Artigo

Quem diria? – Bunaken

Há uns meses atrás diria que era impossível. Que não iria acontecer, desse por onde desse. Foram anos a mais a lidar com a situação para agora, passados nem seis meses, já sentir falta dele. Mas as centenas de gotas de suor que me escorrem pelo peito e pela testa não deixam margem para dúvidas. Seria possível chegar-se a outra conclusão quando a falta de uma simples brisa não consegue sequer ser colmatada pela criação de uma corrente de ar artificial, daquelas que quando éramos mais novos nos ensinaram a todos a evitar? Todos se lembram do ‘fecha as janelas senão faz corrente de ar’, ou sou só eu?

Quando chega até nós, o ar proveniente da ventoinha ligada no canto do quarto teima em não refrescar. Como poderia fazê-lo, se mal começa o seu caminho é instantaneamente contaminado por milhares de partículas de calor intenso que apenas aguardam uma desculpa para me visitar? Esvaziada de qualquer utilidade, a ventoinha apenas fica no seu canto, olhando de um lado para o outro, confusa, emitindo um som repetitivo e aborrecido. Um som que, desconfio, contribui para o sentimento de exaustão que se começa a apoderar de mim. Com ou sem roupa, não faz qualquer diferença: estou condenado a transpirar como se tivesse acabado de correr uma maratona. Quem diria que um sítio tão paradisíaco como Bunaken poderia despertar uma saudade tão inusitada do frio?

É verdade, é mesmo isso que quero dizer. Não, não foi engano algum. Enquanto estas linhas se escrevem lenta e pesarosamente – com este calor é impossível que assim não seja -, invade-me uma súbita saudade do frio. Quando olho para a mochila com toda a roupa preparada para um ano estendida no chão, e que à exceção de um casaco mais quente apenas serve para dias solarengos, sinto instantaneamente falta de uma camisola de algodão. De ter de a escolher, entre as duas ou três que estão na gaveta do quarto lá em casa. Sinto a falta do movimento de colocar um cachecol à volta do pescoço sempre que preciso de ir à rua. Aquele movimento semelhante a quem põe uma gravata, mas muito menos formal, com menos nós – como devia tudo ser. Como é possível sentir saudade de abrir o armário e ter de escolher um casaco quente que tanto abrigue do frio como proteja da chuva, a qual, já se sabe, pode sempre vir a aparecer ainda que não seja convidada? Não há explicação.

Quão bom é recordar o prazer de ver o vapor de ar quente sair da boca quando vou à rua pela primeira vez num dia de inverno? Com um sorriso nos lábios, lembro-me do quão agradável é estar no conforto de um café tradicional, no centro do Porto, a ver as pessoas agasalhadas passar lá fora, cada uma delas imersa nos seus pensamentos. Ou do gozo que sinto quando, antes de um jantar com amigos, vou à porta do restaurante com o copo de vinho já a meio acompanhar alguém que insistiu em ir fumar antes da refeição – antes desta viagem, bem poderia ser eu o fumador em questão. Claro está que só se acompanha alguém nestes termos com uma condição: se pudermos ficar em baixo do aquecedor que, lá fora, alberga de forma amontoada todos aqueles que decidiram desafiar o ar gélido da noite.

Por aqui a t-shirt já só funciona como um leque improvisado. De forma desesperada tento afastar o sofrimento patrocinado pelos excessivos graus celsius que teimam em não partir. Sem sucesso. De repente, como se não estivesse quente o suficiente, percebo que me fazem falta as camadas. Não as da cebola, que dessas há muitas por cá. As camadas de roupa que, repetidamente, têm de ser despidas sempre que chego a algum lado no inverno. Ao café, ao trabalho, ao restaurante, a casa. A nostalgia de sentir o frio bater-me na cara pela manhã só é superada pela saudade de ter as mãos protegidas por luvas que, à custa da possibilidade de manusear habilmente o telemóvel no meio da rua, me protegem da nortada que até no meio dos prédios se faz sentir.

Quem diria que o deleite de ir a uma sessão tardia no Trindade, e ter de voltar a pé para casa no final da noite, ao frio, enquanto comentamos a dois o filme que acaba de passar na Sala 1, é ainda maior a quase meio mundo de distância? Tal travessia noturna pelas frias ruas do Porto vale sempre a pena desde que, depois de um banho quente ao chegar a casa, já com o pijama vestido me permita ser abraçado pelos cobertores que, pacientemente, esperaram acordados que chegasse a casa. Independentemente do quão tarde se faça.

No outro dia alguém especial descreveu desta forma a meteorologia do Porto: ‘a maior parte do ano andamos de casaco e de óculos-de-sol em simultâneo’. E não é que é mesmo assim que funcionam as coisas lá em casa? Embora pensasse que tal nunca iria acontecer, a verdade é que tenho saudades do frio. Dos dias em que tenho de tirar e pôr o casaco um número incontável de vezes, porque à sombra faz frio e ao sol faz calor. O frio está associado a uma forma de fazer as coisas e à minha maneira de encarar o quotidiano. E foi a essa forma de fazer as coisas, e a esse mesmo quotidiano, que me habituei, e de que apenas hoje me apercebi sinto falta.

Por João Barros

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