“Qual o valor da tua ferramenta?” pergunta, exasperado, um dos membros da cooperativa Torre Bela a um dos camponeses. “Tudo isto é da cooperativa, não é meu, nem teu, nem deste, é de todo o mundo!” O agricultor responde que cada um tem a sua enxada, aquela comprou-a ele e não é de mais ninguém – “Eu é que trabalho com ela! Qualquer dia tudo o que eu compro fica a ser da cooperativa…” “Mas é exatamente essa a nossa finalidade! Que no final todos fiquemos com mais do que tínhamos, que todos fiquem com tudo! Só assim é que isto vai para a frente e ninguém pode travar este processo!” Para o bem e para o mal, os três minutos da “cena da enxada” em TORRE BELA tornaram-se numa condensação quase burlesca do que foram os anos do Processo Revolucionário Em Curso, com o seu misto de utopia e pragmatismo. Essa cena, cujo diálogo integrou os bordões populares e o imaginário de várias gerações, pertence àquele que é, para todos os efeitos, o filme mais complexo que alguém realizou durante o PREC. Para isso muito contribuiu o olhar exterior de Thomas Harlan, cineasta alemão, que aí se estreava como realizador.
Cinquenta anos depois, a Cinemateca Portuguesa, juntamente com a Cinemateca de Munique, conclui um longo processo de fixação e restauro da versão final definida por Thomas Harlan no seu fim de vida (ao longo dos anos o realizador montou e remontou obsessivamente o filme), que será editada em DVD numa edição conjunta das duas instituições. Assim, entre 20 e 24 de abril, apresentamos um programa concentrado em torno deste filme paradigmático, onde exibiremos a nova cópia digital do filme (assim como uma versão alternativa, mais longa, em 16mm), apresentaremos outros filmes de Thomas Harlan, documentários realizados sobre Harlan e a rodagem do filme em Portugal, assim como outros filmes e reportagens igualmente rodados na herdade da Torre Bela.
A juntar a isso, organizam-se três conversas com especialistas na obra e na figura de Thomas Harlan: o seu filho, Chester Harlan, Stefan Drössler, o diretor do Filmmuseum de Munique, o montador do filme Roberto Perpignani, o historiador e realizador José Filipe Costa, o anterior diretor da Cinemateca José Manuel Costa (que entrevistou Harlan e investigou profundamente a genealogia do filme) e o realizador e conservador Manuel Mozos (que realizou os extras da edição de DVD). Cinemateca Portuguesa
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