Apontamentos de Moçambique

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13-28 Julho 2019

 

Moçambique  

Estar quinze dias em Moçambique a dar aulas sobre património não é uma tarefa extraordinária, não move o mundo, não é diferente do que muitos fazem, já fizeram e voltarão a fazer. Não é, no entanto, em termos pessoais, uma banalidade, nem nunca o seria, aqui ou noutro lado do mundo, mais próximo ou mais longínquo, porque há toda uma vontade de ensinar o melhor que sei e aprender tudo o que puder.  

Não quero escrever crónicas de Moçambique e muito menos achar que vou ficar a perceber este mundo tão igual e tão diferente, mas acho que, para melhor memória e melhor partilha, posso escrever alguns apontamentos de momentos e sensações, mais reais ou mais efabulados, que substituam as fotografias que não tiro, sobretudo na cidade, por não ser local para isso ou porque não conseguiriam reproduzir a complexidade e a mística dos locais e das situações.  

Tentarei então fazê-lo, sem carácter regular, sempre que surjam motivos que os inspirem, e nunca ultrapassarei cerca de três ou quatro parágrafos e mil caracteres. Em jeito de antecipação de um índice virtual, quero falar do lixo urbano, do caminho para a universidade, das fotografias, dos alunos, do comboio e… do que me vier a ocorrer. 

Comboio  

À noite, no meu quarto, ouço um apito de comboio. É um apito curto e único, claro, mas pouco intenso. Pela nitidez do som, diria que o comboio estava mesmo ali em frente, na rua, a deslizar sobre carris imaginários. Nalgumas noites, o apito repete-se uma, duas, três vezes de dez em dez minutos.  

Nunca vi o comboio, nem sei se alguém viu.  

Até hoje pensei que o som existisse sozinho ou fosse imaginário. Mas não. Diz quem sabe que o comboio existe, é grande, silencioso e discreto, escondido entre muros que o ocultam e que dividem a cidade a meio: de um lado pedra e cal e, do outro, assentamentos informais, que é o mesmo que dizer: enormes bairros clandestinos muito pobres.  

O comboio desliza sobre os carris que foram recentemente revistos e a nados para que neles passe rápido e discreto, de noite, quantas vezes for necessário e sem hora marcada, carregado de carvão mineral para o porto marítimo de Nacala, mais a Norte.  

Hoje, a caminho da Universidade, vi, ao longe, uma passagem de nível. É aí que o comboio apita uma vez, só uma vez, de forma curta e clara. Estou quase tentado a acreditar que existe, com uma enorme máquina diesel, um maquinista solitário e dezenas de vagões de carvão.  

Digno de filme! 

Lixo urbano  

Em Nampula os passeios só existem em ruas principais e estão em mau estado: há buracos de metro a metro, o cimento e a terra alternam como no xadrez, há montes e vales. Mas em Nampula os passeios estão limpos, sobretudo pela manhã, como se a noite os tivesse varrido na perfeição, deixando penteada a poeira mais persistente.  

E onde está o lixo? Não sei.  

E onde se despeja o lixo doméstico? Não sei. E como se faz a recolha do lixo? Não sei.
Ao fim de dois dias tivemos que perguntar a um dos três seguranças do prédio. O primeiro não percebeu a pergunta, mas o segundo lá nos informou que havia dois contentores na cidade: um mais perto, no Conselho Municipal, e outro bem mais longe.  

Quando o motorista da universidade chegou para nos apanhar, pedimos que passasse junto de um dos contentores para deixar os nossos sacos de lixo, mas ele não o fez, comentando entre dentes qualquer coisa que não conseguimos perceber. Talvez tenha dito: “depois”.  

De facto, “depois”, a caminho da universidade, já na estrada de terra, com valetas feitas pela chuva com mais de um metro de altura e um piso digno de montanha russa, parou de repente e disse-me: “É aqui! Abra a janela e atire!” Não era uma sugestão. Era uma ordem!! 

Caminho da Universidade  

Saímos de casa duas horas antes das aulas, que é o tempo certo para ir avançando de forma errática, felizmente lenta, na “nacional um”, parando aqui e ali para dar boleia a alguém conhecido do Sataca (*) e, depois, enfrentar a estrada de terra e chegar a um campus paradisíaco, onde só destoa o guarda armado no portão. É tempo, então, de ultimar os preparativos da aula, ver se há eletricidade e, não menos importante, receber os alunos.  

A “nacional um” é um rio de carros com tapete de alcatrão e com bordas crivadas de gente que anda, que vende, que espera, que corre para a boleia ou para o “chapa”. Há lojas, há tendas, há portas, há oficinas, há padarias, há telemóveis. Há tudo o que se possa imaginar.  

Estas bermas são o rebordo bordado de um pano muito mais cru que se estende lá atrás, com milhares de barracas, onde se rasga a estrada de terra, também ela rasgada pelas chuvas, numa indecisão entre ser caminho ou rio, mas com a certeza de que mais se parece com um mar de pó vermelho. “Só para Toyotas” dizem os condutores. “Os outros não aguentam”.  

À noite, o regresso é de jipe, com um aluno, e tudo parece diferente, ou melhor, tudo parece impossível nesta condução pela esquerda, mergulhados num mar de faróis com luzes azuis cintilantes, com o rádio sintonizado num programa sobre racismo. Chegamos sempre bem!

(*) assim se chama o motorista da universidade 

Mas o que é que lhes passou pela cabeça?  

Fui hoje a Mossuril, de jipe, com duas horas de estrada de terra para cada lado. Um banho de país real que não deixa adiar a pergunta: mas o que é que lhes passou pela cabeça?  

Se a pergunta fosse só aplicada a uma determinada época estaríamos mais tranquilos, mas o problema é que, nem sabemos o que passou pela cabeça dos governantes portugueses do Estado Novo quando julgaram que podiam dominar um país desta força e dimensão, nem o que passou pela cabeça da UNESCO quando definiu valores excecionais (e a manter) na Ilha de Moçambique que amarram as pessoas a (muito) más condições de vida, como não sabemos o que passa pela cabeça de todos quantos decidem inventar modelos de desenvolvimento que não pensam naqueles a quem se destinam.  

Aos primeiros, é bom de ver o que lhes passou pela cabeça. Basta olhar para um enorme comboio carregado de carvão. Ah!, afinal o comboio existe! Vimo-lo ontem durante a viagem, a ladear a estrada, sempre dentro da sua cerca, ainda que mais transparente quando atravessa campos de cultivo.  

Aos segundos dir-se-ia que precisam de viver lá algum tempo para perceber que é preciso incentivar e apoiar projetos que envolvam a população na reconstrução de uma memória que lhes permita assumir o legado construído e melhorá-lo, criando uma nova identidade, que incorpore a antiga e melhore as suas condições de vida.  

Aos terceiros talvez não tenha passado nada de muito especial pela cabeça, por serem apenas universitários ou por não resistirem à banal procura de novas (mas tão antigas) formas de poder. 

Avó Willow  

A avó Willow existe!  

Não só existe, como tem imensas irmãs, também em África, espalhadas pelas florestas a perder de vista. Em Moçambique não é um salgueiro como na Pocahontas e quase juraria que seria um embondeiro. Também podia ser uma das muitas árvores de raízes aéreas, cujos nomes nem imagino, mas o embondeiro é uma aposta mais segura.  

Não faltam as Pocahontas, mulheres de olhar brilhante e sorriso sereno, envoltas nas capulanas, nem as lendas, nem a neblina que as alimenta e as torna quase reais.  

Saímos às seis horas da manhã de Nampula em direção à Ilha de Moçambique, para uma viagem de 180 km. Na cidade, o Sol já tinha nascido, mas, logo adiante, estava neblina cerrada que mais parecia um prolongamento da noite. Durante várias dezenas de quilómetros tudo eram sombras, silhuetas e pequenos brilhos que, de repente, se iluminaram como quem passa para o outro lado do espelho.  

Agora é verde e terra, casas e culturas, árvores centenárias e afloramentos rochosos milenares, termiteiras fervilhantes como os (muitos) miúdos a brincar à volta das casas.  

A esta hora, o chão de terra das aldeias por que passamos já está varrido. É uma tarefa diária impressionante: não há uma erva, uma folha, um plástico à volta das casas. Varre-se tanto que as raízes das árvores são agora veias salientes de uma mão que se apoia no chão e protege, qual avó Willow, toda a aldeia.  

Ao fim de três horas chegámos à entrada da ponte que liga a Ilha ao continente. Aí começam muitas histórias. Talvez algumas me entusiasme a contar. 

Os “putos”  

Nas palavras de Ary dos Santos, cantadas pelo Carlos do Carmo, “Parecem bandos de pardais à solta / Os putos, os putos / São como índios, capitães da malta / Os putos, os putos…”.  

Já os tinha visto em Nampula, mas ontem de manhã, na Ilha, fui abalroado pela onda esfusiante e “pateta”, aqui como em qualquer lado do planeta, dos “putos” da escola primária. Risos, empurrões, correrias, numa alegria contagiante.  

São os mesmos que na véspera, domingo, queriam fazer de guias, vender um pardal ou simplesmente contar a história da ilha a troco de uma moeda e que agora nos ignoram. Agora estão aprumados na sua camisa azul clara e nas calças ou saias azul marinho, ainda que fique na dúvida com quantos botões chegarão ao fim da semana, tantos são os saltos e os atropelos.  

As aulas começaram às sete da manhã e acabaram cedo. O resto do dia é para “aprenderem a ser homens”.  

Atrás vem uma onda mais suave, sem corridas, com muitos risos, provocações inofensivas (entre eles e elas) e evidentes cumplicidades. As camisas são brancas e as gravatas pretas, muitas com um nó que já conheceu melhores dias, sobretudo nos rapazes. São os alunos do secundário.  

No caminho para Nampula, estas ondas de azul claro vão-se repetindo em muitas aldeias e, embora de forma mais rara, também se veem, aqui e ali, as mesmas ondas brancas.  

São muitos. São muitos, mesmo, … “os putos”. 

Arca mágica  

O mangal (ou manguezal) é como uma arca mágica de onde saem as coisas mais incríveis que nunca imaginámos pudessem lá nascer. Mas importa sublinhar, para evitar confusões, que esta arca não se assemelha em nada a uma cartola de ilusionista, porque daí saem falsos coelhos, fruto de falsa magia.  

Aqui, tudo é magia real. Do mangal sai madeira de construção, saem varas, saem fibras, sai matéria para fazer carvão, sai caranguejo, camarão e siri…  

O mangal é um ecossistema complexo que faz a transição entre a terra e o mar, onde o que se passa debaixo de água é tão complexo e emaranhado como o que está acima da superfície, como se a natureza se tivesse divertido, com traço livre, a fazer rabiscos infindáveis e, depois, tivesse traçado uma linha horizontal para separar o ar da água.  

Cada um destes rabiscos é um ramo de uma das muitas espécies de árvores (?) do mangal. Os seus nomes têm muitas vezes a ver com a cor dominante: mangue-vermelho, mangue-preto, …  

Quando nas bermas das estradas emerge um atado de varas para a construção de casas de macute, arrastado às costas de alguém, de onde virá? Do mangal.  

Quando se multiplicam os sacos brancos cheios de carvão, com crista bem preta, protegida com rede, para mostrar a qualidade do produto, de onde veio a madeira para o fazer? Do mangual.  

O mangal está a ser destruído um pouco por toda a costa do Índico e o planeta vai sobreviver, mas as populações talvez não. 

Jangada de pedra  

Quando a maré enche, a Ilha de Moçambique parece estar a flutuar, porque o mar escavou com tal arte a base da plataforma rochosa, deixando um rebordo superior em todo o seu contorno, que parece estar a passar-lhe por baixo.  

No Ilhéu de São Lourenço, quando a vaga vem de sul, os nossos olhos ficam confusos e já não é o mar que avança com a força do vento, mas é aquela massa rochosa que vai ao seu encontro, navegando como um cargueiro de pouco calado, em que o fortim, à ré, é a ponte de comando.  

Se Saramago não esteve aqui e aqui não se inspirou para o título da Jangada de Pedra algo esteve errado na conjugação dos astros. É que, não só flutua o ilhéu, como tudo o resto, numa constante incerteza do amanhã.  

Resta saber que âncoras tem esta jangada, que amarras a prendem e que ventos a esperam – aqueles que os mais novos e empenhados dizem tardar a chegar. Estão na força da vida, pensam, têm sonhos e projetos e discursam sem trégua, com raciocínio lógico e consequente, quando quebram estas distâncias que sempre começam por nos separar: a idade, o estatuto, o modo de falar, a origem …  

Não sei se serão comandantes, imediatos ou homens e mulheres do leme, mas não têm medo do mar!  

PS: Pesquisei e não encontrei o resultado desejado. A Fundação José Saramago dedicou a Jangada de Pedra ao apoio às vítimas do terramoto do Haiti. Para Moçambique, depois da tempestade Idai, a campanha da fundação centrou-se numa edição especial de O Conto da Ilha Desconhecida. 

É preciso respirar  

Termino como comecei: não quis escrever crónicas de Moçambique e muito menos achar que vou ficar a perceber este mundo tão igual e tão diferente, mas foi bom escrever e partilhar alguns apontamentos de momentos e sensações.  

Aqui, como em qualquer lugar do planeta, é preciso tempo para ver, para ouvir, para recear, para discordar, para ter curiosidade, para cativar e ser cativado.  

Não faço a menor ideia do que aprenderam realmente estes estudantes, apesar de serem eles a maior (única?) razão desta missão, mas tenho a forte convicção (certeza?) de que não foi tempo perdido.  

Escapou-me alguma coisa realmente importante em tudo isto? Escapa sempre! Estará o Mia Couto coberto de razão com a crónica dos sete sapatos sujos?  

É preciso respirar… mas voltaria! 

 

Por : Raimundo Mendes da Silva

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