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Festival Materiais Diversos 2023

É já no próximo dia 5 de outubro que começa a 12ª edição do Festival Materiais Diversos. Sob os propósitos de desacelerar e tornar visíveis as pessoas, os lugares e os processos, o programa pretende continuar a aproximar as pessoas e as artes contemporâneas. As vilas de Alcanena e Minde acolhem, até dia 15, espetáculos de dança, teatro e música, instalações, conversas, um seminário e ações ambientais.

“O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, maciço calcário formado na era Mesozoica, com mais de 200 milhões de anos, é onde se inscreve o trabalho da Materiais Diversos. Esta escala temporal dificulta percecionar o lento movimento das rochas. E, no entanto, elas movem-se. Sob estas rochas calcárias, existe um dos maiores reservatórios de água doce subterrânea portugueses que ressurge, no inverno, no Polje de Mira-Minde. E, no entanto, ela escasseia.” Conta-nos Elisabete Paiva no seu texto de apresentação desta edição do Festival Materiais Diversos.
“Atenta ao tempo lento dos lugares onde se inscreve, a Materiais Diversos tem investido na desaceleração, na expectativa de trazer à superfície uma comunidade de afetos que se forma lentamente e sustenta em práticas de companheirismo e colaboração. O Festival Materiais Diversos é a alegria que transborda dessa prática continuada.”
O programa do Festival Materiais Diversos é um reflexo e um momento em que o trabalho, muitas vezes invisível, de relações, acompanhamento e apoio à criação emerge e se torna visível. Ao longo de dez dias, as propostas são vastas e variadas.

De 5 a 20 de outubro, na Casa da Cultura de Alcanena estará patente a exposição Corpo Comum que decorre de um trabalho que se consolida desde 2017. A Materiais Diversos desenvolve oficinas artísticas regulares no Agrupamento de Escolas de Alcanena. Estas oficinas, orientadas por Marta Tomé e Raquel Senhorinho, foram entretanto organizadas como projeto – Corpo Comum – e procuram valorizar a diversidade como património e como direito, com o objetivo de alargar o horizonte de possibilidades das crianças e jovens e de contribuir para a sua autoestima, sentido de pertença e reflexão crítica. Nelas, o corpo e a dança são a base de todas as sessões.

Nesta exposição, é partilhado com a comunidade o trabalho desenvolvido no ano letivo 2022/23, que se inspirou no tema da felicidade, na perspetiva de “tornar visível o invisível” e de construir um saber partilhado, um “corpo comum”.
A 5 de outubro, às 19h30, também na Casa da Cultura de Alcanena, Cátia Terrinca e a UMCOLETIVO, apresentam o espetáculo Decadência. Há 100 anos, Judith Teixeira escreveu Decadência – um conjunto de poemas de amor, lavrado no silêncio abrasado da carne. Luísa Demétrio Raposo diz agora, com a carne e o sangue, que “toda a escrita é sexo”. Decadência é um espetáculo sobre fogo e, através dele, desencadeiam-se perguntas. Que calor é este que incendeia as mulheres e as faz renascer transfiguradas? Poderemos responder à violência histórica do gesto de quem queima uma mulher por ter amado? Afinal, quem é que queima quem?

No dia seguinte, 6 de outubro, o programa comporta três momentos. Logo no início da tarde, Natália Mendonça apresenta o espetáculo KdeiraZ que desafia públicos de todas as idades a refletir sobre cadeiras. Às 18h, na Biblioteca Municipal de Alcanena, inaugura a instalação Mil e Uma Noites, de Cátia Terrinca/UMCOLETIVO. Haverá uma conversa com as autoras e a equipa artística do projeto. E às 20h, o bailarino e b-boy Benoît Nieto Duran faz um workshop para estudantes no Estúdio de Dança de Alcanena.

KdeiraZ é um espetáculo de dança para crianças de todas as idades que busca aproximar a pesquisa em dança contemporânea da criação artística para o universo infantil. A cadeira é protagonista nesta viagem. Em cena, as performers deparam-se com cadeiras comuns e fantásticas e ficam curiosas por descobrir quais as possibilidades de brincadeiras que cada uma, com a sua forma e personalidade, pode propor. É apresentado no Largo da Igreja, em Minde, dias 6 (14h30, sessão para escolas) e 7 de outubro (16h para o público, em geral).

Mil e Uma Noites é um projeto cívico e artístico de longa duração que, através do teatro radiofónico, resgata do esquecimento a obra de mulheres portuguesas do século XX. Em Alcanena, mulheres de várias gerações foram convidadas a revelar a sua atividade de escrita, mas também a partilhar as histórias e contextos de vida em que a desenvolveram. Depois de uma residência artística e apresentação pública em setembro, a peça de teatro radiofónico criada a partir destas vozes, regressa à Biblioteca Municipal de Alcanena na forma de uma instalação sonora que pode ser visitada até 20 de outubro.

Em estreia nacional, a performance instalação Las Lámparas, de Leticia Skrycky é apresentada no Cine-Teatro São Pedro, em Alcanena, no dia 7 de outubro, às 16h30 (repete às 18h e às 19h30).
Há vários anos que esta criadora uruguaia tem vindo a explorar as potencialidades da luz. Como podem os olhos tocar? Como podem os ouvidos ver? Como pode a pele ouvir? Guiada por estas perguntas, associadas a ecosistemas de percepção relacionais, em Las Lámparas procura oferecer um lugar para um olhar periférico e vibrátil. É um convite para um estado de atenção aberto a receber o visível e o invisível. No espaço cénico do teatro, apresenta-se uma coreografia elétrica, onde o som move a luz e a luz, por sua vez, soa, aquecendo todo o meio envolvente.

Black Box 2.0 tem origem num projeto de formação e desenvolvimento em criação coreográfica, iniciado pela associação O Corpo da Dança em parceria com o Estúdio de Dança de Alcanena. No âmbito deste projeto, os alunos desenvolvem criações coreográficas e, na semana que antecede a sua apresentação pública, experimentam um período de residência no teatro, trabalhando em conjunto com a equipa de produção deste, ao nível das montagens técnicas.
Nesta edição de 2023, a literatura é o tema genérico de pesquisa para todos os trabalhos coreográficos. As criações que se apresentarão no Jardim da República, no dia 7 de outubro, às 18h, emergem deste tema.

Para o público da primeira infância (bebés e crianças até aos sete anos, aproximadamente), a proposta é Traquinar! Esta palavra, que significa “brincar” em calão minderico, denomina o projeto de apoio à integração de crianças na natureza que visa devolver-lhes a possibilidade de brincarem na rua, de forma segura e autónoma. Nos dias 8 e 15 de outubro, entre as 10h e as 12h, o Projeto Traquinar ocupa o Polje de Mira-Minde, com duas sessões. O contacto para mais informações é: projeto.traquinar@gmail.com.

Didascálias ou como se constrói uma casa surge do encontro entre Leonor Mendes (PT), Giovanna Monteiro (BR), Vicente Antunes Ramos (BR), conta com a colaboração artística de Isis Andretta (BR) e foi apoiado, em 2023, no âmbito da bolsa Fios do Meio da Materiais Diversos. A sua estreia é dia 8, às 16h30, no Ginásio da EB 2/3 de Minde.
A partir das didascálias de textos clássicos do teatro, este trabalho busca revisitar os espaços domésticos presentes nos textos e o imaginário de “casa” que carregam. Duas intérpretes jogam com as palavras e com o tempo e assim constroem outros espaços, figuras, relações. O desenrolar deste jogo de construir e desconstruir deixa a pergunta em suspenso: o que se pode imaginar a partir dessas palavras que foram escritas para não ser ditas?

Também a 8 de outubro, às 18h, no acolhedor jardim do Museu de Aguarela Roque Gameiro, em Minde, Bernardo Branco partilha “Cantar de Ouvido”, álbum a ser lançado brevemente, no qual florescem sonoridades que confluem entre música popular e urbana e que aborda o dia-a-dia, os desamores passados, a queda de cabelo, as festas populares e o êxodo rural.
Na música deste jovem cantautor, as batidas são construídas com recurso a sons da garganta, adufe, um drumkit de hip-hop, ao ritmo quebrado da cana rachada e a ad-libs. O Auto-Tune é usado como recurso expressivo, com o atrevimento de estar presente em alguns dos momentos melismáticos próximos do fado.

A 11 e 12 de outubro, para os alunos do Agrupamento de Escolas de Alcanena, há Coreografia em sala de aula. Declinação de Coreografia, de João dos Santos Martins, conta com a participação de Adriano Vicente e coloca em diálogo diferentes linguagens em torno da dança. O desafio é a passagem do corpo para o papel e do papel para o corpo, num jogo de vice-versa: “dançar” uma língua e “falar” uma dança.

No dia 12, a programação decorre no Centro Ciência Viva do Alviela. Às 21h30 é projetado o filme Habiter Le Seuil, de Marine Chesnais e Vincent Bruno.
Verão de 2020. Marine Chesnais, coreógrafa e bailarina de dança contemporânea, viaja para a Ilha da Reunião para encontrar baleias-corcundas. Destas interações no azul profundo nasceram danças improvisadas, que serão terreno fértil para a sua próxima criação. Este filme, filmado em apneia, é uma viagem coreográfica e hipnótica que nos leva ao mundo subaquático, sustendo a nossa respiração, seguindo os passos deste projeto original.
Nesta noite, é possível jantar no CCV Alviela (19h30 – 21h), mediante reserva até 24h antes, pelo preço de 8€. O jantar é volante e há opções vegetarianas.

Dia 13, às 21h30, no Cine-Teatro São Pedro, Gio Lourenço traz-nos Boca Fala Tropa, um espetáculo que parte dos passos e dos códigos do kuduro para cruzar elementos da memória individual com elementos da memória coletiva, colocando assim à vista trânsitos entre Angola e Portugal. O kuduro surge nos anos 90, em Luanda, no contexto da guerra civil angolana. Os códigos específicos deste estilo de música/dança chegavam a Portugal através do corpo e das cassetes dos que transitavam entre estes dois países. É na adolescência, no final dos anos 90 e já a viver em Portugal, que Gio Lourenço entra em contacto com este universo e se torna kudurista, descobrindo um corpo partido – o seu – onde a memória se reinventa no gesto. O espetáculo contará com o músico Xulaji em palco.

A 14 de outubro, às 16h30, no Ginásio da EB 2/3 de Minde, teremos La Burla, resultado da parceria entre Bruno Brandolino (UY) e Bibi Dória (BR), em colaboração com Leticia Skrycky (UY), e que foi apoiado pelos Novos Materiais em 2021.
La Burla é uma ficção coreográfica que acompanha duas figuras situadas numa realidade distópica. O encontro entre o sagrado e o profano toma forma em rituais e invocações de entidades que emergem das profundezas. Santas, bruxas, videntes, diabos, monstros e heroínas atravessam o imaginário desta peça, dando voz e corpo a um variado repertório iconográfico medieval. O espetáculo é seguido de conversa.

All in the Air is Bird, performance de María Jerez e Élan d’Orphium, parte do pressuposto que nenhuma presença é neutra e entende que os pássaros são seres com quem partilhamos territórios, acontecimentos e histórias, numa invocação em forma de concerto experimental a partir do canto dos pássaros ao pôr-do-sol. Decorre a 14 de outubro, às 18h30, no Museu de Aguarela Roque Gameiro, em Minde.

Outra performance, O Banquete das Saudades é uma refeição, uma instalação, uma situação, uma coleção: a receita como reativação de uma “saudade” e motor de uma situação de partilha. Este jantar performance, que acontece na sede do ABC, em Alcanena, também dia 14 com início às 20h, é uma proposta para estimular os sentidos de todas as pessoas. A partir de um pedido de receitas que, de algum modo, transportassem saudades feito à comunidade, Anne Lise Le Gac e uma pequena equipa de cozinheiros amadores de França e Alcanena irá preparar uma seleção destas receitas, cozinhá-las e combiná-las no menu Saudades. Num espaço de acesso aberto, os visitantes, que se tornam convidados, vão experimentar esses pratos. O Banquete das Saudadesdesenrola-se lentamente, com petiscos e degustações, e termina quando os seus recursos se esgotam.

No dia seguinte, 15 de outubro, às 16h30 no Polje Mira-Minde, Elisabete Francisca Fortemente baseada no verso “eu não obedeço porque sou molhada”, da canção “Banho”, interpretada por Elza Soares, Elizabete Francisca propõe enunciar, através de gestos e sons, uma representação possível da geografia política de um corpo não submisso. Neste espetáculo de dança, a criadora usa o corpo como arma política e reivindica um lugar de resistência, transformando possíveis fragilidades em flechas e potências.

Para encerrar o festival, também no dia 15, às 18h, teremos o concerto de chica, “em banda”, numa das praças emblemáticas de Minde, a Praça Alberto Guedes. As sonoridades do folk, anti-folk e jazz em parelha com o elemento principal da sua música – o diálogo –, compõem o estilo musical de chica.
“Brincar com o Cão” (2020) foi o primeiro single do seu projeto a solo. O EP “Cada Qual no seu Buraco”, composto entre o Minho e Lisboa ao longo de dois anos, foi lançado em 2022. Em concerto partilha as canções que foram sendo escritas e pensadas à sombra do desencantamento sobre a vida adulta, da gestão da sobrevivência, mas também das palavras de Fausto de “que atrás de tempos vêm tempos e outros tempos hão de vir”.

Em parceria com o Movimento Mira-Minde, estão programados três eventos no dia 15. Das 8h às 12h, a proposta é uma Limpeza de Caminhos no Polje Mira-Minde. Das 9h às 15h, na Fábrica da Cultura de Minde, há o Mercado da Bagageira e dos Produtos Locais, concebido sob a política dos 3 Rs: Reduzir, Reutilizar e Reciclar, e com a proposta de nos aproximarmos cada vez mais de um estilo de vida sustentável. No mesmo local, das 13h às 15h é hora de almoçar no Eco-Piquenique Partilhado & Sem Desperdício. A ideia é partilhar e construir uma relação saudável com o planeta.

Regressam também as mesas longas, organizadas estreitamente com atores e parceiros locais e, por isso, trazem à discussão temas do seu interesse, como o papel das comunidades de aprendizagem na educação, a conservação dos rios e ecossistemas ribeirinhos, o futuro dos jovens e o papel das instituições culturais.
Continuando a afirmar-se como espaço imersivo e desacelerado para o encontro entre profissionais, o festival realiza este ano o seminário Companheirismo e colaboração — práticas artísticas para a sustentabilidade, que procura fomentar práticas colaborativas de reflexão crítica e experimentação entre as pessoas participantes. A orientar os trabalhos estarão Carolina Cifras, Simone Frangi e Clara Antunes que se debruçam sobre diferentes dimensões, entre elas, as práticas ecossomáticas em torno do ser/corpo, a revisão crítica da noção de hospitalidade no âmbito da curadoria, e a reflexão sobre o papel das práticas artísticas face ao colapso climático e ecológico.

Ponto de Encontro do Festival Materiais Diversos este ano divide-se entre as Festas Populares de Alcanena, no primeiro fim de semana (5-7 outubro) e o Cine-Teatro São Pedro de Alcanena (entre 10 e 14 de outubro). Aqui poderão degustar-se iguarias locais, beber e brindar, conversar e dançar. As noites de 13 e 14 prometem ser longas, alimentadas pela vibração de DJs que prolongam o espírito de cada jornada. No dia 13, às 23h, os DJs Borga e Laurix, com batidas duras e ritmos acelerados, complementados com melodias alegres e imersivas. A 14, à mesma hora, o DJ Kino assume o comando da pista e propõe-nos que voemos com ele. O Ponto de Encontro é o espaço de convívio e encontro entre a comunidade local, a comunidade artística, equipa e parceiros do festival.

 

Fonte: Materiais Diversos

 

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