Sob o Manto da NOSSA SENHORA – Colecções de Arte Russa em Portugal

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Introdução

A exposição apresenta ícones russos de temática mariana dos acervos do Museu Nacional Grão Vasco em Viseu (legado Ana Maria Pereira da Gama) e do Museu Municipal dos Condes de Castro Guimarães em Cascais (legado Pedro Vieira da Fonseca. As representações icónicas da Virgem no calendário da Igreja Ortodoxa Russa atestam a presença de 860 diferentes iconografias, fruto de intensa veneração de um povo que crê que o Seu manto o protege, mesmo em épocas dramáticas. Este poder devocional é lembrado em crónicas, novelas, narrações, e em serviços litúrgicos que glorificam os ícones da Senhora. Ao Cristianismo, religião oficial instaurada no século X, associou-se também, oriunda de Bizâncio, a teologia do ícone. A Igreja venera-os não só como ilustração das Santas Escrituras mas como procedimento para atingir a revelação divina. Por isso chamam-se aos ícones “teologia em cores”. A Fé dirigida à Virgem tornou-se traço identitário da consciência religiosa russa; a integridade do Estado, desde a independência, uniu-se à imagem da Virgem. Muitas igrejas são dedicadas aos tipos de ícones marianos e às festas que lhe são consagradas. Entre as peças expostas vemos as Senhoras de Vladimir, Kazan, Tikhvin e Smolensk. Tais ícones remetem para as cantigas litúrgicas, a veneração da Virgem Protetora da toda a humanidade, os ícones Manto da Senhora e os que ilustram passos da vida terrena da Virgem.

Núcleo I — Vida terrena de Nossa Senhora

Os Evangelhos de São Mateus e São Lucas aludem à vida de Nossa Senhora. A tradição da Igreja, os escritos apócrifos e o Proto Evangelho de Tiago afirmam que São Joaquim e Santa Ana eram um casal idoso, descendente de David. Após o milagroso nascimento de Maria, consagraram-na ao serviço no Templo. Escritos apócrifos falam do noivado com José e da vida modesta em Nazaré. O Novo Testamento inicia-se com o anúncio do arcanjo S. Gabriel e regista o papel de Maria em eventos da vida de Jesus, da Natividade Ascensão. Segundo os textos canónicos, está presente nas Bodas de Caná e no passo da Dolorosa no Calvário. Os textos, canónicos e apócrifos, atestam a humildade e perfeição de Maria. Os passos da vida terrena são comemorados nas festas anuais: Nascimento da Virgem, Apresentação no Templo, Anunciação, Nascimento de Jesus e Assunção. A cada celebração coincide uma iconografia que reflete a liturgia do dia, o que torna os ícones marianos polissémicos pelas múltiplas particularidades simbólicas. Já na iconografia bizantina a vida da Senhora origina um tipo de composição de ícones, em que este pregava a mesma verdade que o Evangelho: a imagem não só ilustrava o texto como correspondia ao seu ponto de vista dogmático. Qualquer cena da vida de Maria identificava-se com a realidade sacralizada, que decorre fora do tempo e do espaço, sem futilidade ou dispersão, prolongado pela Eternidade.

Núcleo II — Antigo Testamento e imagens simbólicas da Virgem

Se a história da vida terrena de Maria começa com a Natividade da Virgem, em Nazaré, o destino divino da Mãe de Deus encontra-se em todos os livros do Velho Testamento. As profecias vetero-testamentárias dos ícones com a vida da Senhora tiveram grande influência na simbologia das imagens cristãs. Papel específico assume a ilustração dos livros do Velho Testamento, como o Livro dos Salmos, onde se citam as profecias sobre Maria. A difusão da iconografia da Sarça Ardente liga-se ao texto do Livro do Êxodo que relata a visão de Moisés ao surgir-lhe a sarça, de onde Deus Pai falou com Moisés, que simboliza a Virgem, que dará à luz Jesus Cristo. Evocação de uma das profecias do Velho Testamento é a Virgem do Livro de Isaías que diz: O Senhor mesmo vos dará um sinal: a Virgem ficara grávida e dará à luz um filho, e chamá-lo-á Emanuel. As palavras de Isaías estiveram na base de uma das tipologias da Senhora com o Menino – a Virgem do Sinal. Na iconografia bizantina e russa encontra-se a Virgem da Abençoada Fonte de Vida. O protótipo foi um ícone célebre em Constantinopla, cuja composição evidenciava a sua dependência face aos textos do Velho Testamento. Nos textos dos Patriarcas da Igreja, a Senhora é chamada fonte da vida que nunca se esgota, bem-aventurança do Espírito Santo que mata a sede das almas. Por isso o ícone Virgem da Abençoada Fonte de Vida representa a Mãe de Deus dentro de um cálice, emergindo de um manancial de água da vida que cura os doentes. A comparação de Maria como Casa Verdadeira de Cristo com a imagem do Templo onde se inscreve a Sabedoria Divina tem origem em passagens do Velho Testamento como o Livro da Sabedoria (de Salomão). Tais passagens também falam das profecias sobre a encarnação do Verbo – um dos mais importantes dogmas do cristianismo –, lidas nas festas da Senhora.

Núcleo III — Imagens de Nossa Senhora na liturgia e a iconóstase russa

Não é possível falar das imagens de Nossa Senhora sem ter em conta a sua ligação com a missa. Cada ícone tem conteúdo litúrgico concreto e coincide com um momento da missa ortodoxa. A designação de alguns está ligada à liturgia, celebração do sacramento da Eucaristia. Na Igreja Ortodoxa considerava-se como ícone mais importante a Alta Iconóstase russa, onde se distribuem vários temas, separando o espaço do altar e revelando aos fiéis a essência do sacramento. Três portas, as do centro chamadas Portas Régia, davam ao sacerdote acesso ao espaço sagrado. Cada nível da iconóstase demonstrava a história e o caminho de Deus. Através da Alta Iconóstase uniam-se a Igreja do Céu e a Igreja Terrena e a Virgem atingia a divindade perfeita no contexto artístico-simbólico da iconóstase. As portas centrais da iconóstase (Portas Régias) mostravam sempre a Senhora, a Entrada da Salvação.

De um e outro lado das Portas Régias expunham-se ícones da Senhora e de Jesus, transmitindo a ideia de que assim se abre o Reino dos Céus. A distribuição dos ícones no iconóstase é sempre hierarquizada: forma um sistema de símbolos que reflete o caminho da salvação e perfeição espiritual. Acima das Portas Régias encontra-se a Déesis (do grego, “oração”, “súplica), onde Cristo Pantocrator, Juiz Soberano, rodeado da Senhora e São João Baptista, os arcanjos, Apóstolos e Profetas, enfatiza um papel mediador. Por isso, o Déesis, ao destacar ao centro Cristo, a Senhora e São João, evoca o Juízo Final e expressa o simbolismo do iconóstase com significado litúrgico, chamando à oração, contrição e arrependimento.

Núcleo IV — Ilustração de cânticos de veneração de Nossa Senhora

Surgida na época bizantina, a poesia litúrgica atingiu ponto de desenvolvimento nos séculos VIII-IX. Os cânticos e hinos litúrgicos dedicados à Senhora foram compostos por São Romano, o Melodista (fim do séc. V e início do VI), pelo teólogo, poeta e compositor São João Damasceno, e por Cosme Mayumsky (séc. VIII). Um dos cânticos para glorificar a Senhora é o Acatisto (em grego akáthistos, “que não está sentado»), cantado em pé. O Acatisto à Mãe de Deus é cantado na missa especial no sábado da quinta semana de Grande e Santa Quaresma. Calcula-se que o Acatisto foi criado nos sécs. V-VI por São Romano, o Melodista. Lugar especial entre os ícones que ilustram os cânticos tem a Senhora Pokrov ou do Manto Protetor de Nossa Senhora. A razão de ser desta iconografia foi a criação na Rússia da celebração Pokrov (1 de outubro), desconhecida na prática bizantina, que decorreu sob tutela do príncipe André Bogolubsky ao erguer um novo centro religioso nas cidades de Vladimir e Suzdal, sob proteção da Senhora. Mais tarde, a celebração ultrapassou o principado de Bogolubsky e passou a ser celebrada em toda a Rússia. O ícone baseia-se no texto de Santo André Yuródiviy (sécs. IX-X), traduzido para russo nos sécs. XI-XII, e narra o milagre da aparição da Virgem na Igreja de Vlaherne em Constantinopla onde se guardava a casula da Virgem. Durante a missa, Santo André Yurodiviy e o seu aluno São Epifânio viram a Senhora, rodeada de anjos e São João Evangelista e São João Baptista, a lançar o manto de proteção sobre os fiéis. Na exposição mostram-se três versões da Senhora Pokrov (MNGV). O ícone Pokrov (MNGV Inv. 3219) representa a narrativa mais fiel à versão de Novgorod. Em cima, a Senhora, em pose de orante, paira sobre as Portas Régias e transporta o véu branco. Em baixo, como testemunhas do milagre, Santo André e Santo Epifânio. Acima da Virgem, os arcanjos Gabriel, Miguel e Rafael. Na parte inferior, São Romano o Melodista, poetas de hinos da Igreja bizantina. Na criação desta iconografia terá havido influência da cerimónia semanal de levantamento do véu do ícone da Senhora de Vlaherne, conhecida dos peregrinos russos desde o séc. XII.

Núcleo V — Imagens de Nossa Senhora em ícones mais conhecidos e venerados

Segundo a lenda, as primeiras imagens da Virgem Hodegetria devem-se ao Evangelista S. Lucas: o retrato da Senhora viria a inspirar todas as imagens posteriores do mesmo tema. Não por acaso, S. Lucas pintando a Virgem foi largamente usado na arte bizantina e na Rússia antiga e, também, na pintura católica, sobretudo após a Contra-Reforma. A Igreja sempre atribuiu grande importância às imagens da Virgem e prova disso é a festividade do Triunfo da Ortodoxia, celebrado no primeiro domingo da Grande e Santa Quaresma, que de modo particular enaltece os ícones no contexto ortodoxo. Os ícones mais importantes nesta celebração são os de Mandylion de Cristo e da Virgem Hodegetria. A variedade das representações da Theotokos (Mãe de Deus) reduz-se a poucas composições anteriores à perseguição iconoclástica (726-787) e ganha nova vida com o restabelecimento do culto das imagens (Concílio de Niceia, 787). Uma das mais antigas imagens bizantinas considera-se ser o ícone Orante, com a Virgem em posição frontal, erguendo as mãos em receção da encarnação do Verbo Divino. No peito mostra um disco ou auréola luminosa, abençoando Jesus (Emanuel) com a mão direita. As primeiras representações conhecidas datam do séc. IV, generalizando-se a partir do séc. VI a partir de Constantinopla. Na Rússia, a este subgrupo pertence o conhecido ícone da Virgem do Sinal de Novgorod. Na exposição destacam-se versões da Virgem do Sinal (MNGV Inv. 3224; MNGV Inv. 3180; Virgem Znamenie, MCCG-PVF 15).

A iconografia de Virgem Entronizada é majestosa e tem expansão em toda a Cristandade, desde Constantinopla. Era-lhe aliás, dada posição central nas igrejas bizantinas, como em Santa Sofia. Pertence ao subgrupo de Panacranta, (Senhora Toda Misericordiosa). O ícone mais conhecido do subgrupo é a Senhora Vsetsaritsa, ou Monarca do Todo (séc. XII), no Mosteiro Votaped, no Monte Athos. Na Rússia, a iconografia de Virgem Entronizada é mais conhecida através da Mãe de Deus Kievo-Pecherskaya (MNGV inv.3156). O terceiro subgrupo é o da Eleousa ou Umilenie, conhecida como Virgem da Ternura, em que o Menino abraça a Mãe. O ícone mais relevante é a Mãe de Deus Vladimirskaya (da cidade de Vladimir, de onde recebe o nome), considerada protetora da Rússia. Deste subgrupo destacam-se as peças: Senhora Vla- dimirskaya (MNGV inv.3153), Mãe de Deus Feodorovskaya (MNGV Inv.3240) e Virgem Pochaevskaya (MCCG-PVF 2). Esta última peça (MCCG) está datada (1883) e foi pintada no Mosteiro da Assunção da Santíssima Virgem de Pochaevsk. É importante, do ponto de vista histórico, por coincidir com a coroação do Imperador Russo, Alexandre III e da Imperatriz Maria Feodorovna.

Um grupo mais vasto dos ícones exposto, a Virgem com o Menino designada Theotokos Hodegetria (literalmente Mãe de Deus que mostra o Caminho) é a iconografia mais solene e divulgada na ortodoxia russa, assumindo profundo significado teológico e simbólico. Existem variantes, sendo a Mãe de Deus representada a meio corpo, em busto ou a corpo inteiro. Mais comum é a Virgem representada a meio corpo com a cabeça ligeiramente inclinada para o Menino e conduzindo o olhar do espectador para Seu filho, “Caminho da Salvação”. Jesus abençoa com a mão direita (e, outras vezes, com o rolo das Escrituras). Considera-se que esta iconografia remonta a uma antiga imagem oriunda do Mosteiro Hodegon, de Constantinopla. Expõem-se várias peças desta categoria, como os ícones Mãe de Deus das Três Mãos (MNGV Inv. 3147), Mãe de Deus da Bênção do Céu (MNGV Inv. 3291), Mãe de Deus Iverskaya (MNGV Inv 3171), Virgem de Smolensk (MCCG-PVF 3) e Virgem de Tikhvin (MCCG-PVF 4).

 

Por Irina Marcelo Curto

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