A arte em tempos de Coronavírus

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O minúsculo Coronavirus mudou a rotina em todos os setores do mundo. A cultura mundial também sofre um impacto no ano de 2020. Shows, exposições e festivais adiados. Teatros e cinemas fechados pelo necessário isolamento social, visando conter a doença. Que aspecto isso provoca? Milhões de artistas e técnicos e pessoal de apoio com dificuldade em saldar suas contas. Muitos dependendo de doações. O mercado cultural mundial foi imensamente atingido pela pandemia. A vida social é definida por uma diversidade de grupos, de aglomerações culturais em toda parte do planeta.

Os espaços públicos, cada vez mais associados ao lazer. Os bares tomam as calçadas para si e as pessoas, em mesas, amontoam-se para viver, sorrir, contar histórias. Segundo o sociólogo Michel Maffesoli (2002), “o indivíduo não pode existir isolado”,somando a esse pensamento, o lúdico e a comunicação trazem leveza e prazer à vida. Nesse movimento, o imaginário, o vivido em comum revelam as histórias dos indivíduos. No colorido das aglomerações cada um vai compondo os capítulos de suas vidas.

Os espaços culturais são territórios ricos no sentido de expressão e apreensão da arte, dos sentimentos que os artistas expressam. Sentires que reverberam no meio do povo que os frequenta. O ano de 2020 mudou a relação com a alteridade. O isolamento social, este novo elemento mundial, cria um novo ritmo de vida – estamos todos, numa relação com nosso interior. Vivendo um tempo de recolhimento, de driblar o medo e de rompimento ao modo de estar no mundo. Esvaziou-se todo o acervo cultural. Foi preciso reinventar as formas de viver a cultura, o prazer pelas artes, para superar a grave situação do planeta.

Esta pandemia marca a atualidade com dor e com amor. Janelas dos prédios, exibindo a magnitude do encontro humano com humano através de manifestações culturais. São atividades que dependem da aglomeração, do “estar junto com”, citando uma expressão do sociólogo francês Michel Maffesoli. São meses de privação na Europa, na Ásia, na África, nos Estados Unidos, na América do Sul, em toda parte.

Diante do risco de colapso, surgem formas para minimizar a crise do momento. Artistas fazem shows das janelas de suas casas e se apresentam pela internet. Recurso criado para aproximá-los do público e para suavizar a tristeza da situação. A solidariedade de alguns que se apresentam gratuitamente, enchendo de esperança as casas invadidas pelo medo do desconhecido amanhã. O fato é que todos os seres humanos estão diante de uma nova realidade. A sociedade mundial vivia num ritmo de consumo material e cultural, embora boa parte da população não tenha oportunidade de experimentar essa diversidade de eventos maravilhosos. De um momento para outro, como uma mágica, tudo mudou. O mundo passou a vivenciar combate com um inimigo implacável e invisível, capaz de privar a todos o esplêndido direito de movimentar-se , de sentir a proximidade do mar, de reunir-se num grupo festivo e até mesmo de sentir um abraço amigo.

A possibilidade de ação se reduziu aos aposentos domésticos. Há uma desacomodação social com repercussão em todos os setores da vida. O mundo no ano de 2020 passou de um desenfreado consumismo a uma imobilidade forçada. No inicio da pandemia, houve um momento de medo, todos os eventos culturais foram cancelados ou adiados como Lolla Paluza, no Brasil; festival Coachella, na Califórnia; Broadway League, em New York; feiras de livros entre outros. As novelas de televisão e toda a programação foi suspensa, dando lugar às reprises.

Até que os artistas chineses saíram à frente com transmissões ao vivo, online, as chamadas “lives”. Outros artistas de todo o mundo acompanharam a ação. Surgem os shows pela internet. O mundo assistiu na Páscoa, Andrea Bocelli, cantando no Duomo de Milão. Solitário e com sua voz grandiosa, emocionou a todos. Quanto significado aquela imagem, aquela voz trouxe para todos os que o assistiam. Lembrando Nietzsche, temos a arte para não morrer da verdade, traduzindo magistralmente o espaço que a arte ocupa na vida do ser humano. A beleza, a leveza que transborda na arte, nos direciona a outro olhar para momentos difíceis da vida.

Para superar o momento, outras possibilidades foram aparecendo na internet: visitas online a museus, livros, artistas cantando de suas casas, trazendo emoção para os corações tão afetados com o distanciamento provocado pela pandemia. O mundo cria novas formas de propagar a cultura. Antes da pandemia, as pessoas buscavam estar juntas, online, por ser uma forma mais prática e rápida, de comunicação. Sentia-se que havia certo distanciamento físico, provocado pelos celulares. Hoje, a comunicação online encheu-se de novos significados, com a chegada da saudade forçada pelo distanciamento necessário.

 

Por:

Marcia Mathias – Escritora, professora, mestra em Educação pela Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, Brasil.

Email: marciafleury@gmail.com.

Instagran: marmath65

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