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Perve Galeria apresenta obras únicas realizadas durante a independência de Angola, 50 anos depois.

Perve Galeria apresenta obras únicas realizadas durante a independência de Angola, 50 anos depois.

A primeira exposição antológica da artista Renée Gagnon, única artista que durante as décadas de 1970 e 1980 desenvolveu um profundo trabalho plástico e de investigação sobre os Musseques de Luanda, está patente até ao dia 18 de janeiro na Perve Galeria e na Casa da Liberdade – Mário Cesariny, em Alfama. Através das suas emblemáticas fotografias e pinturas, Gagnon captura as profundas transformações sociais e urbanas do país antes e após a independência de Angola.

A exposição ganha uma relevância ainda maior neste momento, à medida que se aproximam as comemorações dos 50 anos das independências dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). O trabalho de Gagnon oferece uma perspetiva única sobre as questões históricas e sociais que marcaram não apenas Angola, mas toda a região lusófona, refletindo sobre o impacto da independência nas comunidades e nas cidades.

Renée Gagnon, nascida em Montreal em 1942, e radicada em Lisboa desde 1970, dedicou parte importante da sua obra a Luanda, onde residiu entre 1972 e 1974. Durante esse período, a artista observou e documentou a vida nos Musseques, os bairros periféricos de Luanda, habitados por comunidades que, em resposta à exclusão social e à escassez de recursos, reutilizavam materiais descartados para construir as suas casas. Este processo de construção improvisada e criativa, que unia arte e funcionalidade, ficou marcado na obra de Gagnon como uma poderosa metáfora de resistência e adaptação. A série fotográfica dedicada aos Musseques, apresentada nesta exposição, captura a complexidade dessas comunidades, transformando estruturas frágeis em símbolos de engenho e resistência.

Os Musseques de Luanda, tradicionalmente caracterizados pela exclusão socioespacial, tornaram-se, ao longo do século XX, o local de habitação para milhares de pessoas que migraram do campo para a cidade, em busca de trabalho e melhores condições de vida. A cidade, marcada pela convivência entre a formalidade e a informalidade, é um reflexo de um processo contínuo de transformação. A complexidade urbanística de Luanda é o resultado de um crescimento desordenado e da adaptação de comunidades a uma realidade de rápida urbanização, onde a areia e o asfalto, a infraestrutura e a habitação se entrelaçam sem fronteiras definidas.

O trabalho de Renée Gagnon é uma janela para essa realidade, apresentando não só a resistência das estruturas, mas também a fragilidade dessas construções que foram moldadas pelo engenho e pela necessidade. A diversidade de materiais reciclados utilizados na construção dessas casas – tonéis de vinho, chapas de metal, madeira, plásticos, tecidos e outros resíduos – revela um processo criativo que, mesmo em tempos de adversidade, tornou possível a criação de um lar. As fotografias da artista tornam-se assim documentos históricos e artísticos de grande valor, pois capturam um momento específico de transformação social e urbana, que ainda hoje não tinha sido amplamente reconhecido.

A exposição vai ainda além da abordagem dos Musseques, apresentando na Casa da Liberdade – Mário Cesariny, outras fases significativas da obra de Gagnon. Ao longo da sua carreira, a artista explorou temas como a reinterpretação de paisagens e patrimónios culturais, e a investigação sobre os vestígios de ancestralidade cultural na Europa.

A mostra, que reúne uma seleção das obras mais relevantes produzidas desde os anos 1970 até à atualidade, oferece uma visão abrangente da produção de Renée Gagnon, que reflete a evolução da sua arte e a sua conexão com os contextos históricos e sociais que a influenciaram. Ao associar esta mostra à celebração dos 50 anos das independências dos PALOP, Obstinada.mente ganha uma nova relevância, ao fornecer uma perspetiva única sobre as memórias e as identidades em construção dos países de língua portuguesa, ao longo das últimas décadas.

A exposição estará patente na Perve Galeria e na Casa da Liberdade – Mário Cesariny até o dia 18 de janeiro, e é uma oportunidade única de revisitar um capítulo importante da história recente de Angola e das transformações sociais e culturais que marcaram a segunda metade do século XX.

Mais informação e catálogo da exposição: www.pervegaleria.eu.

 

 

Fontr: perveglobal.com

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