Artigo

PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA – DIA (4 Chaiten, Carretera Austral, Chile)

Por detrás desta fotografia está o gosto em viajar de carro. Não que durante uma viagem pela Carretera Austral nos limitemos a andar de carro de um lado para o outro. Não, não é disso que se trata. Mas viajar de carro pode ter um apelo especial por estes lados.

A viagem de carro pela Carretera Austral, ao longo dos seis dias completos de jornada, levou-nos a percorrer cerca de novecentos quilómetros no nosso Chery Tiggo (não, não é Chevy, é mesmo Chery), branco como a neve e cuja maior característica era a falta de potência gritante que nos levava, mesmo nas subidas mais leves e pouco íngremes, a ter de engatar a segunda para sobreviver e conseguir chegar ao topo.

A Estrada n.º 7 do Chile, comummente conhecida por Carretera Austral, pode ser percorrida de muitas maneiras. Venha o diabo e escolha. A pé, a correr ou a caminhar, de bicicleta, em motas de todos os tamanhos, cores e feitios, de barco pelo mar ao longo da costa sem nunca perder a terra de vista, são muitas e variadas as formas através das quais se podem percorrer os caminhos desta zona do mundo. No nosso caso, decidimos fazer grande parte do caminho que tínhamos pela frente de carro.

Por entre fiordes, montanhas, pontes, passadiços e passeios à boleia de ferryboats, a Estrada n.º 7 ziguezagueia pelo meio de uma cadeia montanhosa imponente. A vegetação verde chega até ao mar, os cumes e picos mais altos cobertos de neve fazem-se notar a partir de onde quer que sejam vistos, cascatas rasgam as íngremes colinas a meio e encontram-se com a água salgada no seu final. Por esta estrada conduz-se calmamente, com boa música escolhida a dedo e preceito a acompanhar. As vistas são constantemente lavadas à medida que, vagarosamente e sem qualquer pressa, avançamos alcatrão fora.

Pelo meio, algumas paragens estratégicas. Umas para comer, onde puxamos para fora da bagageira do carro a nossa mala de vinte e quatro quilos de comida trazida de Portugal e que poupou aos seus portadores uns tostões valentes (sim, porque os preços por cá são tão altos que se justifica um tal atrevimento), e que depois de aberta, num sítio abrigado, permite deliciosos e alegres convívios não à volta da mesa, mas antes da mala. Sandes de tudo e mais alguma coisa, umas cervejas a acompanhar e um doce para os mais gulosos no final, é difícil pedir algo melhor. Outras paragens para pura e simplesmente abrandar o ritmo, parar, sair do carro, esticar as pernas e respirar o ar fresco da montanha, ouvir os pássaros e, em silêncio absoluto, apreciar a paisagem que se estende diante nós, que de acelerada passa a estática num mero instante. Uma paisagem que, embora estática, nunca o é verdadeiramente, já que os rios continuam a correr, as vacas e as ovelhas continuam a movimentar-se, as nuvens a planar, os pássaros a voar e o vento a fazer mexer tudo o que há para mexer. E ainda paragens finais para caminhar por entre a densa vegetação, por vezes sem destino algum, apenas e tão só para sentirmos que fazemos parte do cenário natural com que nos deliciamos a cada instante.

Cada um faz a Carretera Austral como bem lhe apetece e dá na telha. E está tudo bem assim. Quanto a nós, optámos por esta forma, e a verdade é que não poderíamos ter escolhido melhor forma de a percorrer.

Fonte: Nuno Barros

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