Por detrás desta fotografia está uma pequena coisa. Uma pequena coisa que entre muitas outras, para mim, não é tão pequena assim, e que muito contribui para me ter apaixonado por Buenos Aires.
É comum e transversal a todos e cada um de nós, ao longo da vida, que haja um conjunto de pequenas coisas as quais, quando vistas, ouvidas, cheiradas ou vividas, nos enchem os pulmões de ar e nos plantam um sorriso rasgado no rosto. Como não fujo à regra, também comigo isso sucede. Em Buenos Aires há muitas pequenas coisas que despertam em mim um sentimento bom. Um daqueles sentimentos que nos enche as medidas, e que nos diz que afinal de contas a vida não é tão má assim, e merece ser vivida no seu máximo esplendor.
Por aqui há árvores em todo o lado, há espaços verdes a cada bloco. O som distante de música torna-se cada vez mais próximo à medida que nos aproximamos de uma praça ou de um novo quarteirão. Há uma mescla aparentemente saudável e harmoniosa entre vida local e turística, o sol que na maior parte dos dias se faz sentir enche-nos o espírito de calor e o corpo de vitamina, e o cheiro a churrasco que constantemente nos invade as narinas, vindo de toda a parte, torna os passeios por cá mais prazerosos e aromatizados. O acesso à cultura é fácil e tendencialmente gratuito, e a própria cultura sul-americana transporta-nos para um estado de boa disposição que não se sente em todo o lado. Em todo o caso, há uma pequena coisa que, entre todas estas, me desperta a atenção mais do que qualquer outra.
Aqui em Buenos Aires toda a gente tem cães. Sim, é isto. Vemos cães a passear por toda a parte, felizes e despreocupados, uns com trela e outros livres das amarras dos seus donos. Cães de todos os tamanhos, cores, portes e feitios, uns que ladram e outros que não, uns com pelo curto e outros a precisar de uma escovadela no seu longo cabelo, há de tudo. Cachorros, cães no pináculo da sua forma física, uns jovens e outros velhinhos, todos invadem diariamente as ruas de Buenos Aires para fazer da vida dos seus donos, assim como daqueles com quem se cruzam, uma vida melhor.
Por cá, toda a gente gosta de ter um cão. Vêem-se passeadores de cães com quatro, cinco, seis ou mesmo mais a serem passeados de uma só vez. Os parques e outras zonas verdes enchem-se de patudos a correr, livres e sem trela, à procura de um carinho ou um afeto de qualquer pessoa que por aqueles lados esteja a passar ou repousar.
Sempre fui de opinião que uma sociedade em que as pessoas gostam de ter cães é uma sociedade evoluída. Quer queiram ou não, as pessoas são forçadas a viver mais fora das quatro paredes da sua casa, dedicando uma parte substancial do seu tempo a algo ou alguém que não elas próprias, tirando os olhos dos seus próprios umbigos. Tornam-se mais pacientes, dóceis e conversadoras, já que levar os patudos à rua pode ser uma excelente forma de quebrar o gelo quando nos cruzamos com alguém.
Ver os nossos melhores amigos de língua de fora e a correr agitados rua fora, com os seus donos por perto, enche-me as medidas. Não consigo bem explicar o porquê, mas fá-lo, e tenho a certeza de não estar sozinho nesta posição. Quando vejo um patudo na rua, no café ou nos transportes públicos, começo imediatamente a sorrir. Isso leva-me a concluir que, entre as muitas pequenas coisas da vida que se agigantam para me fazer feliz, há uma ou outra que se destacam, e uma cidade cheia de cães alegremente a passear por toda a parte, é uma delas.
Por João Barros



