Quase duas décadas depois de ter sido obrigado a abandonar o espaço do Armazém do Hospital Miguel Bombarda, onde trabalhou e apresentou espetáculos durante vários anos, o Teatro Praga regressa a este espaço, agora renovado e transformado na nova Sala Estúdio Valentim de Barros, para estrear Audição, a nova criação da companhia, que celebra o 30.º aniversário neste ano de 2025. De 11 a 20 de julho, Audição estará em cena na Sala Estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, em Lisboa, com 8 sessões, sempre às 19h.
No âmbito das comemorações dos 30 anos do Teatro Praga, companhia fundada em 1995, o Teatro Nacional D. Maria II convidou a companhia a regressar temporariamente ao antigo Armazém do Hospital Miguel Bombarda (agora, Sala Estúdio Valentim de Barros). Contudo, os tempos são outros, as intervenções sobre o edifício e a cidade alteraram o contexto e a arquitetura. Da mesma forma, o Teatro Praga já não é o Teatro Praga. Este regresso sem retorno lançou o mote para o novo espetáculo da companhia: Audição.
Nesta criação, o Teatro Praga faz-se ouvir pelo que foi e pelo que é: um coletivo simultaneamente dentro e fora de uma ideia de teatro, procurando uma relação de resistência específica com os lugares, os corpos e as disciplinas. O Teatro Praga entrará sempre no espetáculo errado e Audição é por isso um casting onde só pode haver engano, porque o que se procura não existe. Sem limite de idade, exigências físicas ou profissão, esta audição tem tudo para correr mal, uma vez que é isso mesmo que se quer. É no desencontro entre a expectativa e o presente, entre passado e futuro que se constrói esta Audição.
Um espetáculo Teatro Praga (companhia dirigida por André e. Teodósio, Cláudia Jardim, Diogo Bento e José Maria Vieira Mendes), Audição conta com música original de Alex D’Alva Teixeira e interpretação de André e. Teodósio, Ângelo Castro, Cláudia Jardim, Diogo Bento, Inês Vaz, Joana Barrios, João Duarte Costa, José Maria Vieira Mendes, Júlio Mesquita, Paula Diogo e outras pessoas convidadas.
Dirigido a maiores de 18 anos, Audição é um espetáculo duracional, que se desenrola ao longo de 4 horas, sendo permitida a entrada, saída e reentrada de espectadores durante cada sessão. Em cena de 11 a 20 de julho, nos Jardins do Bombarda, o espetáculo contará com Audiodescrição e interpretação em Língua Gestual Portuguesa na sessão de dia 19 julho, sábado, às 19h.
Uma audição onde não se pretende ficar
Audição parte de uma memória específica do Teatro Praga: uma audição realizada há anos atrás precisamente no espaço que ocupavam no Hospital Miguel Bombarda, onde também se deu o encontro com Diogo Bento, hoje membro da companhia. Esta nova criação propõe um regresso simbólico a essa experiência, mas não para uma recriação ou nostalgia revisitada ou para se deter nela.
A peça rejeita qualquer ideia de celebração canónica ou de patrimonialização da trajetória do Teatro Praga. Em vez disso, afirma-se como uma Audição que é um “falhanço” e que se torna motor de reflexão sobre a própria memória e sobre os 30 anos da companhia. Um “worst of”, desmontando o valor dado a certas referências anteriores que hoje já não fazem sentido para os seus criadores e um gesto deliberado de não validação, nem do espaço, nem da história da companhia, alinhado com a prática crítica e experimental que sempre caracterizou o Teatro Praga.
A audição, enquanto dispositivo dramatúrgico, é também alvo de desconstrução. Mais do que um processo de seleção, ela é usada aqui para expor estruturas de poder, a lógica capacitista e as relações hierárquicas que habitualmente atravessam uma audição que procura pessoas para preencher um lugar já definido. O espetáculo procura desmontar essa lógica, colocando pessoas a fazer uma audição para algo que está errado – no sentido em que o foco está em quem faz a audição e não em quem está à procura.
Fonte: tndm.pt




