Artigo

POSTAIS PERDIDOS

Voltei a onde nos conhecemos. Como sabes gosto de voltar, de percorrer de novo os caminhos que marcaram a minha vida, de reviver com outros olhos o passado de que fui construído. Voltei e tudo está igual assim como tudo está diferente. Salamanca permanece a cidade deslumbrante que conhecemos. A Plaza Mayor nunca vazia e sempre cruzada qualquer que seja o nosso caminho, com a pedra de Villamayor brilhando ao sol de fim de dia como se os bustos quisessem ganhar vida e libertarem-se das colunas sobre as quais repousam. Os estudantes, sempre os estudantes como nós fomos, num burburinho que dura todo o dia e se acentua quando a noite já caiu e grupos se encontram debaixo do relógio, esse tão habitual e recorrente ponto de encontro dos tempos em que os telemóveis não existiam e precisávamos de hora e sítio.

Percorri sem destino, como tantas vezes, estas ruas que me encantam, como se me encontrasse no cenário de um filme sobre a minha vida e tudo estivesse elevado a um estado onírico de paixão. A Calle Rua, que passado o arco nos leva direito às Catedrais, essa coisa tão única que Salamanca tem de manter duas catedrais uma encaixada na outra. Voltar ao Pátio de Escuelas, relembrar o “Burgueses de Calais” que aqui estiveram expostos, e pensar na história, no conhecimento, nas pessoas que aqui passaram. Entrar no claustro de “Las Dueñas” e maravilharme, como da primeira vez, com este lugar tão único e meu, onde fico apenas olhando e sentindo a especial aura que o envolve, sem esquecer de, à saída, comprar os deliciosos bolos feitos com carinho pelas freiras de clausura. Não me canso de passear nesta cidade, de descer ao rio e olhar da outra margem do Tormes a silhueta da cidade ao por-do-sol.

Voltei aos nossos sítios, aqueles onde deixámos correr o tempo em conversas infinitas sobre nós, a vida, o mundo, os nossos sonhos, em frente a tapas e copos de vinho. Aos lugares onde dançámos até de madrugada, onde sorrimos e esquecemos o mundo. Alguns fecharam, não se fechando nas nossas memórias, outros permanecem iguais, ou quase iguais pois já por nós não são habitados.

Gosto de voltar por tudo o que permanece igual, mas também pela nostalgia do que mudou, acima de tudo gosto de voltar, ainda que o que mais falte sejas tu, tu e os outros que fizeram da nossa vida em Salamanca um momento especial que mudou o nosso destino. Nem que seja por nos termos conhecido. Só por isso já teria valido a pena. Sendo que para além disso houve Salamanca, esta cidade que é minha.

“Un beso enorme, te echo de menos”,

Por :João Albuquerque Carreiras

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