Alma do Fado, Amália Rodrigues

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Recorro um trecho de sal e areia de minha praia, lentamente, andar cadenciado, a observar o vai-e-vem das ondas que unem e separam Brasil a Portugal. E, com elas, que outro sentimento me chega senão a saudade? Penso, então, em julho de 2020. Como teria sido celebrar 100 anos de uma imortal da música mundial?

O embalar de cada passo meu se dá pela voz de Amália Rodrigues, voz do vento incansável, voz de Portugal, terra amada, por vós e, com toda a licença, por nós. Aos ouvidos, ela canta “Saudades do Brasil em Portugal”, poema de Vinícius de Morais Digo que ela canta para mim porque é esta a sensação mais íntima que resulta da admiração de um fã: que ela canta em particular, a cada um, especialmente, ao pé do ouvido, dentro, para a alma.

Amália foi íntima do Brasil, desde a primeira vez que cá esteve. O ano era 1944, e na ocasião cantou no Hotel Copacabana Palace. Os músicos da orquestra ainda não a haviam ouvido cantar, coitados. O êxito foi surpreendente e os ânimos alterados, porque àquela época ainda ela nem havia gravado “As Penas” (1945), e como poderia cantar de tal forma?

Hipnotizava maestros e colegas músicos, como Ivon Curi, declaradamente apaixonado pela voz-presente de Amália. Não sabia ele, assim como não sabemos nós e não sabe ninguém, porque a emoção nos arrebata quando a “Foi Deus”, Amália dá voz, somente ela, daquela forma, tão ela. Esta canção, por aqui ressoa desde o final dos anos 50 nas rádios, regravada com todo o respeito e reverência por Ângela Maria e seu secto.

Aliás, vale lembrar que o tanto de respeito e admiração que os brasileiros de minha idade têm por Amália se deve, sem reservas, ao álbum “Amália/Vinícius”, de 1970.

A obra, apesar de censurada pela Direcção dos Serviços de Censura da Emissora Nacional, chegou-nos à altura de 1978, trazida por famílias aveirenses que se instalaram em minha terra, a pequena Pelotas, cidade irmã de Aveiro através de protocolo de geminação reconhecido pelos dois países, desde 1996.

De lá para cá, a forma Amália de cantar encontrou as almas e ouvidos de artistas brasileiros como Baden Powel, Marisa Monte, Caetano Veloso, Cauby Peixoto, Edson Cordeiro, Maria Bethânia, Roberto Carlos, Dori e Nana Caymmi, Alcione, Emílio Santiago, Fafá de Belém, e a lista é tão longa quanto esta praia.

Não é de estranhar que, aquela obra do Marceneiro e dela, “Estranha forma de vida”, repercuta até os dias atuais em repertórios de músicos da minha terra, em devotada homenagem à dama. Sim, nós reverenciamos o que ela fez com a música do mundo. Mudei a faixa da playlist e agora sou acompanhado por ‘Lágrimas’, literalmente. Parece-me que caminho sem destino ou o destino é a própria música, pois a conexão do Brasil com Amália e, graças a ela, com Portugal, vai muito mais além do que se imagina.

Então, os puristas que nos perdoem, mas foi um acontecimento ter Amália cantando obras de autores brasileiros lá no Bobino de Paris, em 1960. Quer a prova disto, meu senhor? Ouça ‘Amália no Bobino’ e pasme! Amália pode ser de Portugal, mas seu legado é de todo ouvido atento e sensível, no hoje e no porvir.

Falando em ouvidos, os meus estão repletos de ‘Barco Negro’, e “dizem as velhas da praia, que não voltas…”, e me vou com elas. Afinal, são loucas. Tímpanos a estourar e a praia acabou-se. Ai, está na hora de voltar. Acelere o passo, seu moço, na toada de ‘Zanguei-me com o meu amor’. E nem que me forcem, ‘Nem às paredes confesso’ o amor rasgado que trazemos por Amália. Ops, já confessei, dei-me conta.

Arranca-nos as entranhas da alma, mas confesso que amamos.

Obrigado, Amália de Portugal.

 

Por: Thérbio Felipe

Ilustração: Margarida Costa

 

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