É certo que quando pensamos em Argentina e Buenos Aires somos instantaneamente levados a pensar em muitas coisas. Carne e churrascos, tango e pessoas a dançar na rua, gente a falar alto e boa disposição. Pensamos em arte, história, cavalos e gaúchos, magníficos edifícios de bradar aos céus e murais pintados em todo o lado. Pensamos em tudo isto e mais, muito mais.
Mas há algo que, em Buenos Aires, deixa uma marca evidente no ritmo da cidade, no bem-estar de quem por cá vive. Algo que domina todas as conversas, invade todas as televisões, que se estende a todas as lojas de recordações e que se faz notar numa grande parte dos murais pintados que se perdem pela cidade. Sim, é do futebol que falo. Do futebol em geral, da seleção argentina, do Boca Juniors e do River Plate, e em particular de um tal que dava pelo nome de Diego Armando Maradona.
Não há mãos a medir para o sentimento que os habitantes de Buenos Aires nutrem pelo conhecido D10S, autor da mão de Deus que deu a este país a sua segunda vitória num campeonato do mundo, tendo ultrapassado nos quartos de final os malditos ingleses de quem então se vingaram pela guerra nas Ilhas Malvinas. A paixão, o fanatismo, os equipamentos vestidos por toda a parte recordam mesmo os esquecidos que o futebol, aqui, desempenha um papel preponderante na vida das pessoas. Uma viagem ao bairro de La Boca em dia de jogo na La Bombonera, em que muitas horas antes do jogo há já gente por todo o lado, cânticos, cervejas e churrascos na rua, não deixa margem para dúvidas: esta cidade e este país vivem o futebol de maneira única, sem igual.
A paixão pelo futebol e pelos seus atores é tamanha que há inclusivamente uma igreja de Diego Armando Maradona que conta não com cem, nem duzentos, mas sim com mais de trezentos mil seguidores! Imagine-se a devoção ao homem que guiou à Argentina à maior vingança de que há memória, que, com recurso à batota, ridicularizou os britânicos (que na perspetiva dos argentinos, claro está, são vilões, ainda que em cada história haja sempre duas versões) depois de estes, estrategicamente, terem subtraído à Argentina as Ilhas Malvinas, colocando à disposição de Sua Majestade um ponto geográfico e militar estratégico que, imagine-se, contém ainda uma das maiores reservas de água potável do mundo.
Como se não bastasse o amor que os argentinos sentem pelo jogo jogado dentro das quatro linhas, durante grande parte da nossa estadia em Buenos Aires convivemos diariamente com adeptos brasileiros do Botafogo e Atlético Mineiro que ali se deslocaram para a final da Copa Libertadores 2024, disputada no estádio do River Plate.
Não que fosse necessário, mas a verdade é que durante a nossa estadia em Buenos Aires o espírito do futebol ficou ainda mais evidenciado. Olé!
Por João Barros



