para quem nem as estradas se faziam em terra, tenha feito uma fortificação daquela dimensão em terra, muito menos na parte baixa da cidade, para proteger coisa nenhuma. Para além disso uma fortificação à beira rio seria um absurdo a não ser que esse rio fosse uma importante entrada de inimigos e portanto…fui pesquisar à minha maneira e cheguei a uma conclusão que só agora tive coragem de partilhar.

 

Comecei nos romanos, claro. Afinal de contas foram os romanos os maiores empreendedores da história e é um dado adquirido que deixaram uma enorme pegada de infraestruturasem Portugal.

O que eu não sabia, e fiquei a saber, é que Viseu é uma das cidades onde convergem mais estradas romanas o que não deixa de ser uma enorme surpresa: Porquê tantas estradas se não for para servir as necessidades comerciais e distribuição de produtos? De Viseu saem estradas romanas em todas as direções para todo país…melhor … para a península Ibérica.

 

Teria que haver uma razão para tantas estradas a sair de uma única (e supostamente pequena) cidade. Mais ainda, só de cidades muito importantes saem muitas estradas. Sempre foi, ainda é,e sempre será assim. Mas Viseu não ocupa esse lugar da história Romana (pelo menos ao que sabemos). Continuei a pesquisar!

O rio Pavia , afluente do Dão, era um rio navegável no período dos romanos. Lembremo-nos que tudo isto se passou já lá vão mais de 2000 anos. Claro que também o era o Dão…que por sua vez desagua no Mondego igualmente navegável até início do presente século.

 

Ora se Viseu era banhado por um rio navegável que por sua vez se ligava a outros igualmente navegáveis, achei, portanto, legítimo que em rios navegáveis houvessem cidades portuárias para carga e descarga de matérias primas que por sua vez seriam distribuídas pelas demais cidades. Continuei!

 

O rio Dão nasce algures em Aguiar da Beira e atravessa concelhos como Aguiar da Beira, Penalva do Castelo, Mangualde, Nelas, Carregal do Sal, Tondela…etc. Sabemos que em quase todas estas cidades existem vestígios romanos!

Quando o rio Dão chega ao rio Mondego, fica então fechado o circuito de navegação para Penacova, Coimbra, Figueira da Foz…e estamos no mar! Ora era então possível ir de barca de Viseu até ao mar?

 

Começou a fazer sentido para mim que Viseu fosse um importante entreposto logístico Romano, com estradas em todas as direções, rios navegáveis por barca que atravessam Portugal interligando com as estradas romanas até ao centro de Espanha e por sua vez, ter tudo isto ligado ao mar ali junto à Figueira da Foz. Continuei a pesquisar e entre muitas coisas que corroboram a linha da pesquisa saltaram os achados arqueológicos romanos encontrados em Maiorca, nas margens do Mondego, na Figueira da Foz. Parecia mesmo ter havido um circuito fluvial de mercadorias em grande escala.

 

A Cava de Viriato é uma das maiores construções de terra da península Ibérica. É um octógono que ocupa uma área de 39 Hectares e um perímetro de 2 quilómetros. Não sei se se o interior daqueles montes do perímetro é efetivamente de terra, mas acredito que os arqueólogos trataram de verificar aquando da sua interpretação como fortificação.

 

Nos tempos romanos o domínio dos rios era absolutamente fundamental para o Império fosse por segurança, fosse pela distribuição de mercadorias e Viseu, parece apresentar fundamentos e evidências para que possamos concluir ter sido uma cidade importantíssima há mais de 2000 anos.

Por esta altura a teoria do acampamento (que serviu a viriato) e das suas “muralhas” em terra batida com cerca de 25 metros na base e 6 no topo já haviam caído por terra.

 

Investiguei obras de romanos nas cidades mais importantes do Imperio a fim de perceber de que forma a arquitetura romana poderia explicar essa raríssima construção a que chamamos Cava. Não podia ter ficado mais estupefacto quando confirmei as minhas suspeitas de que a proximidade do rio Pavia não seria um acaso , como não seriam um acaso as 4 entradas para a Cava, nem a espessura das suas paredes…nem mesmo o facto de ter sido construído com terra.

 

Para perceber o Império Romano conheci o Imperador Trajano. Percebi que os romanos tratavam os seus rios de uma forma interventiva, já na altura trabalhando assoreamentos, pontes, mas também portos!

Foi quando descobri que em Roma existiu outrora, nas margens do Tibre, um grande ancoradouro artificial em forma de hexágono a que chamaram porto, ou Portus.

O Portus de Claudio (a primeira versão) ou o Porto de Trajano (a segunda) estavam igualmente próximos do rio e do mar e, também deste porto saiam inúmeras estradas para todo o império, ou melhor, entravam inúmeras estradas já que a cidade de Roma, com 1 milhão de habitantes na altura, já exigia uma forte rede de abastecimento de recursos.

 

Pasme-se agora que esse porto Exagonal tem também semelhante perímetro de 2000 metros e a mesma área :39 hectares onde se estima que transitavam em simultâneo cerca de 350 barcas! Chamam-lhe agora Lago Traiano!

Apenas a altura interior não bate certo (9 metros versus os cerca de 4 metros da “nossa” cava.

 

Não podia ser coincidência, e raiaram-me os olhos quando vi a imagem desse porto (Portus) no Google Earth: A “nossa cava de Viriato” estava ali estampada! Só lhe faltava mesmo a água que ainda persiste no porto romano de Roma entretanto desativado.

A Cava de Viriato era afinal um porto de rio. Mais, era um porto de rio de tal forma importante que era um espelho do projeto que Roma havia desenhado para a capital do seu império!

O formato octogonal da Cava,em vez de hexagonal do Portus poderia ter a ver com a o facto de as nossas barcas serem mais pequenas do que as que abasteciam Roma, necessitando portanto de mais docas e mais pequenas do que as romanas!

 

Pesquisei acerca dos rios, dos antigos caudais e fundamentei esta teoria de que de facto a Cava de Viriato seria um porto e, portanto, Viseu seria uma das mais importantes cidades comerciais do império, quem sabe, ao ponto de abastecer Roma já que não existe igual infraestrutura construída pelos romanos. Será que daqui se recebiam e enviavam e recebiam mantimentos em massa para a Europa.

 

A normal sedimentação subiu a cota do fundo do porto, tal como aconteceu em parte ao porto de Roma, e a descida do nível das águas terá feito o resto: Uma Cava de Viriato “seca”mas com terra fértil e sem grandes vestígios de construções romanas que provavelmente foi o que levou os historiadores a considerarem-na um acampamento.

Fez se luz! Umas muralhas sem cidade lá dentro não fariam muito sentido! Mas a razão para falta de construções romanas tem a ver com o facto daquela parte, sendo um porto…estar submersa. É de esperar que lá dentro não se encontrem construções da época, mas é de esperar que lá dentro constem os vestígios da atividade normal de um porto do tempo dos romanos!

 

Viseu ter sido uma grande cidade portuária parece quase um absurdo, mas existem ainda muitos dados que procurei para fundamentar a minha pseudo descoberta: altura das pontesromanas reveladoras de maiores caudais nos rios, localização dos povoados, morfologia dos leitos, localização dos caminhos romanos, etc…fazem-me concluir que o nosso rio Pavia, tal como o Dão e Mondego, teriam caudais bem maiores no tempo dos romanos o que me fez também assumir Viseu como uma cidade largamente banhada por um rio navegável não parece assim tão infundado.

A zona plana em torno da Cava de Viriato aparenta ter acomodado esse mesmo rio e o facto de terem sido descobertos vestígios do inicio de uma estrada romana na rua do Arco pode estar interligado com o facto de uma parte significativa submersa no atual recinto da feira. Porque razão começaria uma contagem de uma estrada na rua do Arco quando a cidade já na altura se elevava na zona da Sé. Aliás…parece até unânime que a Cava era acompanhada de uma vala onde haveria água…portanto, porque não considerar que a mesma estava cheia de água para onde entravam e saiam as barcas com mantimentos?

 

Não sei se tem tanto sentido quanto o que lhe dou, mas esta é a minha teoria escondida que adveio do dia em que, apesar de odiar história, resolvi tentar perceber o que faz alguém um dia fazer semelhante construção. Se ainda hoje lhe chamam de misteriosa, talvez seja precisamente porque ninguém está plenamente convencido de que as vigentes “teorias” quanto ao que lhe deu origem estejam certas ou provadas.

Escavem-se os 4-5 metros que o tempo e sedimentos cobriram dentro da Cava…e, se eu estiver tão correto como penso que estou, irão desenterrar uma história infinitamente fascinante acerca de Viseu e dos romanos. Se a Cava era o maior porto do mundo à semelhança do porto de Roma…haverá muito a encontrar por lá!

 

Até provas em contrário, mantenho a minha teoria de que Viseu teve um dos maiores portos da história romana e que esteve no radar e na visão do arrojado imperador Trajano .Afinal de contas teve para Viseu visão semelhante da que teve para Roma e não se conhecem (pelo menos eu) mais nenhuma construção semelhante na Itália, nem no mundo.

Se eu estiver correto, foi em Viseu que os romanos viram a ligação à Península Ibérica e talvez mesmo para França e demais Europa fazendo da nossa terra um centro logístico e histórico de uma relevância extrema.

 

Se ninguém lhe pegar ou contrariar, talvez um dia escave eu e, se estiver correto, talvez traga a Viseu uma nova história do que fomos e do que somos.

Por: Bernardo Mota Veiga

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