Quero ter educação digital

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Nos últimos anos, a comunicação tem vindo a ganhar um peso cada vez mais relevante, em todas as dimensões, deixando de ser percecionada como ferramenta     secundária dispensável, frequentemente cilindrada pelo marketing, para passar a ser considerada um serviço fundamental para qualquer empresa, instituição pública ou privada, partido político, grupo de pressão, etc. Há dois fatores centrais que explicam esta evolução e que têm contribuído para tal engrandecimento: o custo e a eficácia. Por um lado, a crise financeira que o mundo ocidental viveu a partir de 2008, sentida de forma muito expressiva nas economias periféricas, atingiu mercados menos relevantes, como Portugal, com uma fortíssima machadada financeira.

Os orçamentos de marketing caíram a pique e as empresas e as instituições tiveram de contemplar outras formas de impactar consumidores e públicos com muito menos recursos. Por outro lado, o espaço público cresceu vertiginosamente nas últimas duas décadas. A internet surge como um meio de fácil acesso, capaz de albergar uma infinidade de conteúdos, sem limitações de páginas, de segundos ou de frames, em oposição aos meios de comunicação tradicionais. Vivemos um momento em que todos passaram a ter a possibilidade de conquistar um público, dirigir-se a um fórum onde podem expressar, livremente, as suas opiniões, desempenhar, por vezes, o papel de jornalistas e a ter, não só acesso a um oceano de informação, mas também a capacidade de produção e difusão de conteúdos que impactam a sua rede. Os mais brilhantes têm hoje direito ao título de “influenciadores digitais”.

Estes novos agentes, influenciadores nas mais diversas áreas, são uma das muitas ferramentas que a comunicação e o marketing digital limaram a partir das serralharias contemporâneas: as redes sociais. Com efeito, estas nossas novas melhores amigas martelam-nos com conteúdos sem limite de espaço e de fronteiras que beneficiam, em muito, as aparafusadoras de mensagens estudadas, com fins comerciais., encaixando quase sempre o parafuso na porca certa. Uma maravilha!

Contudo, este novo paradigma tem, a meu ver, uma consequência imediata que merece uma reflexão profunda: como poderemos garantir a credibilidade e vera- cidade da mais variada informação que consumimos diariamente? Refiro-me nomeadamente a conteúdos informativos, refiro-me a notícias. A crescente propaga- ção de conteúdos, geralmente percecionados pelo consumidor mais desavisado como artigos jornalísticos, supostamente filtrados por um jornalista profissional, produzidos a partir de fontes credíveis, são, muitas vezes, conteúdos com um objetivo publicitário, difundidos por influenciadores cuja agenda é desconhecida pelo público em geral. Seria ingénuo pensar que a comunicação não se baseia em influência de comportamentos mas este novo espaço público, oferecido pela imensidade do mundo digital, deverá forçar-nos a uma ponderação sobre a forma como estamos a ser manipulados, com a agravante do instalado desconhecimento generalizado por parte dos cibernautas da quantidade de dados pessoais que fornecem, de forma inconsciente, às empresas tecnológicas sempre que navegam na internet.

Quando na posse dos grandes players do mercado este “ouro digital” é transformado nos fios que manobram decisões, comportamentos e consumos. As clouds e os servidores sabem tudo sobre nós! Sabem mais do que os nossos pais, sabem mais do que os nossos amigos. Há muito que a Comissão Europeia está de dedo em riste e tenta monitorizar os movimentos dos gigantes tecnológicos mas de certa forma o leitor, o leitor-consumidor, está muito longe de perceber as implicações que resultam de uma utilização imprudente da internet. A apatia política em relação a esta questão é evidente, por isso, é urgente explorar um novo ramo da pedagogia.

Quero ter educação digital.

Por António Ferrari

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